Jardim do Campo dos Mártires da Pátria à espera de intervenção urgente

REPORTAGEM
Fernanda Ribeiro

Texto

AMBIENTE

Arroios

4 Dezembro, 2014




Árvores caídas, iluminação deficiente, lagos e espaço público degradados são a norma. Ao quadro junta-se agora o encerramento do café que ali funcionou durante 25 anos, e cuja concessão não foi renovada pela câmara. No seu lugar, a presidente da Junta de Freguesia de Arroios quer ver a funcionar algo com “qualidade e bom ambiente”. E diz-se preocupada com o estado a que o jardim chegou.

A presidente da Junta de Freguesia de Arroios, Margarida Martins, afirma estar “muito preocupada” com a situação do Jardim Braancamp Freire, situado no Campo dos Mártires da Pátria – também conhecido como Campo de Santana -, e diz ter projectos para o requalificar, em particular a zona sul, mais próxima da Colina de Santana, que está mais degradada.

Mas, para já, não há qualquer perspectiva imediata de intervenção e foi mandado fechar o único café que ali funcionava, O Coreto, a quem a câmara não renovou desta vez a concessão, que durava há mais de duas décadas. E o que os moradores e visitantes do jardim constatam é uma cada vez maior desolação.

Os lagos, há muito à espera de obras de impermeabilização e reparação, estão a provocar infiltrações nos terrenos em redor. Mal começou a época das chuvas, houve várias árvores que apodreceram e caíram, entre elas uma ficus que era classificada.

Na sua queda, a frondosa árvore provocou estragos nos muros do lago, partindo-os. Quem ali passe agora encontra algo que, ao longe, parece até uma instalação, mas não. É mesmo um amontoado de pedras, à espera que alguém as remova ou as reponha no lugar onde era suposto estarem. Outra das árvores tombadas permanece ainda no terreno, com partes do seu tronco e raízes já cobertas de musgo.

“Este jardim está muito abandonado. Logo no princípio do Inverno, caíram pelo menos três árvores. E o tronco desta ao pé do lago, que era muito frondosa, ficou por aqui imenso tempo, só recentemente é que vieram tirá-lo”, conta Maria Isabel Agostinho, moradora na Rua da Bempostinha, ao Campo de Santana, onde vive há já 55 anos.

Frequentadora do jardim Braancamp Freire, que todos os dias visita na companhia do marido, e onde O Corvo a encontrou há cerca de uma semana, enumera várias outras carências. “Tiraram os bebedouros que aqui estavam e puseram um novo, mas que deixou logo de funcionar. Avariou e ninguém o reparou. Os lagos estão há muito tempo à espera de obras. Há placas da câmara a dizer que, em breve, irão ser arranjados. Foram colocados no Verão, mas até agora nada”, lamenta.

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As árvores caídas sublinham a sensação de decadência do jardim.

E Maria Isabel não se conforma com o encerramento do restaurante-esplanada O Coreto, que ali funcionava há já mais de 25 anos. “Vai fazer-nos muita falta. Íamos lá quase todos os dias, tomar café, eu e o meu marido. Já não nos bastava o abandono a que votaram o Jardim Braancamp Freire, agora fecham O Coreto. Uma tristeza, isto vai ficar muito morto.”, disse.

“Nas redondezas, é claro que há outros cafés onde ir, mas este é especial, porque está no meio do jardim. Fechado, vai acabar por ser vandalizado”, sustenta Maria Isabel Agostinho.

O mesmo teme José Valente, a quem em 1985 a câmara municipal atribuiu uma concessão do espaço por 25 anos e que ali mandou construir O Coreto. A concessão terminou em 2013 e se, desde essa data, José conseguiu que a autarquia a prorrogasse por mais um ano e meio, agora já não conheceu igual sorte. Teve de entregar as chaves, a 2 de Dezembro. A autarquia pretende agora entregar o espaço à Junta de Freguesia de Arroios, a entidade a quem competirá abrir novo concurso para a exploração de um quiosque no jardim.

“Em 1985, quando a câmara abriu o concurso para a concessão, isto era mesmo só o espaço, não havia aqui nada. Fomos nós, eu e os meus sócios (da firma Reis & Moura, Actividades Hoteleiras, Lda), quem mandámos construir o restaurante. A obra durou dois anos e foi inaugurada dia 28 de Agosto de 1988. Na altura, isto foi um investimento de 28 mil contos (140 mil euros), o que era dinheiro. Já para não falar nas obras que fiz aqui há seis anos, que me custaram 60 mil euros”, recordou.

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José Valente contempla agora com tristeza a forma como O Coreto cessou actividade.

De então para cá, pagava à autarquia uma renda mensal que hoje pode ser considerada simbólica, de 260 euros. “É uma renda barata, admito. Mas a câmara poderia ter-me proposto um aumento e prorrogar a concessão, como fez antes. Mas não. Recebi apenas uma carta onde me comunicavam que teria de fechar as portas. E, se quisesse, poderia candidatar-me a um novo concurso para a exploração, no qual ficaria em pé de igualdade com qualquer outro candidato”, contou ao Corvo José Valente.

Sentiu-se injustiçado e decidiu recorrer a um advogado, para fazer valer os seus direitos. “No concurso que vier a ser lançado para nova concessão, eu tenho direito de preferência, disse-me o advogado. Mas até para garantir isso, que é um direito, tive que gastar dinheiro ”, sublinha.

A abertura de concursos é um procedimento que leva tempo e, nesse período, José Valente teme o que possa acontecer. “Fechado, isto vai ser vandalizado”, diz, revelando um temor que a sua filha, Sónia, partilha. “As paredes são de vidro e mesmo com o restaurante a funcionar, às vezes, partiam-nos os vidros, quanto mais enquanto estiver fechado”, afirma.

A justificar a decisão tomada pela autarquia, Margarida Martins, presidente da Junta de Freguesia de Arroios, alega que o restaurante “não tinha qualidade nenhuma”. “O tecto está todo partido, aquilo precisava de obras e nunca ninguém o arranjou”, disse a autarca.

“Recebia imensas queixas de moradores a esse respeito. E o que pretendemos que venha a funcionar ali é algo que tenha qualidade e bom ambiente”, sustentou Margarida Martins, salientando que o novo concurso público para a exploração do espaço só poderá ser lançado quando a câmara entregar essa competência à junta de freguesia.

Para já, e após a transferência de competências operada a 10 de Março de 2014, a junta de Arroios tem apenas a seu cargo os espaços verdes do Jardim Braancamp Freire, cuja manutenção é entregue a uma empresa que trata de todos os jardins da freguesia.

Já os lagos foram considerados “estruturantes”, disse a autarca, e estão ainda a cargo da câmara. O Corvo tentou apurar junto do gabinete do vereador José Sá Fernandes quando é expectável que se iniciem as obras de reparação dos lagos, mas não obteve resposta.

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Há largos meses que os lagos, como o resto do jardim, aguardam uma intervenção de fundo.

Margarida Martins quer melhorar o ambiente daquele espaço verde e “muito mais gente a visitar o jardim, mais crianças e mais famílias”. E afirma que “a junta tem projectos para melhorar a iluminação e para uma casa para os animais”, mas, alega presidente da junta, “isso só se pode fazer quando tiver todas as competências” sobre o Jardim Braancamp Freire, o que poderá acontecer no início do próximo ano.

Relativamente às queixas sobre o estado do jardim, Margarida Martins sublinhou estar “muito preocupada” e admite que há muito a fazer. “As árvores vão começar a ser limpas em Dezembro”, disse.

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COMENTÁRIOS

  • Lopo Maria Albuquerque
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    Pobre capital do reino, nas mão de incompetentes e oportunistas.

  • Luís Sérgio Reis Fernandes
    Responder

    Triste notícia.
    Tão triste é provavelmente o facto de o que foi construído não seja valorizado e o que se pensa fazer seja sobre as suas “cinzas”.

  • Ana Maria Pereirinha
    Responder

    Aqui nem é preciso cortar as árvores, basta deixá-las cair e fazer-se surdo, portanto o senhor vereador do ódio ao verde ignora.

  • Nuno Parreira
    Responder

    Eles querem é os bolsos cheios e estão-se a cagar pro povo, por mim eram todos em praça pública com a corda no pescoço e eu ia lá dar um pontapé no banco a todos já chega de roubarem o povo

  • Paulo Ferrero
    Responder

    Convenhamos que aquele tal de coreto era uma depressão … profunda. Espero que o que se seguir o não seja. Aquela jardim pode ser uma maravilha.

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