Lisboa vista da outra margem

REPORTAGEM
Rui Lagartinho

Texto

Paula Ferreira

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

16 Maio, 2016


Apesar de ser uma evidência, a constatação prática que uma das vistas mais completas de Lisboa se consegue atravessando o rio Tejo e indo até a Cacilhas ainda é, para muitos, um passeio de descoberta. O Corvo apanhou o cacilheiro e faz-lhe um pequeno roteiro do que pode ver depois da passagem para a outra margem. Uma jornada, com a zona central da capital sempre na linha do horizonte, a pensar nos dias de sol que se anunciam.

Para a geração de lisboetas com mais de quarenta anos, uma ida ao Ginjal para almoçar nos restaurantes Floresta do Ginjal, Gonçalves e Farol representava um programa familiar, às vezes agradável, às vezes compulsivo. Hoje, só o Farol sobrevive, reinventado e revigorado com os turistas que atravessam o Tejo de cacilheiro, a partir do Cais do Sodré. Um bilhete de ida e volta custa 2.40 euros.

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Com a diminuição da actividade económica, nas últimas décadas, nesta zona – dominada pelos estaleiros navais próximos, que, entretanto, encerraram -, a maioria dos restaurantes e tascas fecharam portas. E a Ponte 25 de Abril foi dando outras alternativas aos lisboetas que atravessavam o rio de barco em jeito de passeio.

A esquina do Farol, onde se comem dos melhores rissóis de camarão de Lisboa e arredores, é o ponto de partida para um passeio com a capital no horizonte, numa espécie de lente de grande panorâmica, do Cais do Sodré ao cais da Rocha Conde de Óbidos.

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Vinte metros à frente, sempre no passeio do Ginjal surgem os primeiros pescadores. O tempo do reinado da tainha já lá vai. Desde que o Tejo começou a estar menos poluído, é frequente algumas corvinas deixarem-se apanhar e, sobretudo, aparece muito choco, como aquele que um pescador nos mostra: “Mas, mesmo assim, é preciso ter paciência e ser persistente”.

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A série de armazéns que se encadeiam uns nos outros – antigos armazéns de vinhos, fábricas de conservas, de gelo – está em ruína, mas há um acordo tácito para que os pescadores aqui guardem isco, canas e baldes. Para além dos pescadores, até chegarmos à praia do Ginjal, no caminho estreito e até salpicado, cruzamo-nos com alguns turistas matinais e um ou outro corredor. Os almadenses preferem outros caminhos para chegar a Cacilhas. Há que ter espírito e ignorar alguns avisos de derrocada de algumas partes do paredão entretanto protegidas pelo município.

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A praia do Ginjal, pequena, mas no Verão frequentada por alguns moradores que aqui vêm apanhar sol com os netos – e o local em torno do qual se instalaram dois restaurantes que, nos anos recentes, se tornaram famoso pelas vistas, sobretudo quando o sol cai – é a paragem seguinte. No Atira-te ao Rio e no Ponto Final, a cozinha é simples: saladas e peixe fresco para grelhar. Qualidade média, o preço inclui a localização: 20 euros.

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Deixados para trás os restaurantes, chegamos a um jardim com dois ou três tapetes de relva que convidam ao estiranço, já estamos quase em frente do Museu Nacional de Arte Antiga.

Um elevador panorâmico inaugurado no princípio do século XXI conduz-nos ao miradouro panorâmico da Boca do Vento, em Almada. A cinquenta metros de altura, a mancha verde da serra de Monsanto é mais perceptível, a Ponte 25 de Abril dá a ilusão de quase se poder tocar.

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Num dia bom, podem subir para ver as vistas mais de trezentas pessoas. Está aberto das 8 da manhã à meia-noite e a ida e volta custa 1 euro. Ciclistas e pescadores carregados de baldes são clientes habituais para além, é claro, dos turistas.

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Voltando as costas ao rio, uma casa domina a encosta. A Casa da Cerca, debruçada sobre o Tejo, vai ser a nossa última paragem deste passeio com Lisboa no horizonte. Instalada numa antiga quinta adjacente a uma casa senhorial, cuja construção se iniciou no século XVII, tem ainda visíveis alguns traços que a tornam num bom exemplo de barroco civil.

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Na Casa da Cerca, comprada pela Câmara Municipal de Almada em 1992, funciona um Centro de Arte Contemporânea dedicado sobretudo ao desenho de artistas plásticos portugueses – a exposição que agora se pode visitar revisita essa colecção permanente -, mas também um jardim didáctico, o Chão das Artes, dedicado às plantas que são utilizadas na pintura e nas telas. A entrada é livre.

E ambos desembocam num magnífico jardim, com uma vista de Lisboa inesquecível, servida por uma boa cafetaria. Há tempo para um café, que se prolonga com gosto. Uma estátua de Neptuno serve de patrono ao espaço.

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Lisboa está, neste início de tarde, límpida e nítida, com bom recorte. Quase imaginamos que se pode repetir a cena de Frei Luís de Sousa, drama de Almeida Garrett, quando Madalena, a esposa de Dom João de Portugal, habitando uma quinta aqui ao lado, manda o seu aio Telmo vigiar a travessia de barco do marido, partido em negócios a Lisboa, e trazer-lhe notícias do desembarque seguro na outra margem.

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Mas, abandonando os devaneios literários num dia como aquele em que visitámos a Casa da Cerca, até apetecia ter uns binóculos para ver quem ocupa os camarotes de um enorme paquete de cruzeiros atracado em Alcântara.

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COMENTÁRIOS

  • Sónia
    Responder

    Adoro, só falta uma fotografia da reabilitada Rua Cândido dos Reis em Cacilhas, é sem dúvida um local que atrai muita gente e complementa todos estes outros espaços.

  • Álvaro Pereira
    Responder

    Como estamos a falar da Margem Sul, venho fazer uma sugestão: devia voltar a haver carreira fluvial da Transtejo entre Lisboa e Alcochete. De certeza que teria muita procura de pessoas para irem ao Freeport e adeptos de futebol para irem à Academia do Sporting! E a vila de Alcochete é muito bonita e seria uma boa opção para um passeio de fim de semana. Só a paisagem durante a viagem valeria por isso. E já não falo das fogaças de Alcochete, que eu adorei na minha infância, e ainda adoro!

  • Carlos Maciel
    Responder

    Lisboa vista da outra margem https://t.co/SoFWKGQWXS

  • josé inocentes
    Responder

    bom dia.
    hó amigos vocês conhecem muito mal Almada , não conhecem?
    Foram as melhores, a nível de fotos, que o Sr. Corvo conseguiu?
    O Ginjal tem muita história para ser contada! e ouvida!
    eu tenho 41 anos e vivi uma época fabulosa entre a ponte e cacilhas.
    tempos aureos.
    Almada é para ser vivida de dia e de noite.
    um grande bem haja.

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