Livraria Fumaça: um alfarrabista a esvanecer às portas da Praça da Alegria

REPORTAGEM
Samuel Alemão

Texto

CULTURA

Santo António

4 Abril, 2018

Os livros sempre foram a melhor forma de António Abreu Fumaça, 85 anos, suportar a baralhação do mundo. Ajudante de livreiro a partir de uma adolescência que não teve, desde então neles encontrou os mais sólidos pilares para compreender o que o rodeia, mas também uma profissão abraçada como uma fé. Nos últimos anos, o seu maior receio é que o tecto lhe desabe em cima da cabeça, tal o estado de degradação a que chegou a livraria por si gerida – num anónimo e decrépito edifício situado num pátio a poucos metros da Praça da Alegria, a dois minutos a pé da Avenida da Liberdade. Mas os livros lá estão, como sempre, para tentar evitá-lo. Em cima de algumas das estantes a transbordar de exemplares amarelecidos, são eles quem faz a vez de escoras para tentar travar a derrocada iminente num espaço com 20 mil livros.

O tecto da Livraria Fumaça, situada no pátio 1 do número 12 da Rua da Alegria, encontra-se em estado de previsível ruína há já alguns anos, ameaçando ceder à irrevogável vetustez que, desde há muito, parece ter-se apoderado de um estabelecimento com existência de narrativa algo imprecisa. Apesar de funcionar como armazém de livros desde 1965, assegurando a retaguarda de uma livraria na zona do Chiado, apenas terá passado a funcionar como casa comercial em nome próprio “há coisa de 30 anos”, explica o veterano alfarrabista, lamentando o estado a que chegou o negócio. Envolvido num imbróglio jurídico, que o opõe ao senhorio, a Câmara Municipal de Lisboa (CML), desde o início deste século, António explica a O Corvo estar “à espera que a câmara faça obras no edifício ou pague a indemnização que é devida”. Enquanto isso não acontece, há recipientes espalhados pelo chão da livraria a acolher as gotas que vão pingando do tecto.

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A raiz dos problemas que apoquentam o comerciante, queixa-se ele, estará na decisão da autarquia de não reabilitar o conjunto de edifícios situado nas traseiras do antigo Parque Mayer – recinto em que se insere o dilapidado imóvel. Com o passar dos anos, pautados por falta de manutenção, as condições de habitabilidade da loja e dos anexos foram-se degradando até ao quase insustentável. E ter-se-ão agravado depois de a Câmara Municipal de Lisboa ter assegurado a posse do antigo complexo de teatro de revista, na sequência do conflito mantido com a Braga Parques, antiga senhoria do espaço. O polémico negócio fez correr muita tinta na década passada. Mas também teve como efeito colateral a indefinição, ainda hoje persistente, sobre o que fazer tanto com os terrenos da antiga Feira Popular de Lisboa, como do Parque Mayer.

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António Fumaça recebe os clientes no interior de um pátio junto à Praça da Alegria

Em 2010, já António havia sido notificado pela CML de que teria de sair do local onde exerce a actividade de livreiro há mais de meio século, por os serviços municipais considerarem inviável a reabilitação do edificado do número 12 da Rua da Alegria. Tem tudo que vir abaixo, explicou-lhe a edilidade, sugerindo que, acaso fosse sua vontade, poderia arrendar uma das muitas lojas vagas nos rés-do-chão de prédios municipais existentes em diversas freguesias da cidade. Mas a localização em zonas periféricas de Lisboa e, ainda assim, o elevado preço de renda – face aos 62 euros que paga actualmente – fizeram-no recusar a proposta. O inconformismo do alfarrabista face ao desfecho traçado por terceiros levou-o a travar, desde então, uma quixotesca resistência. Desgostado com o que considera ser uma decisão errada da câmara, levou o caso para tribunal, exigindo a realização de obras ou o pagamento de uma indemnização a que diz ter direito. Mas não se adivinha um desfecho para breve.


 

 

Enquanto o caso se arrasta nos interstícios da máquina judicial, a erosão do tempo e a precárias condições do espaço, cada vez mais debilitado pela falta de obras de conservação, vão contribuindo para a lenta agonia desta espécie de arca bibliófila. História, arte e literatura são as áreas privilegiadas num acervo com uma diversidade temática suficiente para o considerarmos bastante eclético. “Trabalho com livros antigos, dentro de todos os géneros, mas dou preferência a certas temáticas”, explica António Fumaça, fazendo notar a sua predilecção por “livros raros, coisas esgotadas”. Por regra, era isso que comprava, tentando assim saciar os refinados apetites livreiros da clientela – informada das novidades através de um catálogo com periodicidade “quase mensal”, o qual faz questão de dactilografar e fotocopiar, enviando-o por correio para cada um dos “oitocentos e tal nomes” que conserva no ficheiro.

 

 

Mencionou-se que as aquisições de António Fumaça eram, sobretudo, de exemplares antigos, coisas esgotadas, como as primeiras edições de certas obras – “tenho especial interesse por nomes do modernismo português, Pessoa, José Régio, Mário de Sá-Carneiro” -, porque isso ficou lá atrás. “Já não compro livros há tempo. Agora, também não se vende nada”, queixa-se, lamentando a quebra nos hábitos de leitura e de compra da clientela nacional. “Não sei o que se passa com os portugueses, não percebo. Os estrangeiros ainda vão comprando alguma coisa. E, quando aqui entram, ficam fascinados”, conta. O facto de a livraria Fumaça se situar ao fundo de um esconso pátio de um edifício em semi-ruína não ajuda nada a atrair potenciais novos clientes. E isso é, definitivamente, um problema quando os habituais “têm vindo a morrer”. Tendo-se iniciado no negócio aos 14 anos, como ajudante do alfarrabista Moreira & Almeida, da Rua Anchieta, António sente aproximar-se a última página de uma história de sete décadas.

 

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