Numa altura em que dependemos de avaliações exteriores para conseguirmos dinheiro e nos gabamos da reputação de Lisboa como destino turístico, é útil recordar o olhar de um estrangeiro, há mais de dois séculos. O publicista e médico francês Joseph-Barthélemy-François Carrère não nos dava a cotação de “lixo”, mas a avaliação que fazia da capital portuguesa andava lá perto.

 

Texto: Mário de Carvalho

“O governo português bem pode ser comparado a uma criança a quem o medo dos açoites torna humilde, obediente, dócil, submissa e rastejante diante do mestre, e que, por sua vez, se vinga do constrangimento e das humilhações que sofre nos seres mais fracos, que por não lhe poderem resistir, lhe fazem as vontades”. A citação não é de nenhum dos deputados da oposição na Assembleia de República, porém a sua atualidade é impressionante. O seu autor é o emigrado francês Joseph-Barthélemy-François Carrère, médico e publicista,  que residiu em Portugal, entre 1793 a 1795, tendo escrito o livro “Panorama de Lisboa no ano de 1796”, uma visão muito crítica da sociedade lisboeta.

 

Castelo Branco Chaves, responsável pela coleção “Portugal visto pelos Estrangeiros” e tradutor do livro, afirma no prefácio feito em 1989: “Na sua maioria, as opiniões dos visitantes estrangeiros que escreveram sobre o nosso país não nos são lisonjeiras, mas também é certo que houve alguns que excepcionando a regra, não só tentaram ser justos e, o que é mais, saíram a impugnar erros e aleivosias (…)”.

 

Carrère parece não ter tido uma vida fácil em Lisboa, pois Pina Manique, uma das principais figuras do absolutismo, com a sua polícia reprimia qualquer evidência que contrariasse o sistema político vigente, nomeadamente as ideias do iluminismo e da Revolução Francesa.

 

O médico francês confessa que foi forçado pelas circunstâncias a vir para Portugal, onde, diz: “Vi, observei, mas sempre em silêncio. A atual forma de governo deste pequeno país impunha-se as mais sensatas preocupações e a mais completa reserva.”

 

Os receios de Carrère vão ao ponto de temer as consequências da apreensão das suas notas. “Ficaria perdido se houvesse suspeita da natureza das minhas observações e as notas que ia tomando seriam apreendidas e a minha pessoa carregada de ferros e sepultada numa masmorra, donde não mais sairia à luz do dia”.

 

A questão do policiamento na capital não deixa de ter a sua atenção, bem como o nome do intendente Pina Manique, que, segundo afirma, se tornou famoso pelos seus abusos de autoridade, inspirando o terror e o medo.

 

Sobre a limpeza e iluminação das ruas da capital, a situação relatada era confrangedora. No primeiro caso, diz que as ruas só eram varridas em ocasiões especiais, como as procissões, pois a lama existente é tanta que impossibilita o andar “sem nos enlamearmos até aos joelhos”. Na época seca, é a poeira que predomina. Para a evitar durante a passagem de procissão do Corpo de Deus, as ruas são cobertas de areia.

 

Chamando a atenção que as artérias de Lisboa, que pela sua configuração eram propícias ao assassínio e ao roubo, refere que em 1790 foi lançado um imposto para implementar a iluminação. Castelo Branco Chaves precisa que foi Pina Manique a delinear um plano de iluminação para capital através e uma proposta que apresentou ao governo, concretamente ao marquês de Angeja.

 

Perante a não aprovação do plano, Pina Manique decidiu de forma “arbitral” avançar, obrigando os mestres latoeiros da cidade a fazerem seis candeeiros cada, ao mesmo tempo que cada morador, com as suas casas em ruas iluminadas, pagaria cem réis mais um quartilho de azeite de 27 em 27 dias.

 

A 17 de dezembro de 1780, foi inaugurada a iluminação nas ruas de Lisboa, com setecentos candeeiros, quando o plano inicial apontava para dois mil. O plano acabou por falhar por falta de verba para custear a compra do azeite, tendo desta forma Pina Manique ordenado a recolha dos candeeiros, que só voltaram a dar luz a 21 de fevereiro de 1781, por iniciativa do conde de Linhares.

 

O médico francês, sempre parco em descrever elementos positivos na cidade, volta a chamar a atenção para a falta de salubridade nas ruas, no capítulo com o nome original “Pots de Chambre”. Trata-se de um hábito que ocorre depois das nove da noite: “abrem-se as janelas e nelas assoma uma chusma de bacios que avançam para fora dos paradeiros, e logo por todos os lados desaba uma chuva de excrementos infectos, de que só posso resguardar-me caminhando encostado às paredes”.

 

Mas o relato não fica por aqui, pois os peões atingidos ainda são alvo de chacota. “Estes acidentes acontecem muito frequentemente em Lisboa e quem anda nas ruas desta cidade está sempre em risco de ficar encharcado e coberto de porcaria.” Nestes casos, alguns recorrem aos tribunais, mas são processos que podem durar cinco a oito anos, sem qualquer efeito prático, acabando o queixoso por desistir da ação por “desgosto, cansaço ou falta de dinheiro”.

 

Não poupando críticas ao governo, Carrère afirma que na Europa, Portugal é “o reino mais pequeno, mais fraco, mais insignificante; vive em estado permanente de crise entre duas fortes potências que poderiam, qualquer delas, aniquilá-lo rapidamente.” O médico francês referia-se à Inglaterra e à Espanha.

 

Sobre a vida social da corte, destaca o facto de esta assistir sempre à procissão do Corpo de Deus. Em 1792, tudo estava pronto para a cerimónia, quando o intendente de polícia informou a membros de corte de que as ruas por onde deveria seguir a procissão eram de alto risco, pois estavam “cheias de pólvora”: resultado, os membros de corte não participaram no evento, mas o povo da cidade respeitou o ritual religioso.

 

Da justiça de 1796 para a de 2014, a evolução parece uma ilusão perante o relato feito por Carrère, denunciando a morosidade dos tribunais portugueses. Classificava-os como “vagarosos na administração da justiça, bem como na investigação e punição dos crimes públicos, em contraste com o despotismo ministerial, que é precipitado no exercício da sua autoridade, injustíssima e em extremo arbitrária”.

 

Os temas abordados por Carrère são variados e incluem política, saúde pública, sociedade, justiça, ensino (tem um capitulo dedicado à Universidade de Coimbra), clero e muitos outros, alguns bem específicos, como os enterros ou mendigos.

 

O livro traduzido por Castelo Branco Chaves tem 198 páginas. Trata-se de uma edição de 1500 exemplares da Biblioteca Nacional, publicada em 1989, e é uma raridade que pode eventualmente ser descoberta num alfarrabista.

 

Colaborador da revista Seara Nova, Castelo Branco Chaves privou com Manuel Teixeira Gomes e António Sérgio – que lhe confiaram os respectivos espólios, entregues posteriormente à Biblioteca Nacional, na sequência de sua morte, em 1992.

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