Todos temos dias mais complicados. E, às vezes, a pressa não ajuda, admito, mas naquela segunda-feira eu tinha mesmo que fazer sair umas tralhas de casa e o primeiro passo era preencher online o formulário pedindo a intervenção da Câmara Municipal para retirar aqueles “monstros” da minha porta – a designação que é dada nos serviços camarários a objectos fora de uso e dos quais nos queremos descartar. É um serviço que já tinha usado várias vezes, noutras ocasiões e que sabia funcionar muito bem. Em menos de 48 horas levam tudo o que se ponha à porta, à hora marcada. E é gratuito.
Abro o computador e procuro no Google a “recolha de monstros cml”. Aparece-me o novo site, chamado “Na Minha Rua”, todo modernaço, ícones por todos os lados, funcionalidades mil, mas com uma linguagem algo estranha, parecendo às vezes um relato de polícia. Para fazer o que pretendia, diziam-me no ecrã principal, teria de “criar uma ocorrência em três passos”.

 

Está bem, vamos lá criar a ocorrência. O primeiro passo era localizar a casa. Podia fazê-lo no mapa, através dos ícones, ou por escrito. Mas isso só depois de ter aceite as condições de acesso ao site – algo que só percebi à terceira ou quarta tentativa. Começo por tentar identificar o local escrevendo a morada, mas o nome da rua não era reconhecido na pesquisa, embora se tratasse de uma rua bem conhecida de  Alvalade. Estranho.
Vamos então procurá-la directamente no mapa, com recurso à “mãozinha” interactiva. É preciso ampliá-lo, aumentando o zoom. Clico e nada. Repito estas operações vezes sem conta, tentando por diversas formas fazer o pedido e, ao fim de quase uma hora, ainda não tinha saído do primeiro passo. Não conseguia mesmo “criar uma ocorrência”.

 

Vi então o ícone de “ajuda” e lá fui espreitar, para perceber o que me estava a falhar. Mas a ajuda também não me adiantou nada e até me irritou, com uma conversa que me pareceu inadequada. “O Na Minha Rua é um widget do LXI…”. Desculpem, mas com quem é que estão a falar? Não é com um munícipe da cidade de Lisboa, Portugal?
E se quem quisesse fazer o pedido fosse a minha tia de 82 anos? Até me deu vontade de reclamar. Mas optei por ligar para a linha de atendimento municipal. Vejo que é um 808 20 32 32, uma chamada paga, mas ainda assim ligo. Precisava mesmo de chamar a recolha de monstros.
Sou atendida automaticamente. “Bem vinda ao centro de atendimento municipal. Se precisar de informação aceda à área de serviços online da CML”. Isso já fiz e não resultou. A seguir entra um fadinho durante um tempito. E depois: “Lamentamos mas ainda não nos foi possível transferir a sua chamada. Aguarde mais um momento por favor”. Mais fadinho. Foram vários momentos e nada. Ninguém do lado de lá. Senti-me roubada e irritada, porque o serviço dos monstros até é mesmo bom e não conseguia lá chegar. Que raiva.
Haja calma e sabedoria, que tudo se há-de resolver. Recorri a um processo mais antigo. Liguei para alguém da Câmara que eu conhecia e expliquei-lhe o meu problema. Que também não sabia como preencher aquilo, mas que iria contactar alguém para fazer o meu pedido.
E fez. Mas fiquei a pensar, então Lisboa é ou não é interactiva? E voltei ao Na Minha Rua, para tentar novamente. E não é que ao fim de algum tempo… eureka, consegui. Entre os muitos ícones havia um que eu não tinha experimentado. Ao fim de quase duas horas, consegui. E descobri que o Na Minha Rua tem milhares de coisas interessantes, mostra e localiza as participações e reclamações que são feitas através deste meio, ou antes, através deste widget. Difícil é chegar lá.

 

O Na Minha Rua também tem os seus dias e nem sempre funciona como devia.
Duas horas de tentativas é muito tempo, para mim. Para mais velhos que eu, menos habituados a computadores, é mesmo tempo roubado. Já para não falar do dinheiro da chamada telefónica, deitado à rua.
Se o objectivo é aproximar o cidadão dos serviços, porque se tornam eles mudos e deixam de atender os munícipes por telefone? E se o único recurso é o serviço online porque não se adopta uma linguagem acessível a todos?
Ou o que se quer é mesmo uma Lisboa interactiva só para alguns?
Texto e Fotografia: Fernanda Ribeiro

  • Sofia Macedo
    Responder

    Estive a ler o artigo de que gostei muito e também estive a experimentar a aplicação. De facto, não prima pela usabilidade… Pena é pois a iniciativa tem muito mérito mas, como quem está nesta área sabe, a simplicidade da navegação é das coisas mais difíceis de conseguir… Infelizmente existem vários exemplos de aplicações que estão bem programadas mas que depois falham redondamente no interface.

  • Paulo Ribeiro
    Responder

    Costumo usar o Na Minha Rua já há alguns anos, e o serviço até funciona relativamente bem.

    A aplicação online tinha uma interface bem mais simples de usar no início. Entretanto mudou para esta e também eu tenho dificuldades em a usar, sempre que quero introduzir uma nova “ocorrência”…

    É pena que a interface de utilizador coloque tantos obstáculos à sua utilização, pois o serviço em si tem todo o mérito e já tive várias vezes a oportunidade de confirmar que funciona!

  • Vasco Antunes
    Responder

    Eu era muito mais feliz quando usava a anterior versão do Lx Inter !!!!!

    Tão simples, ampliva ser limitações, fazia pdf, imprimia num instante e “prontos”

    Agora fizeram esta “monstruosidade”, que demora imenso tempo a utilizar para os mais simples fins que precisamos com rapidez!

    Chamo a isto um nome que começa a generalizar-se: “Excesso de informatica” ! E como isto afastam-se os usuários !
    Vasco

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