Lisboa é “mais uma caricatura do país”, pois na cidade os problemas de Portugal ganham particular destaque. Esta observação, feita pela socióloga Maria João Valente Rosa, da Fundação Manuel dos Santos, teve lugar durante o debate “Demografia, Natalidade e Repovoamento de Lisboa”, que ontem decorreu durante uma Assembleia Municipal extraordinária dedicada ao tema, realizada no Fórum Lisboa.

Maria João Rosa, que dirige desde 2009 o projeto Pordata da fundação, aproveitou o debate com a presença dos deputados municipais para divulgar em e-book a trabalho “Retrato de Lisboa”, desenvolvido pela sua equipa. “Nas últimas cinco décadas, Lisboa perdeu cerca de 250 mil habitantes, o número de nascimentos passou para três vezes menos e a população envelheceu significativamente”, disse a socióloga, especialista em demografia, lembrando que é no interior do país que a situação é pior.

Na capital, por cada 100 jovens existem 185 idosos, isto é, praticamente metade dos habitantes de Lisboa são pensionistas. Apesar de a cidade ter perdido um quarto da sua população nas últimas décadas, o concelho continua a ser o mais populoso do país, seguido de Sintra, Vila Nova de Gaia e Cascais.

A população de Lisboa está estimada em 545 mil, mas os movimentos pendulares diários de entrada e saída de cerca de 400 mil pessoas introduzem dinâmicas novas num município com 85 quilómetros quadrados – representando 0,1% do território de Portugal.

Entre 1961 e 2011, a cidade perdeu um terço dos residentes. Em contra-partida, desde 1960 que a população de Sintra se multiplicou por cinco e a de Cascais por três.

“Sabemos que as dinâmicas do município de Lisboa vão, frequentemente, muito além das suas fronteiras territoriais. Por isso, compreender os movimentos da vida da cidade obriga a abrir o olhar a outras realidades regionais e nacionais”, esclareceu Maria João Rosa.

O envelhecimento demográfico da população da capital, segundo a socióloga, é sinónimo de desenvolvimento. As pessoas vivem mais porque as suas vidas têm mais qualidade que no passado. “São pessoas mais instruídas e mais próximas das novas tecnologias. Importa olhar para isto não de forma tão dramática, mas antes da necessidade que temos de nos adaptar a esta nova estrutura etária”, sublinhou.

Esta tendência de envelhecimento deverá continuar até 2030, abrangendo um grupo etário de pessoas com mais de 65 anos.

Francisco Vilhena da Cunha, da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), lembrou que “a tendência de envelhecimento de população é transversal a toda a União Europeia, tendência esta que é agravada pelo facto de nenhum dos países que a compõem estar a renovar as suas gerações, significando que o número de nascimentos foi, em todos os 27 países, inferior à média de 2,1 por mulher em idade fértil”.

Em 2011, na União Europeia o “valor indicador” era abaixo dos 1,6, o que correspondente um défice de 1,72 milhões de nascimentos face ao número que seria necessário naquele ano para garantir a renovação das gerações europeias.

O responsável de APFN foi mesmo mais longe, ao referir que no caso português a situação ainda é mais grave. “O nosso país situa-se já, desde há vários anos, na cauda da natalidade europeia e os fluxos migratórios evoluíram de uma situação estimada em 2002, na qual a imigração suplantava a emigração em 70 mil pessoas, para outra em 2011 na qual a estimativa da emigração ultrapassou a da imigração em mais de 20 mil pessoas. No contexto da crise que persiste na Europa e em particular em Portugal não é possível antever uma inversão desta situação no futuro próximo”, disse.

Também Maria do Céu Machado, professora de pediatra na Faculdade de Medicina de Lisboa, manifestou a sua preocupação com a baixa natalidade existente, apontando diversos fatores e referindo que tem ficado espantada com algumas justificações de mulheres que lhe dizem: “Não tenho tempo para ter filhos” ou noutros casos em que a gravidez surge já depois dos 40 anos, depois das carreiras profissionais feitas. Tais situações “ podem trazer complicações” de saúde para o bebé, nomeadamente pela perda de qualidade dos folículos maternos.

 

Texto: Mário de Carvalho    Fotografia: Samuel Alemão

  • Aqui mora gente
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    Um jovem casal estrangeiro, ambos doutorados em música clássica, encantados com a luz de Lisboa e a zona histórica, escolheram o Bairro Alto para aí instalarem a sua morada de família, usando as suas economias para reabilitarem um pequeno imóvel….passados seis meses e após uma queixa contra o ruído ensurdecedor de um Bar, a sua vida tornou-se num inferno, obrigados a colocarem uma câmara de vigilância 24h por dia, em resultado das ameaças à sua segurança…o casal abandonou a sua casa, saiu de Lisboa, realizando concertos nas melhores salas do mundo e o Bar continua a emitir decibeis em alto, não é triste?

  • Adélia Da Fonseca Ries
    Responder

    é

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