O ambicioso programa Uma Praça em Cada Bairro, que se propõe reformular um conjunto de 30 praças da cidade, privilegiando a fruição do espaço público, terá no Rato o seu maior desafio. Em oposição ao actual caos rodoviário do lugar, propõe-se mais espaço para os peões, árvores e uma rotunda. O presidente da Junta de Freguesia de Santo António elogia, mas teme que um novo estacionamento para 300 carros, a construir no actual Mercado do Rato, possa vir a desvirtuar os objectivos do projecto de reabilitação do largo.

 

Texto: Samuel Alemão

 

A remodelação do espaço público do Largo do Rato, no âmbito do programa municipal Uma Praça em Cada Bairro, deverá passar pela construção de uma rotunda distribuidora do tráfego automóvel, a arborização do espaço público e pelo alargamento dos passeios junto à vertente sul daquele largo. A medida é preconizada no documento onde se resumem todas as intervenções propostas na capital ao abrigo do programa, lançado em Maio de 2014, com que a Câmara Municipal de Lisboa quer requalificar as mais importantes praças da cidade. A intervenção no Rato será, talvez, a mais desafiante face ao objectivo de trazer ao lugar um pouco mais de dignidade, dada a complexidade e importância da rede viária que a atravessa.

 

Isso mesmo foi assumido já, por diversas vezes, pelos responsáveis municipais, nomeadamente por Pedro Dinis, o arquitecto que é coordenador do programa Uma Praça em Cada Bairro – o qual propõe uma revolução urbana através da reconstrução de três dezenas de praças, privilegiando a circulação pedonal e os modos suaves de circulação. A ideia central do programa é devolver o espaço público às pessoas, penalizando o actual paradigma de uso excessivo do automóvel. E é nisso que aposta o novo figurino apresentado no resumo do programa, apresentado há alguns meses, mas que não tem suscitado grande discussão ou destaque na comunicação social, por contraste com o recente debate em torno da remodelação do Eixo Central, entre Picoas e o Campo Pequeno, integrada no mesmo plano.

 

Se há praça martirizada pela ditadura automóvel em Lisboa, ela é o Largo do Rato, há décadas transformada numa barulhenta e poluída zona de atravessamento viário. É consensual: aquele é uma lugar desagradável, onde não apetece estar, apesar da sua proximidade a lugares tão icónicos, como o Jardim das Amoreiras e a sua Mãe-de-Água, o Jardim da Estrela ou a Rua de São Bento. Uma realidade reconhecida pelo estudo efectuado, que descreve o local como um “largo empenado que corresponde talvez ao mais intrincado nó rodoviário da cidade, onde afluem várias importantes antigas ruas”.

 

A primeira das fraquezas do lugar é, precisamente, a “presença rodoviária muito demarcada, criando incompatibilidade no atravessamento pedonal”. A ela acrescem a “inexistência de locais de estadia resultando na falta de mobiliário urbano e elementos arbóreos” e a “presença de barreiras físicas (muros e gradeamentos) que promovem cortes na leitura espacial do largo”, bem como a topografia do arruamento, no qual não existem ciclovias e mobiliário urbano para estacionar as bicicletas. Inconvenientes compensados, sobretudo, pela “carga simbólica do espaço” e a existência de frentes de comércio e serviços públicos.

 

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Para tentar aproveitar essas qualidades do Largo do Rato, o plano prevê, ao nível do espaço público, “aumentar o passeio sul do Largo, junto da frente comercial, dotando-o de dimensão de estadia” e “potenciar este espaço de uma nova estrutura arbórea que potencie a estadia e o aumento das áreas de esplanada”, bem como “articular esta intervenção com os projetos existentes na área da acessibilidade pedonal”. Além disso, as principais linhas de acção do plano Uma Praça Em Cada Bairro para aquele local defendem a promoção da “integração da mobilidade suave” e a reposição da carreira de elétrico n.º 24, entre o Cais do Sodré e Campolide. É uma intervenção para privilegiar outros meios que não os automóveis, faz-se notar.

 

Mas eles terão sempre de passar por ali, dada a importância estratégica da praça. Por isso, o plano defende o “implementar um sistema de circulação viário que permita a inversão de sentido em todas as direcções”, propondo a colocação de uma rotunda entre a sede nacional do Partido Socialista e a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. O espaço em frente a este edifício deverá, de acordo com o defendido no documento, ser valorizado através da retirada do estacionamento em frente, “introduzindo mobiliário urbano que fomente a estadia”.

 

Ouvido pelo O Corvo sobre esta proposta, Vasco Morgado (PSD), presidente da Junta de Freguesia de Santo António, diz que a mesma “é boa, tem qualidade, pelo que o Largo do Rato ficará, de certeza, bem melhor do que está”. Mas o autarca – que afirma ser incondicionalmente a favor do ambicioso plano para Lisboa corporizado pelo programa Uma Praça em Cada Bairro – diz que a eficácia deste projecto pode ficar comprometida pelo facto de estar prevista a criação de um parque de estacionamento com capacidade para cerca de 300 lugares no Mercado do Rato. “Dizem que querem tirar os carros da cidade, e esta nova configuração da praça vai nesse sentido, mas depois convidam as pessoas a vir de carro para aqui. Não se percebe”, critica.

 

 

  • David Miguel Almas
    Responder

    Esperemos que corra melhor do que a rotunda do Marquês. Passeios ainda mais largos e uma rotunda com espaço suficiente para circularem autocarros, num largo relativamente estreito e desnivelado, não estou a ver como será…

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Largo do Rato deverá ficar com uma rotunda e com passeios mais largos https://t.co/0Fhyxwofvl #lisboa

  • Paulo Ramos
    Responder

    Andar em círculos e não ter um rumo defenido, típico do “largo do Rato “

  • Pedro Chorão
    Responder

    ???

  • Peter Wisspeintner
    Responder

    Mais um Marques?

  • Armando Viegas Lopes Lopes
    Responder

    Ao cimo da Calcada da Ajuda existe esta aberracao de sinaletica, no caso a falta dela. Quem vier de cima da rua dos marcos, nao consegue ver que em cima da curva, existe uma passadeira, que e atravessada diariamente por idosos, que moram ali mesmo no n.261. Nao existe sinalizacao visivel, nem lombas, nem nada. As obras feitas naquela zona, alargando os passeios desnecessariamente e ferrosvem tudo que e sitio, por causa do estacionamento, so visto, o dinheiro gasto sem utilidade.

  • Martim
    Responder

    Vejo aqui comentários e pessoas que vêm falar na Rotunda do Marquês. Mas a rotunda está muito melhor e o número de acidentes e o trânsito ali diminui drasticamente desde as alterações que foram feitas. Portanto não vejo qual é o problema se a solução seguir o mesmo caminho… Enfim, critica-se sempre.

  • Manuela Rocher
    Responder

    Embora seja um local complicado a nível do trânsito, não me parece que vá solucionar seja o que for. As obras devem transformá-lo num caos , sobretudo se construírem um parque de estacionamento.
    Quanto ao comentário do Martim tenho a dizer que, efectivamente há menos movimento no Marquês pela simples razão que as pessoas agora EVITAM passar por lá entretanto os níveis de poluição passaram para os bairros e ruas limítrofes.

  • Maria
    Responder

    eu não concordo com este tipo de obras ,aumentar os passeioa qd são muito pequenos e perigosos,sim…mas não é o caso.Querem pessoas nos passeios mas se tiram carros na cidade cada vez ha menos gente nos passeios as pessoas vão de carro para os C.Comerciais e lá se vai o comercio de rua.

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