Lisboa está a perder o seu património em azulejos a um ritmo infernal. E com ele vai-se também algo do brilho e da luz da cidade. Para esta dura perda, não há que procurar responsáveis únicos, porque o somos todos, uns mais outros menos, de uma forma ou de outra. Por acção ou por omissão, “por furto, vandalismo ou desamor”, a cidade tem perdido milhares, senão milhões de azulejos, que não voltarão a ser repetidos.

 

Texto e fotografias: Fernanda Ribeiro

 

“O azulejo não dura para sempre, é preciso tomar atenção”, bem alertam os técnicos da direcção municipal do Património, que recentemente, num encontro de quadros da câmara, falaram do seu trabalho, na tentativa de preservar um património que se vai esgotando. Mas as palavras e os inventários não bastam. Sexta-feira passada, dia 4 de Outubro, Lisboa voltou a perder mais um painel de azulejos Arte Nova, datado de 1912, que fazia parte da decoração das paredes exteriores de um prédio da Av. 5 de Outubro, na esquina com a Rua Visconde de Valmor, onde se situa a pastelaria “Bola Cheia”.

 
A Polícia Municipal foi chamada, os técnicos do Projecto SOS Azulejo, de Salvaguarda e Valorização do Património Azulejar Português, também, o artista plástico Querubim Lapa esteve igualmente no local, bem como outros ceramistas e técnicos do Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa e a acção conseguiu travar a delapidação total. Um outro painel de azulejos da fachada do prédio, também do início do século XX, escapou à destruição.

 

O burburinho foi muito e muita gente acorreu à pastelaria Bola Cheia, questionando quem eram os responsáveis pelas obras que destruíram um dos painéis de azulejo que há já mais de um século revestiam as paredes do prédio.

 
“Agora é que vêm dizer ‘ai,ai,ai/ai,ai,ai’ que se partiu, mas em mais de 20 anos que aqui trabalho nunca vi ninguém dizer, vamos fazer isto pela preservação…Nem vi ninguém que se preocupasse de facto em preservar os azulejos, que há bastante tempo estão a cair. Até eu já tirei alguns, para eles não se partirem e caírem em cima dos clientes, na esplanada. Ontem, porque os homens (das obras) andavam a picar as paredes, fizeram uma algazarra, ‘ai,ai,ai/ai,ai,ai’. Mas deviam ter-se preocupado antes”, disse ao Corvo a empregada da pastelaria Bola Cheia, visivelmente incomodada com a aparente responsabilidade apontada à casa onde trabalha.

 
Lina, que estava a trabalhar quando a destruição aconteceu, não gostou do “espalhafato” que se gerou e, em declarações ao Corvo, tentou separar águas: “Uma coisa é a pastelaria Bola Cheia e outra é o prédio”, como se uma e outra coisa não pertencessem à mesma entidade. Mas ao que O Corvo apurou depois, junto da ainda presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima – entretanto integrada na nova junta das Avenidas Novas -, Idalina Flora, as obras que conduziram à destruição do painel de azulejo estão a ser feitas pelo proprietário da pastelaria.

 
Mas Lina não se conforma com a falta de iniciativa em matéria de preservação: “Não deixam arranjar as coisas, dizem  ‘não se pode mexer, não se pode mexer’, mas depois não fazem nada, elas caem de podres. E então vêm multar as pessoas, por elas fazerem obras. E de que serve?”, interrogava.

 

 

FR - Azulejos 5 out

 
“Do Museu do Azulejo, telefonaram para aqui a dizer para nós chamarmos a Polícia Municipal. Mas eles é que são pela preservação, eles é que devem cuidar disso”, dizia a responsável da loja que, como diz, “é sempre a primeira pessoa a dar a cara” pela pastelaria e restaurante.

 
Entre os clientes que se encontravam na pastelaria, quando O Corvo visitou o local, sábado de manhã, estava Idalina Flora, que nos últimos oito anos foi presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora de Fátima e que, durante várias décadas, habitou o número 84 da Avenida 5 de Outubro – edifício que considera dos melhores que existiram nas Avenidas Novas.

 
“Era um edifício muito bom. Foi feito em 1904 por um bom construtor. Os meus sogros vieram para cá em 1914. Foi neste prédio que esteve instalada a embaixada da Rússia no tempo dos czares. Depois, morou cá um director da Bolsa, do tempo em que Portugal tinha as províncias no ultramar e viveu também aqui Elmano Alves (político e deputado da antiga Assembleia Nacional) e um juiz do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz Figueirinhas. Vim para cá em 1966 e só saí quando veio para aqui o restaurante”, recorda Idalina Flora.

 
Sobre a pastelaria, que hoje é detida pela família “Ferreira, também proprietária da Namur, na Avenida Defensores de Chaves e da Casa Brasileira, na Baixa”, Idalina Flora lembra que, quando esta se instalou no prédio da Av. 5 de Outubro, era para rivalizar com outra congénere. “Era uma pastelaria do início do século XX, que pretendia ser a Versailles das Avenidas Novas”.

 
Agora é diferente. A Bola Cheia faz tudo para angariar clientes e, “para os motivar” como diz a Lina, pratica preços que são dos mais baixos de Lisboa: “um café custa 40 cêntimos”, enquanto durar esta promoção.

 
Menos património irão agora encontrar na Avenida 5 de Outubro e na Visconde de Valmor os técnicos envolvidos no Programa de Investigação e Salvaguarda do Azulejo de Lisboa em espaço público, o PISAL, que pretende evitar que se perca a história de Lisboa, contada nos seus azulejos. Peças que “são não só identitárias, como caracterizam a luz de Lisboa”, nas palavras de Maria Teresa Bispo, uma das técnicas que participou quinta-feira no encontro de quadros da CML.

 
O inventário que aqueles técnicos estão a fazer iniciou-se na zona ribeirinha e vai, paulatinamente, progredindo na cidade. Quando, enfim, chegar às Avenidas Novas, haverá menos um painel de azulejo Arte Nova a registar, se outros não forem caindo. Com eles, foi-se um pouco de história da cidade.

 

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