Eles querem fazer coisas na cidade, pôr Lisboa a mexer. E não ficaram à espera da iniciativa pública. Em grupos informais, por vezes só se conhecendo através da internet, pequenos projectos começam a invadir Lisboa. São as novas formas de activismo urbano.

 

Texto: João Pedro Pincha             Fotografia: Carla Rosado

 

O Laboratório ainda está fechado. Fazem-se as últimas limpezas. São 19h e por isso ainda não há clientes neste bar e galeria de um primeiro andar da Rua da Graça, que por norma só abre às 22h. Às quartas-feiras, contudo, o espaço recebe as reuniões da Assembleia Popular da Graça ao fim da tarde.

Os participantes na reunião chegam atrasados e dispersos – primeiro uma rapariga com o cabelo cor-de-rosa e um rapaz com ar de estrangeiro, depois um rapaz louro com rastas e, por fim, a restante comitiva, que hoje até é bastante reduzida.

“As reuniões são feitas por quem cá está. Há uma ordem de trabalhos, mas não há rigidez sobre o que se fala”, explica Inês Carvalhosa, que preside ao encontro. Por este motivo, o nome do jornalista é colocado na acta da reunião, escrita num papel A3, para que possa ser pendurado numa parede do Laboratório.

Os principais temas em debate são a preparação do Passeio da Jane (realizado no dia 3 de Maio) e o Mapeamento da Graça. A primeira iniciativa é realizada em todo o mundo: fazem-se passeios pelos centros das cidades, com o objectivo de dar a conhecer esses mesmos sítios e de colocar os vizinhos em relação. O nome do passeio é inspirado em Jane Jacobs, activista de direitos urbanos. Em Portugal, apenas se realizou um Passeio de Jane, aquele que foi organizado pela Assembleia Popular da Graça, que teve como tema “Cidade Lúdica vs. Cidade Burguesa e Cidade Habitada vs. Cenário Turístico”.

O Mapeamento da Graça é outra das iniciativas da Assembleia, que consiste em fazer o levantamento de todos os espaços culturais, comerciais, habitacionais e relacionais do bairro, de modo a poder-se “analisar os fluxos de turismo e de capital” da Graça, explica um dos participantes. Mas devido à Assembleia mais acções têm surgido: as Trocas de Graça, um banco de tempo do bairro; o Mercado de Trocas, no qual não se fazem transacções com dinheiro e ainda diversos cursos, como os de horticultura biológica.

A ideia da Assembleia Popular da Graça, explica Inês, é “os vizinhos organizarem-se”, daí que o grupo seja informal e flutuante. Com a Junta de Freguesia de São Vicente, a relação é “excelente”, garante, uma vez que até estão a ser pensadas acções conjuntas.

No Facebook nos encontramos

Juntar os vizinhos também foi o que moveu Carla Isidoro (na fotografia), mentora do Social Street Portugal, uma rede de grupos no Facebook dedicados a uma rua específica. O primeiro a surgir foi na Avenida Almirante Reis, mas entretanto o projecto já se alargou a outras ruas da cidade e também a localidades como o Porto, Maia, Estoril ou Carcavelos, existindo 15 grupos por todo o país.

“É comum ouvir comentários de pessoas a queixarem-se que não conhecem os vizinhos, que a vida urbana é muito impessoal e que dantes é que era giro, quando as crianças brincavam na rua à vontade com amigos do prédio do lado”, explica Carla, que importou o Social Street de Bolonha, em Itália, tornando Lisboa na segunda cidade do mundo a ter destes grupos. “A Almirante Reis é enorme, com dinâmicas diferentes ao longo da própria avenida”, diz, o que faz com que tenha características “óptimas para um bom grupo-piloto”.

Ao contrário da Assembleia da Graça, o Social Street por si só não tem como propósito organizar e coordenar iniciativas, mas sim “criar uma rede de vizinhança entre os moradores da mesma rua, aproximá-los, promover o sentido de segurança e confiança e dinamizar a rua”, explica Carla. O resto virá por acréscimo. “A beleza do Social Street é que é um projecto informal de cidadãos para cidadãos, em que todos podem ajudar a promover bem-estar na sua rua. Basta quererem”, conclui.

Este domingo, dia 18, haverá um passeio guiado ao longo da Avenida Almirante Reis, “onde uma ex-moradora que conhece a zona como a palma da mão vai contar a história de antigos edifícios e das suas memórias (antigos teatros que agora são garagens, entre outras curiosidades escondidas). Quem quiser, inscreve-se e tira proveito do passeio”, informa Carla. No sábado, dia 24, vai haver um torneio de futebol de rua no jardim da Alameda (é um estilo de futebol informal abertos a todas as idades), aberto a todos os vizinhos do grupo da Almirante Reis, e aos restantes grupos Social Street que queiram participar.

Comum a vários destes grupos é a presença em redes sociais e, de entre elas, o Facebook tem predominância. É também o caso do B.I. Bairro Intendente, uma página criada já no início de Maio e que surgiu da “necessidade de manter viva a chama”, explica Dinis Beringuilho, responsável pela recolha e divulgação das informações que diferentes instituições e projectos culturais do bairro.

Com a saída do gabinete de António Costa da zona, os gestores da página – um conjunto de espaços que abriram entretanto no largo e redondezas – apostam em “não deixar morrer o Intendente, antes pelo contrário, dar-lhe mais vida ainda, de forma a chamar um novo público”. Para isso, a página propõe-se a agregar todas as informações de eventos e espaços relativas ao Intendente, bem como, a breve prazo, começar a organizar iniciativas próprias.

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