Jazigos já não são o que eram

REPORTAGEM
Mário de Carvalho

Texto

Luísa Ferreira

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Cidade de Lisboa

18 Junho, 2013


Existe quem nunca pense no assunto, uns pensam nele toda a vida e ainda outros que o encaram de forma mais materialista, como um negócio: a morte. Ela esteve presente, hoje, terça-feira, 18 de Junho, na Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa, através de uma “Hasta Pública para a Concessão de Jazigos Particulares Prescritos e Lotes de Terreno no Cemitério do Alto de S. João”.

Numa sala do edifício central da autarquia, no Campo Grande, com pouco mais de vinte pessoas, das quais apenas sete foram licitadores, decorreu a sessão onde foi distribuído um documento sobre as regras de licitação, em que são identificadas as características dos 29 jazigos libertos.

Nesta sessão, a autarquia arrecadou mais de 200 mil euros. “Isto foi muito fraco”, disse, a O Corvo, Augusto Ferreira, que há 27 anos se dedica à recuperação de jazigos. Vânia Santos, representante de autarquia na hasta pública, partilha de mesma opinião. “Já tivemos aqui sessões de sala cheia”.

O vereador José Sá Fernandes, com o pelouro do Ambiente Urbano, Espaços Verdes e Espaço Público, define as condições gerais da hasta pública. Por regra, “os jazigos vão à praça devolutos, exceto nos casos em que o estado de conservação da construção não permita a retirada dos restos mortais em segurança”, diz.

Este ponto é particularmente importante, pois, segundo uma fonte camarária, as limitações orçamentais tem provocado “fortes restrições na limpeza dos jazigos”, por falta de pessoal.

O jazigo 4166, com uma capela e subterrâneo que ocupa uma área de 5,29 metros quadrados, no Cemitério do Alto de São João, foi o que obteve a licitação mais alta – 25.200 euros. O comprador retirou-se após a licitação da sala, para pagar 5 por cento da base de licitação, que era de 14.400 euros, tendo o prazo de dez dias para satisfazer a restantes pagamentos.

Postura diferente teve Jorge Miguel, gerente de uma empresa transformadora de mármores e granitos, em Amieira, Batalha. Esteve presente em praticamente metade das licitações e acabou por ser o grande protagonista de sessão. “O meu negocio é pedra”, referiu o empresário, realçando que se trata de negócio como outro qualquer.

Durante a sessão, o empresário pediu várias vezes para refletir sobre os valores da licitação, chegando a pedir desculpa aos presentes, justificando: “esqueci-me dos óculos e tenho que pedir ajuda para consultar as indicações”.

Augusto Ferreira, que há  27 anos está ligado à recuperação de jazigos, esclarece que se trata de um investimento. “É melhor do que ter dinheiro no banco”, assegura. E explica que, no Cemitério dos Prazeres, o valor dos jazigos seria o dobro ou o triplo, porque se trata de um local maioritariamente com jazigos classificados, o que não acontece no Alto de São João. A revenda de cada jazigo adquirido pode render, segundo os costumes do negócio, pelo menos o triplo do investimento feito.

Sobre os preços dos jazigos, refere que tudo é relativo. “Já assisti a uma sessão, há dois ou três anos, onde o jazigo ultrapassou os 150 mil euros. É uma loucura, mas não podemos explicar estas situações. “Uma funcionária da autarquia recorda essa sessão: “fomos obrigados a parar, pois estava a atingir um valor completamente louco. O jazigo ficava mais caro do que um apartamento em Lisboa”.

Com a venda do jazigo, a relação com a autarquia não termina. O novo proprietário, após a respectiva recuperação e no caso de pretender vender, terá de pagar à autarquia uma taxa de 50 por cento do valor da sua área.

Dos 29 jazigos em hasta pública, seis não tiveram licitação, todos os restantes necessitam de obras de recuperação.

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COMENTÁRIOS

Comentários
  • Rosa Félix
    Responder

    Desconhecia completamente essa realidade. Um bom artigo, parabéns.

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