Crónica – Pecado Capital

Lisboa, quatro da manhã, um carro acelera de regresso ao subúrbio. Lá dentro, um aturdimento feito de música em altos gritos e vapores etílicos. Quatro rapazes curtem a vida. Um deles atira a beata do cigarro pela janela.
Horas depois. Subúrbio.
Algures pelo meio da manhã. Corpo dorido por dentro. Boca seca. Cabeça às voltas.
Ressaca.
Toca o telefone. “Já ligaste a televisão?”
As imagens de Lisboa a arder varrem as cicatrizes da noite. Parece um cenário de bombardeamento aéreo, o Chiado arde e as volutas de fumo enegrecem o céu da cidade. O que foi isto, caramba? O que é que aconteceu?
Visto-me à pressa, um jornalista – mesmo que em fase inicial de carreira – é sempre um jornalista. Vale a pena ir para lá? Novo telefonema. “Deixa-te estar, já lá temos gente demais…” Não é uma censura por acordar tarde, nem um editor tem tempo para se preocupar com eventuais sentimentos de culpa numa manhã daquelas. Não sou necessário e pronto. Mas Lisboa continua a arder.
Sintonizo o rádio, começo a colar as peças do puzzle. O incêndio no Chiado terá começado de madrugada, devido a causas ainda desconhecidas.

Lisboa, nessa madrugada. Atirei a beata do cigarro pela janela quando passávamos na Rua do Ouro. A hora bate certo. Não pode ser, claro, mas a ideia não me sai da cabeça. Não pode ser, claro, mas esta fraqueza humana de nos vermos sempre no centro do universo começa a roer-me por dentro.
Não pode ser, não pode ser, não pode ser. Claro que não pode ser, caramba, uma cidade não pega fogo por causa de uma ponta de cigarro, ainda se fosse um pinhal. Mas estamos em Agosto. E se… Não, tira daí a ideia, que parvoíce, mania de protagonismo, infantilidade. Isto só pode ter sido um curto-circuito, se calhar a faísca de alguma máquina, um caixote do lixo em combustão lenta depois da hora de expediente, sabotagem dos especuladores imobiliários.
Ouço tudo isto na hiperactiva cobertura jornalística, a loucura em directo que nenhum de nós, que assistem, poderá alguma vez criticar. Lisboa está a arder. Deve ter começado a arder mesmo quando eu por lá passei na madrugada anterior, podia ter dado o alerta se não estivesse completamente embotado… e já estou nisto outra vez. Será melhor não partilhar a  agonia com ninguém. Para mania das grandezas já bastam as bravatas do futebol e as piadolas sobre o estar “farto de ser um sex-symbol”…

Anos depois, Lisboa reconstruída. Difícil descobrir as causas do acidente. Culpados? Muitos. Todos os que deixaram degradar o núcleo histórico da cidade. Os que deixaram colocar belos espaços florais a impedir a circulação das viaturas de socorro na Rua do Carmo. Os lisboetas que viraram costas às lojas tradicionais e já embarcavam na febre do centro comercial. Os pequenos comerciantes que nunca se uniram para lutar pelo seu bairro. As grandes superfícies que ignoraram a necessidade de instalar dispositivos de segurança. Todos, enfim, os que só percebemos o que tínhamos quando nos vimos na iminência de o perder. Nada de novo, portanto.
De todos os culpados, não serei eu a destacar-me. O fogo começou nos Armazéns Grandella, lá bem no alto para quem passa na Rua do Ouro. Nenhuma ponta de cigarro acesa teria força para vencer esse desnível. Não fui eu. Mas nunca mais deitei beatas pela janela do carro.

Luis Francisco

Luís Francisco
Ilustração:  Joana Martins de Carvalho

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