A capital portuguesa acolhe muitos bolseiros dos programas Erasmus e Leonardo, ainda que a sua escolha nem sempre corresponda à primeira opção dos jovens estudantes. O Corvo esteve à conversa com alguns e pediu-lhes para nos contarem a sua experiência na cidade e nos dizerem como valorizam a possibilidade que lhes foi oferecida. O elogio a Lisboa é consensual.

 

Texto: Carlos de Antonio                 Fotografia: Pedro Fernández

 

Uma noite qualquer no Bairro Alto. Por ali circulam grandes quantidades de jovens dispostos a divertir-se, mas o que mais chama a atenção para eles é que nem sequer metade são portugueses. Uma palavra em inglês e viram-se cinco pessoas ao redor. Se for em espanhol, alemão ou italiano também sucede o mesmo. A grande maioria deles são estudantes do Erasmus ou bolseiros do Leonardo.

 

As bolsas do programa Erasmus (Plano de Acção da Comunidade Europeia para a Mobilidade de Estudantes Universitários) são dotações económicas conferida a estudantes para poderem estudar em alguns países aderentes ao plano, sempre diferente do país de origem do solicitante. A bolsa Leonardo é o seu equivalente, mas orientada para a entrada no mundo laboral dos licenciados e graduados.

 

Como estado membro, Portugal é um emissor e receptor de estudantes e graduados através das referidas bolsas. Por isso, são vários os destinos nacionais escolhidos por eles, mas Lisboa destaca-se largamente dos restantes. A origem dos bolseiros que aqui chegam é muito diversa, desde a vizinha Espanha, passando pela Polónia, Itália, Alemanha ou França.

 

Esse é o caso de quatro jovens estagiários em distintos programas, mas cujo destino escolhido foi o mesmo: Lisboa. Salvador Oliva (26 anos) e Federica de Berardinis (28 anos), ambos de Itália, David H. (21 anos), da Alemanha, e Mikel López (18 anos), de Espanha.

 

E falar com eles é perceber que as motivações e as experiências de cada um são tão diversas quanto as suas origens. Para Salvador (foto de abertura), que vem da Calábria, região do sul de Itália, a bolsa de Erasmus foi o modo através do qual pôde conhecer Lisboa. Havia sido já o seu destino há quatro anos e não teve dúvidas em regressar através da bolsa Leonardo, no passado mês de Setembro. “A bolsa do Erasmus dá muitas possibilidades, sobretudo revela-se como uma experiência pessoal. Conheces gente e culturas distintas. E isto apesar de o financiamento até ser escasso para as necessidades. Necessitas um apoio da tua família para poderes fazer isto, sobretudo porque apenas te depositam o dinheiro na conta passados os cinco primeiros meses, o que acaba por dificultar a vida do estudante”.

 

David H, da cidade de Hannover, acrescenta que esta é uma grande oportunidade para aprender e a aperfeiçoar idiomas. “Além disso, é muito benéfica para o currículo. A percentagem de Erasmus com trabalho é muito mais elevada que a dos restantes licenciados”, diz.

 

Mikel, bilbaíno – cidadão de Bilbao – de 18 anos, chegou a Lisboa através de uma bolsa Erasmus Plus, gémea da bolsa Leonardo. Para ele, trata-se de uma grande possibilidade para “conhecer gente nova e interessante”, mas, antes de mais, também é uma boa experiência profissional. “Tal como estão as coisas , era uma oportunidade irrecusável, ainda que o financiamento não tenha sido o suficiente”.

 

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O basco Mikel López, fotografado na Alameda Dom Afonso Henriques. 

 

O mesmo pensa Federica, italiana que está cá através do programa Leonardo. “É uma boa oportunidade para jovens desempregados poderem ingressar no mundo do trabalho. Esta bolsa económica europeia ajuda-nos a cumprir aqui esta temporada. Sem ela, seria impossível”, salienta.

 

Salvador tinha muito claro que o seu destino teria que ser Lisboa, após ter cá vivido há já quatro anos. Apaixonou-se pela cidade e as pessoas. E não quis desperdiçar a oportunidade de regressar. “Gostaria de viver aqui algum dia”, confessa ao Corvo. O motivo de David foi pessoal. “A minha namorada vive aqui e, além disso, o meu primo, que fez aqui o Erasmus, disse-me maravilhas deste sítio”.

 

Mikel, por seu lado, não tinha mais opções. “Era a única cidade disponível para a minha bolsa”, confessa. E Federica, pela sua parte, confessa que a sua primeira opção era Barcelona. “Mas alegro-me que me tivesse calhado Lisboa, estou muito contente aqui”.

 

Cada um deles tem formação ou está ainda a estudar em áreas muito distintas. Desde a engenharia industrial de David à especialização em laboratório de imagem de Mikel, passando pela economia e o turismo de Salvador e Federica. Percursos distintos correspondentes a diferentes opções.

 

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 A italiana Federica está mais focada no trabalho e sai menos à noite.

 

Mas se há coisa em que os quatro coincidem é que, para todos, Lisboa tem superado as expectativas. Para Salvador, que regressou após quatro anos, a cidade mudou muito. “Muitos bairros melhoraram. Acho que se tomou consciência de muitos problemas e se passou a valorizar o turismo”, afirma, antes de considerar: “Apesar disso, sinto-me tratado como apenas mais um lisboeta, não se tentam a aproveitar do turista”.

 

David acrescenta que, economicamente, esta é uma “cidade fantástica”. “A vida é mais barata que na Alemanha”, avalia. Mikel não hesita em acrescentar que sim, que a capital portuguesa superou “largamente” as suas expectativas.

 

Em muitos aspectos, e apesar das distintas opções académicas e profissionais, há uma coincidência na sua rotina aqui. Para eles, a semana compõe-se de trabalho e estudos durante a semana e diversão aos fins-de-semanas. “É uma loucura, ainda que o Leonardo acabe por ser forçosamente mais tranquilo que o Erasmus, pois há que cumprir trabalho”, explica Salvador.

 

O quotidiano lisboeta de Federica é mais tranquilo. “Trabalho e saio para jantar com as minhas amigas, mas saio pouco de noite, pois sou um pouco mais velha”, afirma entre risos. Já Mikel e David, esses, são assíduos do Bairro Alto, Feira da Ladra e Alfama. “Adoro a vida de rua da cidade”, afirma Mikel.

 

Também sobre os lugares que têm visitado, e que recomendam, as opiniões revelam-se variadas. “Recomendo a parte antiga de Lisboa, onde podes ver as pessoas mais velhas a fumar à janela. Isso faz-me lembrar a minha cidade na Calábria”, diz Salvador. Ele considera, sem dúvidas, que “o melhor é sair à rua, perder-se a descobrir a cidade, sem mapa”.

 

Mikel aponta para os mais óbvios trajectos turísticos e de diversão. “Bairro Alto, Castelo de São Jorge e, sobretudo, a ponte 25 de Abril, que é impressionante”. “Não há que esquecer a Praça do Comércio e os museus, como o de arte contemporânea , ainda que sem dúvida Belém seja o que não podes perder”, sentencia Federica, em sintonia com David.

 

São estes encantos, mais ou menos óbvios, suficientes para prolongar a sua estada em Lisboa após o fim das bolsas? Nenhum tem certezas, excepto Salvador. “Se me derem trabalho, fico sem pensar duas vezes. Assino contrato, agora mesmo”.

 

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O alemão David H. veio por causa da namorada portuguesa.

 

Para David, acaba por ser uma questão conjugal. “Depende da minha namorada”, responde, com um sorriso. Já Federica gostava de voltar cá mais tarde, mas não ficar a viver. “Regressaria mais tarde”, diz. Mikel admite que prolongaria a sua estada na capital portuguesa se surgisse a oportunidade. “Não duvidaria em fazê-lo”.

 

Uma das razões mais evidentes para causar este desejo de prolongar a estadia em Lisboa deve-se ao facto de, dentro do espaço comunitário, esta ser uma grande cidade e muito económica, se comparada com as suas homólogas europeias, como Paris, Londres ou Madrid. O grande problema reside na dificuldade em encontrar um posto de trabalho que permita levar a cabo a desejada extensão da estada.

 

* Texto rectificado às 16h15 de 2 de Dezembro. Corrige gralhas no último parágrafo.

  • Philip Sovaĝa Sanktuloj
    Responder

    ” Uma das razões mais evidentes para causar este desejo de querer prolongar a estadia em Lisboa deve-se ao facto de, dentro do espaço comunitário, esta ser uma grande cidade muito económica se comparada com as suas homólogas europeias, como Paris, Londres ou Paris. ” O Corvo ?

  • Luís Paixão Martins
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Lisboa, um destino alternativo para muitos jovens estudantes – http://t.co/nKha7YRRLW

  • O Corvo
    Responder

    Tem razão. Não fazia sentido. Já corrigimos. Obrigado.

  • Charles Dantoine
    Responder

    Lisboa, um destino alternativo para muitos jovens estudantes http://t.co/KSXFYh0M9A

  • D. Rivas
    Responder

    RT @CharlesDanto: Lisboa, um destino alternativo para muitos jovens estudantes http://t.co/KSXFYh0M9A

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