Jardim Botânico vai ter duas esplanadas

REPORTAGEM
Isabel Braga

Texto

Fernando Faria

Fotografias

AMBIENTE

Santo António

21 Março, 2014


Iniciada a Primavera, o Corvo foi ao mais importante espaço verde no coração de Lisboa tentar desvendar um pouco do seu futuro. O cheque do Orçamento Participativo 2013 servirá, sobretudo, para melhorar o sistema de rega e os caminhos. Mas também para criar duas esplanadas. O objectivo é não só reabilitar o jardim, como abrir de vez as suas portas à comunidade.

“O nosso grande problema é a água, não há que escondê-lo. E a nossa maior preocupação é a rega. Os gastos com a água consomem 80 mil euros anuais, isto nos anos melhores”, afirmou ao Corvo José Pedro de Sousa Dias, director do Museu da História Natural e da Ciência (MHNC), instituição da Universidade de Lisboa da qual o Jardim Botânico faz parte.

Entre as medidas a tomar para reduzir estes custos, está o reaproveitamento das duas velhas cisternas existentes no interior do museu para armazenar a água das chuvas e a que escorre dos telhados. Também se tentarão recuperar as nascentes do jardim, uma vez que apenas uma tem água durante o ano todo. Planeada está ainda a optimização da rega, que deverá passar a ser feita de acordo com vários factores externos, incluindo a temperatura, os ventos e a humidade. Algo que o director do museu pretende que seja explicado às pessoas que visitam o jardim – projecto envolvendo uma intervenção que excederá os limites do orçamento participativo.

ocorvo_21_03_2014_jardim_botanico_01

Recuperar os caminhos no interior do jardim e criar zonas de lazer, que permitam ao público usufruir melhor daquele belíssimo e tranquilo espaço verde com quatro hectares de área – situado no coração de Lisboa e onde crescem plantas e árvores dos quatro cantos do mundo -, são os outros objectivos do projecto vencedor do orçamento participativo.

“O Jardim Botânico foi criado para os alunos da universidade estudarem. Foi pensado para as pessoas andarem, pararem, observarem, não para permanecerem nele. É isso que queremos mudar agora, queremos torná-lo num lugar do qual se possa usufruir, onde os visitantes possam permanecer algum tempo, a ler ou a conviver. E faltam os espaços para isso”, sublinha o director do  MHNC.

Com as verbas conseguidas, pretende-se criar, dentro do Jardim Botânico, duas esplanadas, uma na zona da bilheteira, junto a um dos portões que o ligam à Rua da Escola Politécnica, e a outra mais próxima do portão que estabelece ligação com a Rua da Alegria – o qual deverá ser aberto ao público. Prevê-se ainda a plantação de uma zona onde as pessoas possam estender-se no chão, mas que não será um relvado, uma vez que este consome muita água.

ocorvo_21_03_2014_jardim_botanico_02

A direcção do MHNC tenciona também criar bilhetes com descontos significativos para os habitantes das freguesias onde o jardim está implantado ou com a qual é confinante, casos respectivamente de Santo António e da freguesia da Misericórdia.

José Pedro Sousa Dias esclarece: “O dinheiro do Orçamento Participativo não passa por nós. Vai ser dividido em partes iguais pelas três vertentes: recuperação, sustentabilidade e uso público. E será repartido pelos projectos que estamos ainda a negociar com o departamento dos Espaços Verdes da Câmara Municipal de Lisboa. Nós apresentamos os projectos e a Câmara faz a obra. As negociações têm corrido bem. Contamos que as obras comecem em Setembro e que estejam prontas em Março ou Abril de 2015”.

Um jardim com muita história

O Jardim Botânico depende da Universidade de Lisboa, sendo um departamento do MHNC, a funcionar no edifício da antiga Escola Politécnica, ex-Colégio dos Nobres. Foi herdeiro das colecções do Real Museu de História Natural e do Jardim Botânico da Ajuda, transferidas para os terrenos vagos então existentes em volta da Escola Politécnica, criada pelo liberalismo, em 1837. “Com a fuga da família real para o Brasil [em 1808], o Jardim Botânico da Ajuda estava ao abandono. As suas colecções foram, primeiro, para a Real Academia das Ciências e, depois, para aqui”, explica José Pedro Sousa Dias.

“A enorme diversidade de plantas recolhidas pelos primeiros jardineiros do Jardim – E. Goeze e J. Daveau -, provenientes dos quatro cantos do mundo em que havia territórios sob soberania portuguesa, patenteava a importância da potência colonial que Portugal então representava (…) A elevada qualidade do projecto, bem ajustado ao sítio e ao ameno clima de Lisboa, cedo foi comprovada. As jovens plantas rapidamente prosperaram…”, pode ler-se na obra “Património da Universidade de Lisboa. Ciência e Arte”, coordenada por Marta Lourenço e Maria João Neto.

ocorvo_21_03_2014_jardim_botanico_03

Em 1911, a Escola Politécnica deu lugar à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tendo o Jardim Botânico estado ao serviço dos seus alunos até à transferência destes para as novas instalações, na Cidade Universitária, na sequência do incêndio que, em 1978, deflagrou no antigo Colégio dos Nobres. O fogo afectou gravemente o acervo das colecções de zoologia e antropologia, mineralogia e geologia, mas poupou o Jardim Botânico e os seus herbários, que tinham sido transferidos para instalações próprias em 1940.

O Jardim Botânico está “em degradação”, afirma, sem hesitações, o director do MHNC, que adianta uma explicação: “A Universidade deixou de investir nele, desde que se tornou menos nuclear do ponto de vista do ensino”.

A falta de pessoal, com destaque para os jardineiros, é outro dos problemas de que a instituição padece, de certa forma colmatada com a grande dedicação da maioria dos seus funcionários, alguns dos quais continuam a trabalhar ali, embora já tenham atingido a idade da reforma.

ocorvo_21_03_2014_jardim_botanico_04

A degradação de que fala o director do Jardim Botânico é visível desde o acesso da Rua da Escola Politécnica pelo portão junto à bilheteira, onde os visitantes são recebidos pelo busto coberto de verdete de Bernardino Gomes, médico e botânico, ligado à fundação da instituição.

Logo atrás, o Observatório Astronómico, cercado de andaimes e tapado por panos esfarrapados que adejam ao vento, aguarda obras há mais de dois anos, tendo em frente as cúpulas ferrujentas de estruturas destinados ao estudo das estrelas e que, em tempos, se abriam para os céus. A poucos metros, uma estrutura de madeira, completamente ao abandono, que em tempos recuados serviu para recolher dados metereológicos.

Um pouco adiante, uma pequena casa de madeira, identificada como “cabana de leitura para ser usada por uma pessoa de cada vez”, parece também abandonada. A sua única função visível será deixar semi-ocultas as indicações junto à entrada da chamada “Classe”. A “Classe” é, como se pode ler na placa colocada à entrada, uma zona plana onde estão reunidas as plantas de menores dimensões. Foi organizada pelo primeiro jardineiro chefe do Jardim Botânico, o alemão Edmund Goeze, estando aí representadas as principais famílias de dicotiledóneas.

ocorvo_21_03_2014_jardim_botanico_05

Essas plantas, originárias dos quatro continentes, estão dispostas em canteiros, formando conjuntos ecológicos em volta de um lago central, onde circula um belo e solitário pato multicolor, no meio de juncos e outras plantas aquáticas. A beleza do local é prejudicada pelas pequenas placas identificando cada planta, muitas das quais se encontram partidas, impedindo a leitura das legendas.

Um pouco mais adiante, podem ver-se as antigas estufas e, a estabelecer ligação com o portão principal do jardim, correndo ao longo do edificio do Museu da História Natural e da Ciência, um alinhamento de palmeiras, algumas das quais estão doentes. Sofrem de uma praga trazida por um escaravelho vermelho oriundo da Ásia, rhyncophorus de seu nome, chegado através da Andaluzia.

“Esta praga entrou em Portugal com as palmeiras usadas nos aldeamentos turísticos, e ataca sobretudo as palmeiras das Canárias. A palmeira é uma erva, por isso, morre quando é atacado o seu ápice. O escaravelho que as ataca é enorme, com vários centímetros de comprimento. O tratamento é bastante caro, mas pode dar algum resultado, só que o escaravelho volta a infestá-las, por vários motivos, entre outros porque há mais palmeiras doentes em volta, designadamente nos jardins privados vizinhos. Aqui no Jardim Botânico, ainda só foram atacadas as palmeiras das Canárias, mas o escaravelho atacará as outras, quando não tiver mais que comer”, explica ao Corvo Ireneia Melo, antiga coordenadora do Jardim Botânico, que continua ali a fazer o seu trabalho de investigação, embora tenha já atingido a reforma.

ocorvo_21_03_2014_jardim_botanico_06

A partir de uma primeira zona plana, o Jardim Botânico prolonga-se por um grande declive, que se estende até à parte mais alta do Parque Mayer, o chamado “arboreto”, zona muito aprazível e de grande beleza, projectada pelo botânico francês Jules Daveau, o segundo jardineiro chefe do Jardim Botânico.

Uma larga escadaria de pedra leva à avenida que, através do arboreto, estabelece ligação com o portão de acesso à Rua da Alegria – o qual irá ficar aberto, quando estiver concluída a intervenção no jardim. Ao longo desta alameda, podem ver-se as caleiras de pedra a necessitar de reparação, por onde em tempos circulou água.

Notável é a colecção de palmeiras vindas de todos os continentes, entre elas as cicadáceas, um dos ex-libris do Jardim Botânico. “Autênticos fósseis vivos, representam floras antigas, que na sua maioria se extinguiram. Hoje são todas de grande raridade, havendo certas espécies que só em jardins botânicos se conservam”, afirmam Marta Lourenço e Maria João Neto na já citada obra. Os estragos provocados pelo escaravelho vermelho são visíveis num número significativo destas árvores.

Do lado direito, a pouca distância, avista-se o muro de suporte, em mau estado, que separa o Jardim Botânico dos terrenos do palacete Ribeiro da Cunha. Do outro lado, estende-se o arboreto, denso bosque onde predominam as espécies tropicais originárias da Nova Zelândia, Austrália, China, Japão e América do Sul.

MAIS REPORTAGENS

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com

Send this to a friend