Afinal, a qualidade do ar em Lisboa não é assim tão má. Esta é, pelo menos, uma das conclusões preliminares de um estudo que identificou, em Lisboa, mais de 100 espécies de líquenes, incluindo algumas espécies sensíveis à poluição. Além disso, os resultados sugerem que a generalização do uso da gasolina sem chumbo terá contribuído para melhorar a qualidade do ar e a diversidade biológica nalgumas áreas de Lisboa. O projeto, intitulado Cryptosensores e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, está a ser realizado por um grupo de cientistas do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, em parceria com o Instituto Superior Técnico.
Durante os últimos três anos, estes investigadores têm andando a estudar as diferentes espécies de líquenes e briófitos (grupo que inclui os musgos) existentes nas árvores de Lisboa e a sua utilização como bioindicadores da qualidade do ar. Palmira Carvalho, uma das investigadoras do Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, explica que este estudo permitiu fazer um levantamento da diversidade de espécies de líquenes e briófitos em mais de 80 pontos da zona de Lisboa e Vale do Tejo.
A presença de determinadas espécies indicadoras e o nível de diversidade observado permitiu ainda aos investigadores avaliar a qualidade do ar da cidade. Os resultados deste estudo são ainda preliminares, mas mostram que a cidade de Lisboa apresenta um bom nível de diversidade de líquenes, tendo sido identificadas mais de uma centena de espécies, incluindo uma tropical, que é bastante sensível à poluição e foi observada em Belém e em Monsanto.
César Garcia, um outro investigador do Jardim Botânico envolvido no estudo, realça também a deteção de uma espécie rara de musgos, num ponto próximo do Aeroporto da Portela e em Monsanto. O investigador acrescenta que os jardins botânicos e outros espaços verdes da cidade desempenham um papel importante para a manutenção da diversidade biológica observada, pois é aí que encontramos a maior variedade de espécies.
Para Palmira Carvalho, o nível de biodiversidade observado sugere também que Lisboa tem, de uma maneira geral, uma boa qualidade do ar. Uma das exceções é a Avenida da Liberdade, onde se encontrou o menor número de espécies de líquenes e briófitos. A equipa de investigação está também a comparar os resultados obtidos com os dados de um estudo semelhante realizado em 1979. Embora, globalmente, não tenham sido observadas muitas alterações, Palmira Carvalho realça uma redução considerável da diversidade na Calçada do Carriche, que no estudo de 1979 apresentara a maior diversidade de líquenes, e na zona do centro comercial Colombo, onde, na altura, existia uma quinta.
Em contraste, a eliminação da gasolina com chumbo poderá ter contribuído para a melhoria da qualidade do ar e para uma maior diversidade de líquenes e briófitos nalguns locais da cidade. A investigadora explica-nos, ainda, que, através deste tipo de estudos, será possível avaliar o impacto a médio prazo (períodos de cerca de cinco anos) de medidas implementadas para melhorar a qualidade do ar em zonas específicas da cidade.

 

 

Texto: João Vilhena

 

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