Lisboa pode combater a solidão pensando a cidade de outra forma, mas “há falta de vontade política”

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

25 Janeiro, 2019

Quando se fala em solidão, é inevitável pensar nos idosos, normalmente mais sozinhos e com mais dificuldade em participarem em actividades sociais. O isolamento afecta, porém, todos os grupos etários e, por isso, a Assembleia Municipal de Lisboa (AML) aprovou, por unanimidade, uma recomendação do PAN para combater o problema na cidade. Pretende-se, agora, fazer um mapeamento da solidão e a criação de campanhas de sensibilização para a temática, na qual “a autarquia tem obrigação de intervir”. “Se há 3 milhões de euros para gastar no WebSummit, também temos de ter verbas para o bem-estar das pessoas”, defende Inês Sousa Real, deputada municipal do partido. O combate à solidão poderá passar por soluções tão simples como colocar dois bancos virados de frente um para o outro num jardim, fomentando o diálogo entre as pessoas, ou até reduzir as viagens de carro. “A ditadura do automóvel”, que tem crescido na cidade de Lisboa, “não ajuda nada a diminuir o problema”, diz um pediatra.

A solidão afecta cada vez mais pessoas e o receio, ou preconceito, em falar de problemas do foro emocional começa a diminuir. O tema “não tem sido, porém, debatido de uma forma séria pela Câmara Municipal de Lisboa (CML)” , considera a deputada municipal Inês Sousa Real (PAN (Pessoas-Animais-Natureza), para quem “ainda há muita gente que não tem noção da dimensão da problemática”. A Assembleia Municipal de Lisboa (AML) aprovou, por unanimidade, na última sessão, realizada esta semana (terça-feira, 22 de Janeiro), uma recomendação do grupo municipal do PAN, na qual se propõe que sejam elaboradas medidas de combate à solidão na capital.

 

A proposta comtempla a criação de um grupo de trabalho que faça o estudo e mapeamento da solidão, em Lisboa, nos diversos grupos etários, a criação de campanhas de sensibilização para a temática, e actividades sócio-recreativas e culturais para os munícipes interagirem e conviverem mais. O grupo municipal sugere ainda a criação de uma linha de apoio para a qual as pessoas possam ligar, caso sinalizem algum caso de solidão na sua comunidade, e que as empresas passem a integrar mais programas para os funcionários e familiares. Segundo Inês Sousa Real, os grupos municipais, enquanto eleitos, “têm a obrigação e o dever de contribuir para uma cidade mais feliz e o bem-estar emocional de todos”, que “ainda é muito descurado das políticas públicas”, acusa.

O projecto Radar, um programa municipal que pretende fazer um registo dos 30 mil idosos que vivem sozinhos na cidade e criar condições para terem uma vida mais autónoma e feliz, arrancou no passado dia 7 de Janeiro. O protocolo entre a CML, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, a Polícia de Segurança Pública (PSP), as Comissões Sociais de Freguesias e as juntas de freguesia, propõe-se ainda a identificar as situações de risco e melhorar os serviços prestados aos mais velhos.

 

Inês Sousa Real diz que o PAN quer ir mais longe, não descurando nenhuma franja etária. “Esta temática ainda é comentada muito timidamente, e é sempre conectada aos idosos, o que é injusto. A solidão é transversal a todas as faixas etárias, como às crianças, que são muitas vezes desacreditadas e sentem-se sozinhas por isso. Mas também às vítimas de violência doméstica, aos sem-abrigo, às vítimas de bullying, aos desempregados, a pessoas em situação de pobreza extrema”, alerta.

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Apesar de ser mais sentido pelos idosos, o isolamento social é transversal a todas as idades e classes

A deputada municipal considera que, antes de se actuar no combate a este problema social, tantas vezes camuflado, é fundamental entender os motivos que estão subjacentes a tal sentimento. Inês Sousa Real até arrisca algumas razões para as pessoas se sentirem mais isoladas, em Lisboa. “A gentrificação aumentou muito o fosso das desigualdades sociais e o sentimento de solidão. Não podemos aceitar ser um parque de diversões para quem nos visita, que usufrui do melhor de Lisboa, e quem cá esteja a viver não esteja bem emocionalmente”, considera. Segundo a deputada, “não faz sentido não olhar para quem reside”, privilegiando-se apenas uma cidade para fora. “Se há 3 milhões de euros para gastar no WebSummit, também temos de ter verbas para o bem-estar das pessoas”, afirma. O combate à solidão faz-se, segundo a deputada municipal, “ao construir a cidade de uma forma que proporcione mais convívio entre os habitantes”.


 

De acordo com Mário Cordeiro, pediatra, a diminuição deste sentimento poderá passar por soluções tão simples como colocar dois bancos virados de frente um para o outro num jardim. “Podem-se fazer mudanças muito simples, que não custam muito dinheiro. Se tiver uma pessoa sentada à minha frente num jardim, se calhar, até lhe pergunto como está o tempo e meto conversa. A cidade está repleta de história nos jardins e nas ruas, e as escolas podiam trazer as crianças mais vezes à rua para conhecerem melhor a história de Lisboa”, exemplifica.

 

Criar mais espaços para fomentar o convívio e actividades, passar mais tempo com a natureza, mas também mudar a forma de olhar para algumas franjas da sociedade, poderá trazer uma diminuição significativa ao sentimento de solidão. “Nos lares de idosos e nos albergues de sem-abrigo, têm de começar a permitir a entrada de animais domésticos, porque para muitas destas pessoas são os únicos companheiros, ao longo de muitos anos. É preciso alterar-se, também, a forma como se olha para os idosos, como descartáveis e empecilhos”, reforça. O pedopsiquiatra diz que as crianças são vítimas de solidão, o que poderá também ter a ver com os hábitos dos progenitores. “Esta nova geração de pais pertence a uma geração habituada a estar em frente ao ecrã, e é preciso saírem de casa”, aconselha. O “espírito bairrista”, e hábitos como cumprimentar o dono do quiosque, ir a pé para o local de trabalho, ou passear o cão perto de casa, fomentam a interacção social.

 

 

A forma de viver os bairros lisboetas, porém, também se tem alterado muito, contribuindo para a diminuição de experiências de convívio. “É preciso estimularmos mais a vida de bairro, mas, com o aumento das rendas, as pessoas estão a afastar-se para as zonas de dormitório. E há zonas da cidade que precisam, francamente, de serem mais dinamizadas”, considera. Mário Cordeiro diz ainda que a alteração de rotinas, como andar de carro, “pode fazer toda a diferença”. “A ditadura do automóvel, que tem crescido na cidade de Lisboa, também não ajuda nada a combater a solidão. Saímos de um apartamento, descemos para a garagem, vamos para o local de trabalho – onde o ambiente é mais profissional – e voltamos para casa fechados entre quatro portas. Temos de alterar estas rotinas”, sugere o pediatra.

 

O ritmo acelerado da sociedade e o avanço galopante das tecnologias, sentido com mais intensidade nas grandes cidades, também contribuirá muito para o aumento da solidão. “A sociedade está virada para a produtividade, para o ‘fazer imediatamente’, e não para o ‘estar e ser’, o que não ajuda. A comunicação é feita através do olhar e exige tempo, e não há muito tempo numa grande cidade. A solidão é um paradoxo, numa sociedade com tantos meios de comunicação, que nos aproximam, mas também afastam”, considera o especialista. “Não acho que a Câmara de Lisboa e o Estado tenham de fazer tudo, mas, em situações limite, como a que estamos a viver, têm obrigação de intervir para reduzir os exageros. E as juntas de freguesia também têm responsabilidades nesta matéria. As cidades do norte da Europa são feitas para as pessoas, também podemos mudar a forma de as fazer”, acrescenta.

 

Mauro Paulino, psicólogo clínico e forense, diz que tem sido feito pouco para combater o problema numa cidade envelhecida, e tendo em conta que as pessoas com idade mais avançada são mais propensas a sentirem solidão. “Vão surgindo uns projectos pontuais e, em termos autárquicos, são mais esporádicos, não antecipam estratégias para evitar o problema. As notícias de idosos encontrados pelos vizinhos, alguns dias depois de morrerem, também mostram bem o que se passa”, diz. De acordo com o especialista, as questões do foro emocional não têm sido a maior prioridade da Câmara de Lisboa. “É importante potenciar mais actividades em jardins e integrar estratégias de envelhecimento activo nos programas dos órgãos de poder local. Não têm feito parte das rotinas”, critica. O isolamento social, alerta ainda, pode ser sentido em todas as idades, embora se note mais nos idosos e em pessoas com mobilidade reduzida, mas também em situações de desemprego de longa duração. “A solidão tem de ser pensada numa perspectiva mais global, e isso tem falhado em Lisboa e no resto do país”, repara.

 

 

A SOS Voz Amiga, uma linha de apoio a pessoas que se sentem isoladas e com tendências suicidas, existe há quatro dezenas de anos. Foi a primeira a surgir, em Portugal, para ajudar pessoas nestas situações depressivas, e, em 2018, cerca de 25% das chamadas recebidas estiveram relacionadas com a solidão. A informação é avançada pelo presidente da SOS Voz Amiga, Francisco Paulino, em depoimento escrito a O Corvo. O responsável não conseguiu adiantar dados apenas relativos à cidade de Lisboa, alegando questões de anonimato dos utilizadores da linha telefónica.

 

Segundo o dirigente deste serviço, no último ano, foram recebidas 4070 chamadas. “O número de chamadas aumentou, em relação ao ano anterior, mas também se deve a termos conseguido garantir mais turnos. Costumamos dizer que o sofrimento não tem hora e, se tivéssemos mais voluntários, podíamos aumentar a resposta à população”, diz. Existirão vários factores motivadores da solidão, mas “são os idosos (mulheres acima dos 65 anos), que mais sofrem esta situação, independentemente do local onde habitam”, garante. “É quase sempre a ausência dos filhos e dos netos a causadora e, nalguns casos, nem tem a ver com viverem demasiado longe para se visitarem com regularidade. Alguns vivem relativamente perto, mas esquecem-se de quem os colocou no mundo”, diz.

 

 

Francisco Paulino acredita que há uma maior abertura para os problemas do foro psicológico, mas ainda há um longo caminho a fazer. “As chamadas de pessoas com problemas de saúde mental têm aumentado nos últimos anos. Como as chamadas são confidenciais, nunca saberemos se assumem a doença junto dos seus pares. O que sabemos é que ainda existe algum estigma na sociedade, não raramente nas empresas e isso representa uma condicionante”, explica. A percentagem de pessoas a pedir ajuda com ideação suicidária corresponde a 7% do total das chamadas, tendo sofrido um ligeiro aumento apenas no período da crise económica.

 

* Nota redactorial. Texto editado às 01h15 de 27 de Janeiro. Clarifica que Mário Cordeiro é pediatra e não “pedopsiquitra”, como era antes mencionado.

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • mariavedor@gmail.com
    Responder

    A Junta de Freguesia do Areeiro tem um programa chamado Olá Bom Dia.
    Consiste em ligar todos dias aos mais idosos da freguesia

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