Lisboa tem demasiados hotéis ou deve captar mais turistas, para que a procura se aproxime da oferta, que é excedentária? Podem as políticas públicas regular o aparecimento de novos hotéis e alojamentos locais, muitos dos quais se suspeita que funcionam em mercado paralelo? O que fazer para encontrar um equilíbrio entre turistas e residentes, sabendo-se que, actualmente, os apoios financeiros à reabilitação urbana são absorvidos pelo sector hoteleiro e não há fundos para apoiar igualmente a habitação?

Estas questões foram debatidas, terça-feira, na conferência realizada no âmbito da Semana da Reabilitação Urbana, sobre “O Papel do Turismo na Regeneração dos Bairros Tradicionais de Lisboa” e os problemas colocados não tiveram uma resposta única, nem unívoca. Houve mesmo “forças de tracção opostas”, como afirmou Cristina Siza Vieira, presidente da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), entidade organizadora do debate. Mas, num aspecto, todos os participantes concordaram: “Lisboa não pode ser um gueto de turismo”.

“Isso seria a morte do turismo, porque os que hoje nos procuram querem autenticidade, querem estar onde há uma vida normal de cidade e não num bairro turístico”, alertou o consultor Luís Correia da Silva.

E os números de novos empreendimentos hoteleiros a aparecer impressionam. Segundo Cristina Siza Vieira, nos próximos tempos, “Lisboa deverá ter 10 novos hotéis, com uma média de 100 quartos cada, segundo um estudo feito pela PriceWaterhouseCoopers, e isto traduz-se em mais mil quartos em Lisboa, ou seja em mais 365 mil dormidas para venda num ano”.

Nestes números não se incluem sequer os novos alojamentos locais – designação criada, em 2007, para dar cobertura legal às antigas pensões, residenciais, albergarias e hostels – que aumentaram exponencialmente com a crise no mercado de habitação. “Com a crise, o que não era vendido foi descarregado para alojamento local”, disse Cristina Siza Vieira, para quem este mercado deve ser regulado.

O presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, Eduardo Brito Henriques, partilha a preocupação. “O problema não é haver excesso de turismo é, quando muito, haver excesso de hotéis e de outras formas de alojamento. Só na zona entre o Rossio, o Campo das Cebolas e a Rua Garrett, há seis edifícios que vão ser transformados em hotéis. E não há forma de regular. Estamos a criar uma situação que pode não ser controlada a médio prazo. Temos o turismo a intervir no desenvolvimento do espaço urbano”.

Mas para o vereador do urbanismo, Manuel Salgado, que interveio na sessão, Lisboa não corre o risco de se transformar num gueto de turismo. “Há espaço para mais turistas e para mais residentes”, sustentou, reconhecendo porém haver uma concorrência desleal com a função habitacional, tendo em conta o aproveitamento que é feito dos edifícios para alojamento turístico.

“Só na Baixa, temos 79 edifícios total ou parcialmente devolutos”, disse. Para o vereador do urbanismo, não há hipótese de a Câmara Municipal de Lisboa “medir a carga turística da cidade”, como reclamava Cristina Siza Vieira, segundo a qual as políticas públicas deveriam contribuir para regular os mercados. “Medir a carga de Lisboa em relação a quê? Confesso que não sei como se faz isso”.

Quanto ao aparecimento de diversos novos hotéis na cidade, Manuel Salgado está tranquilo e entende que são bons investimentos para o futuro da cidade e dos investidores: “Eu presumo que, em hotelaria, quem vai investir uns milhões num hotel, tenha feito as contas primeiro”.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

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