José Gaspar, o mais experiente vigilante de sala na Gulbenkian (Os Reis do Bairro – Heróis desconhecidos de Lisboa)

REPORTAGEM
Marcos Fernandes

Texto & Fotografia

VIDA NA CIDADE

Avenidas Novas

9 Março, 2018

Marcos escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.




Observa-se. De ganga e t-shirt, ou calção e espampanante camisa havaiana, observam-se pinturas, fotografias e esculturas, num embalo descontraído de quem se arrasta vagarosamente de obra em obra, pelas quais pausa a oscilação, a observar. Outros, sóbrios, de fato escuro e gravata, estáticos, ora de mãos dadas à frente, ora atrás, observam os observadores. “Eu gosto do meu trabalho, mas não sou grande apreciador de arte. Apesar de estar aqui há 35 anos, não quer dizer que seja um grande admirador de arte. Mas gosto do trabalho que faço”, confidencia José Gaspar, filho de Lisboa há 61 anos, o mais antigo vigilante de sala na Fundação Calouste Gulbenkian.

Os Reis do Bairro é uma rubrica mensal do jornalista Marcos Fernandes, na qual parte à descoberta de heróis anónimos da cidade de Lisboa.

“Eu ocupo o meu espaço. Arranjo sempre áreas de boa observação”. Há que estar atento a quem sinta a pulsão de tocar numa tela, de abusar do flash na máquina fotográfica, de sentar-se na land art equivocada como banco de pedra. “É (um trabalho) mental, é mental. É um bocadinho doloroso. Estamos aqui oito horas em pé a observar. Não conversamos porque é uma regra, fica mal, porque o visitante não gosta. Tem a sua razão. Pagou o bilhete e quer ver as obras em silêncio”. Será, por isso, um labor chato? “Quando o visitante entra, eu faço-lhe logo uma leitura, vejo as suas qualidades, o seu objectivo. Vejo se é agressivo, se é mexerico” – não de quem alimenta intrigas mas, antes, de quem mexe onde não deve -, “faço essa análise. Como circulam muitos visitantes, isso ajuda-me a passar o tempo!”, exclama José Gaspar, que fala a O Corvo enquanto varre a sala com o olhar em busca de quem mais faz do que observar arte. “Aquela senhora tirou uma fotografia com flash. Mas não vou actuar já, porque pode ter sido um erro. Vou esperar. Se disparar o segundo flash, com calma, actuo”. Ouve-se bip-bip. José Gaspar cala-se, atento. O flash não volta a disparar.

É que nem todos os visitantes se portam como devem. “Actuamos educadamente, mesmo que não aceitem bem do outro lado”, lamenta o batido vigilante. “Acontece, muitas vezes, vermos uma pessoa a mexer na obra de arte. Abordamo-la e ela leva a mal”. E, neste capítulo, os portugueses são os piores, confidencia. “O estrangeiro tem uma cultura diferente. Não digo na totalidade, mas é mais cuidadoso. Agora, o português… É triste eu dizer isso, mas é um bocado mais agressivo”. E, se for Domingo, ui! “É um dia muito chato para nós. É gratuito da parte da tarde e é natural que venha muita gente, muitos que nunca entraram em museus. É, muitas vezes, a essas pessoas que chamamos a atenção. Por vezes, abandonam as crianças… Elas andam soltas a correr”, lastima-se José Gaspar.

A técnica para garantir a tranquilidade na galeria não se aprendeu. Foi-se aprendendo. “A nossa posição, a nossa colocação, a nossa maneira de observar: isto ninguém ensina. Ao longo do tempo, vamos aprendendo. Vamos sabendo que não podemos pressionar constantemente o visitante, por exemplo”. E se algo der para o torto? “Se vir que a coisa está complicada, que há muita gente, aproximo-me das pessoas, mas vou ver a obra ou ler a tabela. Já estou farto de ler tabelas! Mas é a forma de eu apanhar o ângulo e aproximar-me. Isto vai-se adquirindo”, confidencia. Estas e outras técnicas, outras e estas manhas, vão surgindo da necessidade diária. José Gaspar nunca sentiu curiosidade em ir ao MoMA, em Nova Iorque, ou à Tate, em Londres, tirar notas sobre colegas vigilantes. “Não. Isto não é muito difícil”.

Há o Belo. Há o conceito feito arte. Há a materialização do Eu, e de outro semelhante. Há obras artísticas de que se gosta. Há obras que se entendem. Há obras humn-até-eu-fazia isto. Tudo convive em pretenso silêncio, e tudo é escrutinado pelo vigilante José Gaspar, há três décadas e meia na Gulbenkian. “Tive grandes episódios com grandes artistas. O Marcelino Vesperia, por exemplo! Era engraçado, quando ele chegava à recepção, mandava-me chamar. Entrava, dava-me o braço e, como era uma pessoa mais velha, experiente, mais conhecedor, contava-me estórias do tempo dele. Andávamos os dois aqui pela galeria e, quando passávamos em frente a alguns dos seus quadros, falava-me dessas obras”. E a visão do artista não caiu em saco roto. Daí em diante, sempre que um visitante fizesse do vigilante guia, e tirasse um dúvida artística, José Gaspar socorria-se das conversas com Vespeira e transmitia a informação do mestre. “É tipo relações públicas. Também o fazemos”.

Mas o vigilante não se esquece do seu propósito. Vigia. Sempre. “Tudo isto é caro! Tudo isto merece toda a atenção”. José Gaspar não desarma. Vai falando de lado aqui com o jornalista, que o ângulo de visão para a galeria do Centro de Arte Moderna tem de estar desobstruido. Eis senão quando um visitante espanhol nos interrompe e questiona se pode tirar fotografias. O vigilante anui, mas ressalva: “sem flash, por favor”.

“Uma vez, tive aqui o senhor Jorge de Brito, um dos maiores colecionadores de arte em Portugal, quando a galeria estava a fechar. Eu disse aos meus colegas quem ele era, fui lá abaixo, pedi-lhe desculpa e disse que tinha que sair, porque estávamos encerrados. O senhor olhou para mim, pôs-me o braço em cima e disse: «olhe, eu fico uma, duas, três ou quatro horas aqui dentro, e ninguém me põe lá fora». É claro que eu fiquei um bocado atrapalhado! Mas ele deu-me o braço, subimos, e acabou por justificar-se: «tudo isto que aqui está era meu». Ainda fiquei a sentir-me pior! Foi, então, que me contou que, quando o Centro de Arte Moderna abriu, não havia obras suficientes e ele emprestou muita da sua colecção, para que fosse inaugurado”, confidencia o vigilante. “O senhor respeitou-me e saiu. Ficámos amigos”.

José Gaspar chegou a vigilante de sala, há 35 anos, “por uma questão de necessidade”, depois de já ter trabalhado como técnico de refrigeração. “Estava à procura de emprego. Surgiu uma empresa de segurança, inscrevi-me e mandaram-me para a Gulbenkian”. Entretanto, a Fundação mudou os serviços de vigilância, mas com eles também José Gaspar se mudou para que continuasse na casa. “Foi a pedido da Fundação. É claro que agradeço tudo isso”. Mas a idade aumentou e há sonhos por cumprir. “Gostava, se calhar, de arranjar uma garagem, de arranjar uma banda de garagem, e passar o resto do meu tempo a fazer aquilo que eu sempre gostei: tocar bateria”. José Gaspar foi músico nos anos 70, década de transição política, social e cultural, década da explosão do rock progressivo em Portugal. “Tocávamos em bailes de finalistas. Eram covers de Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin… Usávamos cabelos compridos. Eu sou desse tempo. Sou dessa era”.

Hoje, depois de oito horas de labuta, vai para casa, passa tempo com a família e termina o dia, na calmaria da noite, ao computador. “Tenho um programa de composição e entretenho-me a compôr. É pessoal. Dá-me prazer. Tenho esse bichinho”. José Gaspar ainda não se dedica de alma, coração e relógio à música porque a “necessidade” de há 35 anos é constante. “Todos os dias penso na minha reforma, mas tenho que fazer isto”. E, quando chegar o dia de pendurar o sóbrio fato escuro e a gravata, altura em que se dedicará à sua própria arte, a musical, terá nostalgia por uma vida a zelar pela arte de outros? “Costumo dizer que nunca mais irei pôr aqui os pés!”, diz-nos, sorrindo. “Não sei se será verdade. Quando me reformar, talvez tenha saudades e venha visitar a Gulbenkian”.

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