Lisboa não tem dinheiro para reformular rede de drenagem a fim de evitar cheias

ACTUALIDADE
Fernanda Ribeiro
& Samuel Alemão

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URBANISMO

Cidade de Lisboa

24 Setembro, 2014

A cidade vai passar a sofrer, cada vez mais, situações semelhantes à da enxurrada de 22 de Setembro, avisa um estudo feito este ano pela Universidade de Lisboa. Mas as necessárias obras da rede de drenagem vão ter de esperar, diz a Câmara Municipal de Lisboa. A autarquia não dispõe do que considera ser o “valor astronómico” para a sua execução: 153 milhões de euros.

A Câmara Municipal de Lisboa não tem dinheiro para fazer, nos próximos anos, todas as obras necessárias à melhoria da rede de drenagem da cidade e que evitariam situações como as verificadas durante a enxurrada de segunda-feira. O facto foi admitido, durante a reunião de executivo desta quarta-feira, por Manuel Salgado, vereador com os pelouros do Urbanismo e Planeamento, quando se discutiam as razões das inundações. Seriam necessários 153 milhões de euros, de que a câmara não dispõe.

“O Plano de Drenagem é extremamente ambicioso e é absolutamente necessário fazer e tem um conjunto de órgãos bastante complexos”, disse Salgado, após referir a necessidade de realizar intervenções em dois locais de importância estratégica, como são os vales de Alcântara e de Chelas, por se tratarem de zonas de aluvião. O vereador fez notar, porém, que o Plano de Drenagem “se articula com as intervenções na rede actual, que tem de ser melhorada e, nalguns casos, redimensionada”. “E isso está a ser feito”, garante.

Sobre este ambicioso plano, Salgado diz estar a ser realizado “um levantamento exaustivo de todas as situações”, através de um estudo com o custo de 1,5 milhões de euros. “Já tem o plano de execução pronto o colector da Avenida de Berna, que é aquele que, precisamente, vai ligar à Praça de Espanha – que funciona como uma bacia de retenção à superfície e vai depois escoar para o Vale de Alcântara. Esta é uma das obras que se prevê vir a executar”, diz.

Mas avisa: “Agora, o montante total previsto para a execução do Plano de Drenagem é astronómico. Basta comparar com o que gastamos por ano. O custo total do plano, tal como está gizado, são 153 milhões de euros. São vários anos de orçamento municipal, que obviamente tem que ser depois articulado com o plano de acessibilidade pedonal e o de recuperação do espaço púbico da cidade”.

O vereador resigna-se, ante a magnitude da obra e dos seus custos. “O ideal seria que tivéssemos capacidade para o poder acelerar, mas não vai ser fácil de executar, nas condições actuais, num horizonte de curto prazo”.

Manuel Salgado diz que, nos últimos cinco anos, foram realizadas 23 intervenções para melhorar a rede de saneamento de Lisboa, com um custo total de 10 milhões de euros. “Mas é preciso também ter presente que, quando se investe na rede de saneamento de uma rua, não podemos contar apenas com a despesa do colector, mas com os custos do arranjo de superfície, que são muito acrescidos”.

O autarca deu como exemplo a reconstrução do colector da Rua de Alcântara, definida como “uma intervenção pesada” e sobre a qual garantiu que “está para breve”. A obra está a ser a planeada em conjunto com a Junta de Freguesia, pois obrigará ao redesenho do arruamento e do espaço público.

Ainda sobre o Plano de Drenagem, o vice-presidente Fernando Medina disse que, “há já alguns meses, a CML falou com o Governo para equacionar as possibilidades de o concretizar”. Foram colocadas duas possibilidades: ou a utilização de verbas comunitárias do Fundo de Coesão ou através da alienação da rede de saneamento da cidade à EPAL, para que esta fizesse as obras, arcando com os custos. Medina diz que, por preferência da administração central, é a segunda possibilidade que está a ser estudada.

Lisboa tem de se preparar para novas inundações

Uma intervenção que será absolutamente necessária, pois a cidade de Lisboa e os seus serviços vão ter de se preparar para novos cenários de inundações. A situação ocorrida na segunda-feira, considerada “anómala”, deixou várias zonas da capital inundadas na sequência de duas horas de chuvas muito fortes. Mas “vai passar a verificar-se com maior frequência e intensidade”, disse ao Corvo Pedro Garrett, investigador da Universidade de Lisboa na área das alterações climáticas.

A tendência para o aumento de situações em que há idêntica conjugação de factores à verificada dia 22 de Setembro em Lisboa – maré alta e chuvas muito intensas – fora já assinalada num estudo realizado, este ano, pelo Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, através do Mapeamento de Risco de Inundações em Portugal e da elaboração para várias cidades do país de Cartas de Inundação e Risco em Cenários de Alterações Climáticas (CIRAC).

Este projecto, publicamente apresentado em Maio, na Fundação Calouste Gulbenkian, foi financiado pela Associação Portuguesa de Seguradores e contou com a colaboração de diversas instituições, entre as quais a Câmara Municipal de Lisboa, que teve acesso às suas conclusões.

“Do ponto de vista climático, a frequência e a intensidade destes fenómenos tem tendência para aumentar”, disse ao Corvo Pedro Garrett, um dos coordenadores do CIRAC – projecto que, no caso de estudo de Lisboa, analisou em particular a bacia da Baixa, incluindo as sub-bacias da Avenida da Liberdade (antiga Ribeira de Valverde ou de Santo Antão) e Avenida Almirante Reis (antiga Ribeira de Arroios), escolhidas para a avaliação de risco de inundações.

Nos perfis de risco traçados para estas três zonas, verificou-se que “a área com valores mais elevados corresponde ao troço da bacia designada por Avenida da Liberdade, onde a rede de drenagem não é tão eficaz em situações de chuva torrencial, existindo várias zonas deprimidas e de acumulação de água como, por exemplo, a Rua das Pretas ou a Rua das Portas de Santo Antão”, lê-se na brochura onde se divulga o projecto CIRAC, acessível online, em .


 

Esta foi, precisamente, uma das áreas mais atingidas pelas inundações do passado dia 22 de Setembro, num cenário já conhecido em caso de chuvas intensas, com “as tampas dos colectores a saltarem, por não conseguirem escoar a água, devido à maré alta”, em simultâneo.

 

“Tem sido um Setembro relativamente chuvoso, quase tropical, e os solos estavam já saturados em água”, sublinha Pedro Garrett, segundo o qual, para as inundações da zona da Bacia da Baixa, “contribui também a menor permeabilidade dos solos” daquela zona.

 

“A construção, a eliminação de logradouros e até a substituição da calçada portuguesa, que é mais permeável do que outros pavimentos, conduzem a uma maior impermeabilização dos solos”, o que, “ aliado à deficiência dos colectores da Avenida da Liberdade, fracamente dimensionados,” é susceptível de gerar fenómenos de inundações.

 

“É inegável que a atmosfera está mais quente. Há nela mais vapor de água e, quando há precipitação, esta tem tendência para ser mais intensa, o que faz com que possa causar cheias, quando há a conjugação dos diversos factores”, maré alta, mais construção e maior impermeabilização, explicou o investigador.

 

Além disso, em termos climáticos, “verifica-se também a tendência para a subida do nível das águas do mar até um metro, o que a verificar-se a médio prazo, implica que a altura média do estuário do Tejo fique acima do nível dos colectores, que deixam assim de conseguir escoar a água”, sublinha o investigador.

 

Este é um problema que, diz Pedro Garrett, preocupa a SimTejo, que está a equacionar soluções, que, no caso da Baixa, passam pela separação das condutas das águas residuais das destinadas a águas pluviais. O Corvo tentou ouvir a SimTejo e apurar que projectos irão ser desenvolvidos, mas sem êxito.

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COMENTÁRIOS

  • Joao Lêdo Fonseca
    Responder

    Pois. Nem tinha que ter! Tinha era que aplicar o que dizem os técnicos e a lei, permanentemente, consistentemente… http://t.co/DxkUThrVne

  • João Véstia
    Responder

    Isso de evitar cheias é um bocado utópico.

  • Fátima Raimundo
    Responder

    mas devia ter, as prioridades devem ser essas mesmo!!!

  • Natália Vilarinho
    Responder

    mas há dinheiro para festas, claro

  • Paulo Moniz
    Responder

    Limpar sarjetas e bueiros não deve custar tanto – 152M € para reformular rede de drenagem a fim de evitar cheias – http://t.co/RwSRgebIUj

  • Nuno Rebelo
    Responder

    Lisboa não tem dinheiro para reformular rede de drenagem a fim de evitar cheias http://t.co/tmu0Db2moZ

  • Artur C. Margalho
    Responder

    os milhões da Ribeira das Naus deviam chegam para isso

  • Teresa Branco
    Responder

    153milhoes fora as derrapagens…ah ah ah

  • silvia
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    Leiam S.f.f. Causas e efeitos das cheias : http://t.co/BnjJXB8PFD… via @rebelonuno

  • joaoP
    Responder

    RT @acausadasilvia: Leiam S.f.f. Causas e efeitos das cheias : http://t.co/M0OiAhv2aE… via @RebeloNuno

  • Bruno
    Responder

    a Junta de São José (Santo Antonio hoje em dia) ja reformulou a uns 3 anos a rede de drenagem na Rua de São José (uma das mais afectadas sempre que chove em demasia) e penso que não tenha precisado da Câmara para o fazer … De qualquer modo e como foi visível nas imagens televisivas foi onde ocorreram mais inundações… Temos de nos mentalizar de uma coisa: Chuvadas fortes e continuas como a de 2ª feira a ocorrerem em altura de maré cheia( praia-mar) irão ter sempre este resultado (pelo menos na Baixa de Lisboa)… É lamentavel mas é mesmo assim… At´porque grande parte da agua não entra pelas portas mas sim pelos colectores instalados nas casas.

  • Paulo Ribeiro
    Responder

    Ainda bem que moro numa zona alta de #Lisboa… :/ http://t.co/FUdcb9RKWU (via @ocorvo_noticias)

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