A grande maioria das árvores da Avenida da Liberdade está sem ser podada há vários anos, “pelo menos desde 2009 ou 2010”, garante Vasco Morgado (PSD), presidente da Junta de Freguesia de Santo António, que admite não ter meios financeiros para o fazer. O autarca diz ao Corvo serem necessários cerca de 110.000€ para realizar tal operação, de acordo com orçamentos pedidos a empresas do sector. “Isso é praticamente o valor do orçamento anual que temos para a manutenção dos espaços verdes na freguesia”, afirma o presidente da junta, que assegura já ter posto a Câmara Municipal de Lisboa ao corrente da situação, “há bastante tempo”. E admite que possam vir a acontecer acidentes, se a poda não ocorrer.

 

A manutenção dos espaços verdes, incluindo as árvores, passou a ser uma das novas responsabilidade das juntas de freguesia, na sequência da transferência de competências da câmara municipal, ocorrida há sensivelmente dois anos – uma consequência directa da reforma administrativa da cidade de Lisboa, aprovada pela Assembleia da República, em 2012. A gestão dos espaços verdes da Avenida da Liberdade passou, por isso, da tutela da CML para a da Junta de Freguesia de Santo António. Mas Vasco Morgado admite dificuldades na concretização da tarefa. “Na avenida, não temos capacidade, nem meios técnicos, para intervir. Temos que os contratar, mas estamos a falar de valores muito altos”.

 

Um quadro já comunicado ao gabinete de José Sá Fernandes, o vereador responsável pela Estrutura Verde. “Eles sabem da situação, há bastante tempo. Já lhes comunicamos. A única solução, neste momento, passa por ser a câmara a realizar a intervenção no arvoredo”, diz Vasco Morgado, sugerindo que se proceda, posteriormente, a um reajuste na forma de lidar com este problema. O autarca social-democrata salienta que herdou tal situação da CML, com algumas árvores que estão sem ser intervencionadas há muito tempo – “houve uma inércia, talvez por falta de meios, durante anos” -, e considera que, na ausência de intervenção, o problema se agravará.

 

Tal fará com que a segurança dos transeuntes possa estar a ser comprometida. “Estamos num impasse. Sabemos que a poda tem que ser realizada, mas ela continua por fazer”. O presidente da junta de Santo António admite, por isso, que a inacção possa vir a favorecer a ocorrência de acidentes, causados pela queda de pernadas de árvores sobre os passantes da mais importante avenida da capital portuguesa. “E, se isso acontecer, teremos um problema jurídico grave, pois haverá responsabilidades para apurar”, afirma Vasco Morgado, lembrando que no lote de trabalhos a realizar está também o tratamento das palmeiras infectadas pelo escaravelho vermelho – surto que tem dizimado muitas palmeiras em Portugal.

 

A manutenção dos espaços verdes na Avenida da Liberdade tem sido alvo de muitas críticas. Em Julho passado, a Plataforma em Defesa das Árvores – movimento cívico que agrega diversas associações – fez uma contundente crítica à actuação – ou falta dela – de três entidades naquela artéria: CML, Junta de Freguesia de Santo António e Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Canteiros sem flores, árvores mal-tratadas, relvados secos e ao abandono, falta de um tratamento especializado das zonas verdes e, pensava-se na altura, a suspeita de que, “em breve, haverá podas desnecessárias no arvoredo”, dizia um comunicado lançado então pela plataforma.

 

“Em recentes reuniões, tem vindo a ser mencionado a estrutura ‘descompensada’ de algumas árvores da Avenida. Poderão os serviços da CML apresentar uma clara definição de ‘descompensado’ e as causas que terão levado a essa descompensação, bem como as práticas que a CML tem defendido para a sua ‘correcção’?”, perguntava o grupo de activistas, em Julho, referindo-se a alegadas operações de poda que a CML estaria a preparar para um conjunto de plátanos, situados na parte sul da avenida. E acrescentava: “Quais as razões da Câmara Municipal para não designar a Avenida como ‘espaço-verde estruturante’, uma vez que considera como tal o Parque Eduardo VII e Praça Marquês de Pombal?”.

 

O Corvo contactou, ao início da tarde desta quarta-feira (4 de Novembro), o gabinete do vereador Sá Fernandes para tentar obter um comentário sobre esta questão, perguntando se a CML poderia vir a ajudar a junta de Santo António. Mas, até ao final do dia, não obteve resposta.

 

Texto: Samuel Alemão

 

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