Com inauguração prevista para vésperas das últimas autárquicas, a obra viu os atrasos justificados com a descoberta de vestígios de corpos e, no início do ano, nova data de abertura chegou a ser apontada a Abril. Mas, no terreno, nada acontece. E as máquinas das obras até foram levadas.

 

Texto: Samuel Alemão 

 

Era para ter sido inaugurado pouco antes das últimas eleições auárquicas, em Setembro de 2013. Mas continua como obra por concretizar. Os meses passam e no local nada sucede. Aquele que foi anunciado pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) como o maior parque público situado no centro da malha urbana da capital, com 1, 7 hectares, permanece como um terreno com algumas infraestruturas realizadas, mas onde, desde há longos meses, os sinais de actividade são inexistentes. Não se conhecem os reais motivos da paralisação dos trabalhos, nem qual a data prevista para a sua conclusão. O Corvo tentou, desde a última sexta-feira (dia 4), obter esclarecimentos junto da autarquia, mas sem sucesso.

 

A única parte do projecto que se pode considerar acabada é aquela situada junto ao miradouro da Rua Damasceno Monteiro. Era, aliás, naquele talhão de terra delimitado por essa rua e pela Calçada do Monte que funcionava a denominada Horta do Monte – o essencial da obra inacabada desenvolve-se, todavia, entre esta e as escadarias do Caracol da Graça. Tratava-se de um projecto comunitário, que acabou desalojado daquele sítio pela Polícia Municipal, no início do verão passado, por a câmara considerar que o espaço era ocupado abusivamente, e de forma desordenada, pelos activistas do colectivo. Além do mais, estava já prevista a sua integração no Jardim da Cerca da Graça.

 

No início deste ano, quando já haviam passado três meses sobre a data inicialmente prevista para a abertura do grande jardim e eram inexistentes movimentações na encosta adjacente ao Convento da Graça, o vereador responsável pelos Espaços Verdes, José Sá Fernandes, justificara o atraso com a descoberta de numerosos vestígios de corpos, de origem ainda desconhecida aquela data. “Foram encontradas ossadas de mais de cinquenta cadáveres, que se suspeita possam ser ou do terramoto de 1755 ou de algum surto de peste. Isso ainda está por apurar”, disse, na altura, ao Corvo. O autarca assegurava ainda que, se tudo corresse bem, o novo equipamento estaria pronto a abrir portas em Abril.

 

Os dias de sol radioso e quentes para esta altura do ano, verificados nesta semana, seriam uma boa oportunidade para desfrutar do prometido espaço verde. Mas no lugar dos projectados relvados e zonas de sombra, o que ali existe, para além da referida horta comunitária, é um enorme baldio terraplanado, vislumbrando-se ainda escadas e lancis de betão, a deixarem adivinhar os planeados percursos. Dentro da maior parcela do jardim, delimitada pela cerca, a única parte com aspecto verdadeiramente acabado é um pomar situado num dos cantos inferiores do jardim, junto à Calçada do Monte. Que já existia. Para concluir o projecto, há ainda muito trabalho pela frente. Não se prevê, portanto, que as obras fiquem prontas durante a Primavera.

 

Os trabalhos de construção do Jardim da Cerca da Graça – que representam um investimento de 847 mil euros – começaram nos primeiros dias de Fevereiro de 2013 e logo com polémica. Algumas pessoas criticaram o facto de se terem cortado diversas árvores. Naquele momento, a autarquia justificou tal acção, ao jornal PÚBLICO, com a necessidade de eliminar espécimes que se encontravam “em risco de queda, com problemas sanitários ou com malformações que condicionavam a qualidade do futuro jardim”. E garantia a sua substituição por outras, integradas naquele que irá funcionar como uma espécie de corredor verde entre a Graça e a Baixa, usando a Mouraria como porta.

 

Até há de um ano, as obras pareciam correr no rumo e ao ritmo certos. Mas depois começaram a atrasar. Tanto que não foi cumprido o objectivo de inauguração do espaço público a tempo da campanha eleitoral – como estava previsto. A irregularidade meteorológica aliada aos achados arqueológicos serviram de justificação, pelo vereador José Sá Fernandes, para o deslizar de prazo. O que não agradou nada a diversas fontes ligadas à arqueologia, algumas com proximidade ao projecto, que ao Corvo contestaram o uso de tal justificação. “A arqueologia paga sempre as favas e serve de justificação para os atrasos”, comentaram alguns.

 

Se a persistente ausência de avanços observáveis nos trabalhos de construção já vinha sendo notada, outro facto chamou a atenção de quem vive nas redondezas, nos últimos tempos. Há cerca de três semanas, algumas das máquinas e equipamento da empresa que estava a realizar os trabalhos foram retirados do local, contou ao Corvo uma moradora. Torna-se, assim, fácil de perceber as razões pelas quais a fotografia publicada neste artigo, tirada ontem, é em tudo idêntica à do texto de Janeiro. É que nada aconteceu, entretanto.

 

Comentários
  • Alexandre Pólvora
    Responder

    bom ver que a #hortadomonte foi ao ar por boa causa – Jardim da Cerca da Graça continua por construir http://t.co/OFx5ABCqFV #lisboa #cml

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