Dos quase 600 mil habitantes de Lisboa, quantos ainda se cumprimentam na rua, mesmo sem se conhecerem? João Manuel Serra fê-lo, durante vários anos, e, hoje, conhecemo-lo como o Senhor do Adeus. Agora passado ao cinema.

 

Texto: Lúcia Coelho  Imagens: fotogramas de “Estórias”

 

Estreia amanhã (1 de Abril), no Cinema São Jorge, o documentário “Estórias”, de João Gomes, que parte da figura do Senhor do Adeus para tentar mostrar o que há de ficcional na vida de cada um dos personagens, de cada um de nós, no fundo. Num voyeurismo dissimulado, seguimos o dia-a-dia de Helena, Frederico e Joana, tendo como mestre de cerimónias João Serra, o Senhor do Adeus.

Estórias é um filme de “remédios”, de pessoas que perceberam que os seus hobbies eram, afinal, a peça essencial do puzzle: Frederico organiza jantares para grupos de pessoas que não se conhecem, algures em Alfama, e vive uma agitada vida nocturna; Helena passa cerca de duas a três horas por dia no ginásio e Joana faz parte da massa anónima de figurantes que enchem plateias de programas de televisão. João Manuel Serra acena e agradece a quem passa por ele no Saldanha.

O pouco que sabemos de João Serra é suficiente para perceber que não era mais um louco da cidade. Nasceu em 1931, em Lisboa, no seio de uma família abastada  e fez várias viagens pelo mundo, com a mãe. Usava um casaco comprido, um cachecol solto em frente ao peito, trazia quase sempre um saco de plástico e, enquanto acenava, também sorria e “transformava Lisboa numa aldeia. Tenho mais amigos e parentes assim”, dizia.

João Serra era um reconhecido amante de cinema e, durante quase uma década, foi todos os domingos ao Monumental, com o pianista de jazz e realizador Filipe Melo. “No dia em que o convidei a participar na curta-metragem “I’ll See You in My Dreams”, fomos jantar ao PizzaHut da Fontes Pereira de Melo e falámos dos filmes dos irmãos Marx, do Fred Astaire e de como esteve na rodagem de “Ao Serviço de Sua Majestade” [da série 007] e viu George Lazenby ser corrido do Casino Estoril com uma bebedeira. Gostava mesmo muito de filmes e sabia daquilo.”

Em 2009, depois de terem assistido à estreia do filme 2012, criaram um blogue sobre cinema, onde cada um, juntamente com Tiago Carvalho, escrevia a sua opinião sobre o filme que tinham visto nesse domingo. “Os comentários dele eram tão engraçados e tão humanos que achei que aquilo tinha mesmo de ser partilhado com o mundo”, explica Filipe.

Mais tarde, e já postumamente, o blogue deu origem ao livro O Senhor do Adeus – Tertúlia Semanal de Cinema, e o que era um simples acenar tornou-se um fenómeno mediático.

Filipe Melo revela ao Corvo que João gostava de musicais. “De vez em quando, estava de mau humor e odiava alguns filmes, por causa disso”, diz Filipe. O realizador considera que ele teve a coragem de fazer aquilo que realmente lhe dava prazer. Porquê? Não sabemos, mas, na verdade, “o espaço para que cada um tirasse a sua conclusão, essa é a verdadeira beleza do que ele fazia e, pelos vistos, ainda faz.”

Trailer: http://youtu.be/8sEhVIGQBEY

  • Paulo Ribeiro
    Responder

    Não é mas tem parecenças! RT @ocorvo_noticias: Lisboa não é uma aldeia – http://t.co/7qDi5Dnakv

  • MARIA FERREIRA
    Responder

    É ,ERA UM POETA.UM SER BRILHANTE, QUE NÃO CONSEGUIMOS ESQUECER

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