Lago do Jardim Botânico verte para o Túnel do Rossio

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Isabel Braga

Texto

Fernando Faria

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AMBIENTE

Santo António

27 Março, 2014


Os trabalhos realizados, entre 2005 e 2008, pela Rede Ferroviária Nacional (REFER) para a recuperação do Túnel do Rossio levaram à abertura de rachas no fundo do maior dos três lagos do Jardim Botânico, soube o Corvo através de vários técnicos e investigadores que trabalham no jardim. À epoca da intervenção, o túnel encontrava-se em perigo de derrocada. O lago em causa está situado na zona de fronteira do jardim com o Parque Mayer.

“Durante os últimos arranjos no túnel, novas detonações abriram rachas no nosso terreno e no grande muro de sustentação do Observatório Astronómico. Começámos a perder água no lago. E o lago faz muita falta, é um reservatório importante para a sustentabilidade do jardim em termos de água. Mas também é um elemento de vivência. E o facto de não ter água também se reflecte no microclima”, afirma uma investigadora e funcionária do Jardim Botânico.

Actualmente sem dinheiro, o Jardim Botânico não consegue reparar o lago. A REFER parece desconhecer ainda o problema. Em resultado disto, o lago apresenta-se hoje como um lamentável depósito de águas residuais, e os lisboetas perderam um dos recantos mais aprazíveis do Jardim Botânico.

O túnel do Rossio, com 2600 metros de comprimento, inaugurado em 1887 e considerado uma das maiores obras de engenharia do século XIX, esteve encerrado ao tráfego ferroviário entre 22 de Outubro de 2004 e 15 de Fevereiro de 2008, para obras de reabilitação. Isto porque existia o perigo de derrocada. As suas paredes foram, então, reforçadas com um novo revestimento estrutural em betão armado, nos troços mais críticos: entre a Calçada da Glória e a Rua de Artilharia 1, zona que abrange o Jardim Botânico.

Susana Abrantes, do gabinete de comunicação da REFER, afirmou que “só um parecer técnico” poderia estabelecer “a relação entre as duas situações”,  mas que esse parecer ainda não lhe chegou às mãos, embora ela o tenha solicitado [em resposta às perguntas colocadas pelo Corvo, a 13 de Março]. “Há muitas reclamações, inclusive de proprietários de casas, relacionadas com as obras do túnel”, acrescentou.

Por coincidência, foi publicado na imprensa, na passada sexta-feira, um anúncio de abertura de um concurso para “drenagem, impermeabilização e consolidação da abóboda e hasteais entre os pontos métricos 1635 e 1650 do Túnel do Rossio”. “Essas obras destinam-se a resolver problemas no interior do túnel. Não há aqui riscos envolvidos, nem nada de problemático”, afirma Susana Abrantes.

A direcção do jardim, por sua vez, não quis prestar ao Corvo informações sobre o problema que afecta o lago. O espelho de água tem, aliás, uma história antiga relacionada com o Túnel do Rossio, uma vez que foi construido pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, ao abrigo de um acordo estabelecido com o Jardim Botânico.

Este foi “muito afectado pela construção do Túnel do Rossio, que intersecta a parte inferior do jardim”, afirma Carlos N. Tavares, antigo director do Jardim Botânico, no “Guia do Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa”, publicado em 1967. “Os prejuizos causados pela abertura do túnel incidiram também no Observatório Astronómico, dada a violência das explosões de dinamite e o facto de o terreno em que assentava parte do edifício daquele estabelecimento não ter a consistência necessária”, pode ler-se nessa obra.

Segundo a mesma fonte, a construção do Túnel do Rossio obrigou à abertura, dentro do jardim, de um poço rectagular de 40 metros por dez, num local que foi negociado, através de um acordo assinado em 30 de Setembro de 1887, entre a Escola Politécnica e a antiga companhia dos caminhos de ferro. Esta ficou obrigada a indemnizar o Jardim Botânico de quaisquer prejuizos causados.

“Como parte da indemnização devida pela Companhia, o conde de Ficalho obteve do empreiteiro a garantia da construção de um lago, na parte de baixo do jardim, não muito afastado do local onde fora aberto o poço”, afirma Carlos N.Tavares.

Ligeiramente diferente é a história do lago contada por Rui Teles Palhinha, que assumiu o cargo de director do Jardim Botânico em 1921. Segundo ele, este lago surgiu “como produto de desabamento de terras para o interior do túnel Campolide-Rossio, sucedido quando esta passagem estava em construção”.

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COMENTÁRIOS

  • Fernando Jorge
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    Apenas uma correcção: o lago foi objecto de uma dispendiosa obra de «reabilitação» (mais à frente explico o porquê das aspas) em Maio-Junho de 2012. Para além de ter sido dispendiosa, a intervenção foi inútil pois poucos meses depois ficou no estado em que se vê actualmente. A obra não seguiu os padrões de qualidade que um monumento nacional exige: sem prévia investigação ou pesquisa das técnicas originais de construção, nem levantamento científico das patologias era de prever o mau resultado. Foi dinheiro dos contribuintes deitado ao lixo. Mas foi feita pomposa inauguração, com o Sr. Presidente da CML e Exmo. Reitor da UL e muitos jornalistas. Pena é que os mesmos jornalistas não tenham voltado ao Jardim Botânico 2 meses após a inauguração, quando todo o verniz das obras estalou revelando a verdade das obras de «reabilitação». Obrigado. Cumprimentos

  • MovV.org
    Responder

    Lago do Jardim Botânico verte para o Túnel do Rossio http://t.co/WBWr8yTplY

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