Está de portas abertas desde 30 de Maio e assim se deverá manter até, pelo menos, 30 de Agosto. O tempo de vigência da exposição “Do Sagrado na Arte – Evangelhos Comentados por Artistas” serve de período experimental para o eventual ressuscitar da Livraria Sá da Costa, ao Chiado, encerrada na primeira semana de Agosto passado, dois meses após completar um século de existência. “Fomos convidados pelos organizadores da exposição a manter este espaço aberto durante este período, mas é possível que venhamos a explorar a loja, depois disso”, diz ao Corvo o alfarrabista e gerente da Livraria Castro e Silva, Pedro Castro e Silva, que já tem planos para dar nova vida ao lugar.

Na verdade, a reabertura da Sá da Costa é ela mesma o elemento central de uma das obras da mostra, da autoria do artista Tomás Colaço. “Foi-me proposto este espaço para eu expor a minha obra e eu decidi transformar, no fundo, uma livraria numa…..livraria. Por essa razão, o Pedro Castro e Silva foi convidado a participar e vender livros. O projecto tem nome, chama-se ‘Viver com os Outros’ e parte de um título de um livro de uma escritora Isabel da Nóbrega, também ela, ‘passada à história’ como o próprio espaço Sá da Costa”, explica o seu criador, por escrito, ao Corvo.

A mostra de arte inspirada nas escrituras cristãs – que decorre também no Mosteiro de São Vicente de Fora e na Igreja de Santa Catarina, abarcando trabalhos de 33 artistas portugueses, como Rui Chafes, Julião Sarmento, Pedro Calapez, Pedro Casqueiro ou Ângela Dias – vai servindo de pretexto para o insuflar de vida nova a um estabelecimento encerrado depois de um longo definhar. As portas da loja fecharam-se em definitivo após uma ordem do Tribunal de Comércio de Lisboa, que a declarou insolvente em meados de Julho de 2013 e, por isso, incapaz de se manter em actividade. As dívidas eram, há muito, um peso insustentável. Os credores não estavam dispostos a esperar mais. Um milhão de euros seria o valor do passivo.

Foram os responsáveis pela massa falida, tutelada pelo poder judicial, quem pediu a Pedro Castro e Silva que animasse a icónica livraria, durante a exposição. As obras expostas ao centro da sala principal constituem-se como o motivo para a reabertura da loja – que, nos últimos meses, oferecia um aspecto desolador a quem espreitasse para o seu interior -, mas são os livros colocados nas suas prateleiras quem lhe confere a aura que faz agora muitos turistas, ou simples curiosos, deterem o passo à porta, entrarem, mostrarem genuína admiração e fotografarem. Um espanto que se estende bem até lá ao fundo, às salas há muito fechadas e agora reabertas por Pedro. No interior, pilhas e mais pilhas de livros são retiradas de sacos e de caixotes, limpas de pó e arrumadas.

 

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“Comprámos os livros que pertenciam à Sá da Costa e trouxémos também os que já tínhamos em armazéns”, explica o livreiro, sem saber responder à curiosidade do Corvo sobre o número de exemplares resgatados ao acervo da antiga livraria. “Eram toneladas de livros, mas a maior parte sem qualquer valor”, diz, antes de revelar que está a “estudar se é possível reestruturar a empresa” e voltar a pô-la em funcionamento, conferindo existência renovada a um estabelecimento que faz parte da lista de “bens imóveis de interesse municipal e outros bens culturais imóveis” do Plano Director Municipal de Lisboa – para além disso, a 24 de Julho de 2013, a poucos dias do fecho, a autarquia votou uma moção pedindo a classificação da livraria como “imóvel de interesse público”.

O potencial da Sá da Costa, nota Pedro Castro e Silva, “é não apenas comercial, mas sobretudo cultural”. Fazendo uso das belíssimas arquitectura interior e decoração em estilo Art Déco, mas também do imenso poder cenográfico oferecido pelas estantes em madeira repletas de livros – muitos deles raridades resultantes da junção dos acervos da Sá da Costa e da Livraria Castro e Silva -, a ideia passará por “transformar este espaço numa espécie de sala multiusos de cariz cultural, tornando a livraria num ícone da cidade, assim como a Lello o é para o Porto”, deseja o alfarrabista. O sucesso das negociações com os administradores da massa falida ditará, então, o eventual renascer de uma das mais emblemáticas livrarias do Chiado e da capital. Desta vez, como alfarrabista.

 

* Texto actualizado às 18h00 de 24 de Junho, com declaração de Tomás Colaço.

 

Texto: Samuel Alemão

  • João Barreta
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    Também é deste comércio e destes possíveis “entendimentos” que se pode fazer acontecer, neste caso, urbanismo comercial. Bem haja quem vier por bem!!!!

  • Ana Torres Pereira
    Responder

    Livraria Sá da Costa renasce por três meses como alfarrabista e poderá manter-se http://t.co/cexNPyT0wD

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Excelente notícia mas atenção: a CML não aprovou classificação de interesse público (só a DGPC o pode fazer…) mas municipal, e nada foi feito até agora, que se saiba 🙁 Aliás, a proposta que foi votada é algo dúbia: classificaria o quê, exactamente? Fachada, portas, candeeiros de tecto? Óptimo. Actividade? Duvido que alguma vez o fizesse. E essa proposta está onde? Nos serviços para ser desenvolvida? Na gaveta? No lixo?

  • Claudia Guilherme
    Responder

    (y)

  • Creative Gifts
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    Livraria Sá da Costa renasce por três meses como alfarrabista e poderá manter-se | O Corvo |… http://t.co/73sSq1Are0

  • Fernando Pereira
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    Livraria Sá da Costa renasce por três meses como alfarrabista e poderá manter-se http://t.co/KZXOnbXBXi

  • Vanessa Marques
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    Livraria Sá da Costa renasce por três meses como alfarrabista e poderá manter-se http://t.co/la1nom6Frw

  • Fancaria
    Responder

    já lá fui e está cheia de livros a bons peços .http://t.co/FFal1zfS2o

  • Carlos Maciel
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    RT @fancaria: já lá fui e está cheia de livros a bons peços .http://t.co/FFal1zfS2o

  • Concha D'Olhaberriague
    Responder

    Estou muito contenta de ver a Livraria Sá da Costa com livros mais uma vez. Sou uma Espanhola namourada de Lisboa e gosto especialmente das ruas do Chiado, Bairro Alto, Alfama, Campo de Ourique. Lisboa sem Sá da Costa nâo posso imaginar-la . Foi uma grande alegria !

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