Espaços arquitectónicos lisboetas habitualmente inacessíveis ao público estarão de portas abertas no sábado e no domingo. Uma oportunidade única para descobrir aspectos desconhecidos da história e da cultura da cidade.

 

Texto: Isabel Braga         Fotografia: Daniel Malhão

 

Setenta espaços de Lisboa que são uma referência em termo arquitectónicos e culturais, muitos deles pouco conhecidos e de acesso habitualmente vedado ou restrito, vão ter as portas abertas no próximo fim-de-semana, em que decorre a terceira edição do Lisbon Open House, organizada pela Trienal de Arquitectura de Lisboa.

Ao longo de dois dias, em visitas guiadas por pessoal especializado e, nalguns casos, pelos próprios autores dos projectos, será possível percorrer de forma gratuita palácios e museus, teatros e bairros históricos, infraestruturas e jardins, obras de arquitectura clássica e contemporânea, escolas, empresas e casas particulares. Uma oportunidade única de descoberta de espaços que demonstram o papel decisivo da arquitectura na vida dos cidadãos.

Os lugares que fazem parte do roteiro da terceira edição da Lisbon Open House, iniciativa da Trienal de Arquitectura de Lisboa, encontram-se espalhados por toda a cidade, desde Pedrouços ao Terreiro do Paço, do centro histórico à Avenida da Liberdade e Amoreiras, passando ainda pelas avenidas novas, zona norte e zona oriental da cidade, incluindo a Expo.

Na zona ocidental, abrem as suas portas treze espaços diferentes, entre os quais a Torre de Controle Marítimo, a construção inclinada da autoria do arquitecto Gonçalo Byrne, a partir da qual é gerido o tráfego do porto de Lisboa, a Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Alcântara, na Avenida de Ceuta, que, por razões de protecção ambiental, está oculta por baixo de uma cobertura ajardinada, ou ainda o novo Museu dos Coches, pago pelas contrapartidas de construção do Casino de Lisboa. Ocupando os quase 16 mil metros quadrados dos terrenos onde se situavam as antigas Oficinas Gerais do Exército, o edifício começou a ser construído em Janeiro de 2009 e está concluído, mas continua por inaugurar.

Acessíveis ao público, durante o fim-de-semana, ficarão vários palácios no centro histórico de Lisboa. Entre eles o Palácio Pombal, residência da família do Marquês de Pombal até ao terramoto de 1755, um edifício que albergou entidades diversas ao longo dos anos, mas cuja parte nobre se encontra intacta; o Palácio de Santos, erguido no lugar de um antigo convento quinhentista, propriedade do Estado francês desde o início do século XIX, que ali instalou a sua embaixada em Lisboa; e o Palácio do Loreto, no Largo do Chiado, edifício oitocentista no interior do qual se oculta um belo jardim, que foi residência oficial do General Junot, no início do século XIX.

A Ribeira das Naus, os Banhos de São Paulo, a sede do Banco de Portugal, o Supremo Tribunal de Justiça, a Casa da Severa e os teatros nacionais de São Carlos e de D. Maria II são outros lugares do centro histórico de Lisboa visitáveis durante o fim-de-semana. Na baixa pombalina, o MUDE, Museu do Design e da Moda, surge como o exemplo de um edifício que preserva a ruína enquanto património e a integra no próprio projecto e discurso museológico.

Deixando o Tejo para trás e começando a subir a Avenida da Liberdade, o público terá acesso a outra “jóia” escondida do património arquitectónico nacional: o Hotel Vitória. Propriedade do Partido Comunista Português, é um arrojado edifício revestido a mármore da autoria de Cassiano Branco, considerado um exemplar da viragem da arquitectura portuguesa para o modernismo. Pelos seus sumptuosos quartos deste hotel, passaram espiões alemães, durante a II Guerra Mundial.

O Reservatório da Patriarcal, o Palácio da Justiça, uma casa de habitação revestida a betão armado, cercada de verdura, em Campo de Ourique, as torres das Amoreiras, símbolo máximo do pós-modernismo nacional, e o atelier do arquitecto Francisco Aires Mateus, em Campolide, fazem parte da lista de lugares especiais a visitar na zona centro da cidade.

Na zona das Avenidas Novas, foram seleccionados dez conjuntos arquitectónicos, alguns muito conhecidos, como a Fundação Gulbenkian, outros menos, como o complexo dos Coruchéus. Inaugurado em 1971 no bairro de Alvalade, junto ao Palácio dos Coruchéus, este complexo foi construído pelo município lisboeta como “o primeiro conjunto de ateliers da cidade, para protecção e incitamento a artistas plásticos”.

Integrada nele estava a Galeria Quadrum, que, nos anos 1970, desempenhou um importante papel no panorama das artes plásticas. Encerrada no final dos anos 90, a galeria reabriu em 2010 com uma série de iniciativas que incluem exposições e uma nova escultura de José Pedro Croft nos jardins. Parte dos ateliers municipais foram, nessa altura, entregues a um novo grupo de artistas. Quem se deslocar ao complexo dos Coruchéus poderá visitar o interior de alguns desses ateliers.

O Teatro Thalia, mais conhecido por Teatro das Laranjeiras, e mandado construir em 1825 pelo primeiro Conde de Farrobo junto ao seu palácio, na Estrada das Laranjeiras, faz parte dos edifícios visitáveis na zona norte da cidade. Em 1862, este teatro, que recebia os maiores artistas da época, foi quase totalmente consumido por um incêndio que apenas deixou de pé a fachada, em cujo frontão triangular se pode ler uma inscrição em latim: “Hic mores hominum castigantur” (Aqui serão castigados os costumes dos homens). Já no século XXI, o edifício foi recuperado pelos arquitectos Gonçalo Byrne, Patrícia Barbas e Diogo Lopes.

Visitáveis ainda na zona norte da cidade, durante o próximo fim-de-semana, estarão também duas escolas – Escola Alemã de Lisboa e Escola José Gomes Ferreira – e o Centro Ismaili, local de reunião dos muçulmanos ismailis. Construído em torno de uma série de pátios, os seus edifícios combinam salas multiusos e áreas abertas, destinadas a funções sociais e encontros de carácter cultural e formativo.

As vilas operárias que albergaram os muitos trabalhadores rurais que, no século XIX, chegaram a Lisboa atraídos pela industrialização nascente, fazem parte dos lugares a visitar na zona oriental da cidade. De portas abertas estarão ainda vários edifícios no Parque das Nações, ilustrativos de várias tendências da arquitectura portuguesa contemporânea, entre os quais o Teatro Camões, sede da Companhia Nacional de Bailado, e o Edifício Vodafone.

O público português tem aderido de forma crescente à iniciativa Lisbon Open House, que já se realiza em vinte cidades diferentes: em 2012, 13. 818 pessoas visitaram os 50 espaços seleccionados, e, em 2013, 60 lugares abriram as portas a 15.731 visitas. O programa deste ano, mais alargado ainda, promete continuar a desvendar os segredos da cidade.

 

Mais informações: http://2014.lisboaopenhouse.com

  • Paulo Ferrero
    Responder

    O mais curioso é a lotação pré-esgotada do MNE, um mimo, como continuam a gerir a “abertura” das Necessidades ao público.

  • Lx Diário de Bordo
    Responder

    Lisboa desvenda espaços únicos este fim de semana – para os mais curiosos 🙂 escolha os SEUS espaços e… http://t.co/xCGrrCYhJm

  • David Santiago
    Responder

    Lisboa desvenda alguns dos seus segredos durante o fim-de-semana | O Corvo | sítio de Lisboa http://t.co/RADgQhCxyy

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