Crónica

 

O músico estava sentado num amplificador, atrás da paragem do 708, sentido Martim Moniz. Em frente, ao fundo, a cascata negra da Fonte Luminosa. Não havia iluminação, claro: eram 11 da manhã. O Café Império – o que resta de laico de um grande cinema convertido por dinheiro à “Igreja Universal do Reino de Deus” – ainda estava fechado. “Só abre ao meio-dia”, informou a empregada da limpeza. Felizmente havia sol. E música!

De chapéu castanho e ‘blue-jeans’ rotas, o tronco ligeiramente inclinado sobre a guitarra elétrica apoiada na coxa direita, o músico dedilhava os primeiros acordes de um clássico dos anos 70, assinado Led Zeppelin – “Stairway to Heaven”.

Uma mulher que vinha a falar ao telemóvel nem sequer olhou. “Os favores pagam-se caros”, dizia ela a quem estava do outro lado da linha. Mas houve pessoas que ficaram a ouvir. No final, uma africana que ainda não devia ter nascido quando Jimmy Page e Robert Plant lançaram aquela balada deixou uma moeda sobre o saco da guitarra estendido aos pés do músico. Um homem mais velho, já com cabelos grisalhos, parecia lembrar-se da letra. “There’s a lady who’s sure all that glitters is gold (…) It makes me wonder, it really makes me wonder”.

Músicos como este prestam um serviço público. Sobretudo na Almirante Reis, uma avenida com zonas bastante decrépitas e deprimentes. Basta descer até à Praça do Chile: a carcaça do antigo Hospital de Arroios, onde várias gerações de lisboetas se vacinaram contra a tuberculose, continua de pé, uma ruina abandonada. Duas altas e frondosas árvores, que mais ninguém podou, tapam parte da fachada. O resto do átrio serve de parque de estacionamento. “Património do Estado”: está lá indicado, com todas as letras gravadas no muro. Ficaria melhor assim: “Ao Estado a que o Património chegou!”.

A estátua no meio da praça, oferecida pelo governo do Chile, também é “Património do Estado”? A estátua está ali há 65 anos. Porque será que tantas pessoas ainda não tenham reparado que aquele homem de cabeça erguida, a olhar para o fundo do horizonte, é um dos grandes exploradores da História, Fernão de Magalhães? Falta qualquer coisa, um outro arranjo, outra vida. O organizador da primeira viagem de circum-navegação merecia mais e melhor. “It makes me wonder, it really makes me wonder”.

 

Texto: António Caeiro

 

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