O Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, que desde Novembro de 2010 é um monumento nacional, tem o seu corpo de jardineiros presentemente reduzido a um único homem, ao qual compete uma missão impossível: cuidar de quatro hectares de uma zona verde muito especial da cidade, já que nela coabitam mais de 1400 espécimes vegetais, oriundas de quatro continentes.

Carlos Fazendeiro, o jardineiro único, que tem a categoria de “assistente operacional”, não está, porém, sozinho. Além dele, há outros cuidadores, os voluntários que oferecem os seus préstimos para cuidar daquele património – um deles diariamente, os outros aos fins-de-semana.

De resto, apenas trabalham no jardim outras quatro pessoas. Trabalham não será bem o termo correcto, porque todas elas estão desempregadas e foram temporariamente colocadas no Jardim Botânico pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.

Destas quatro, duas tinham já alguma experiência anterior como jardineiros, mas as outras duas pessoas vêm de áreas totalmente diversas.

Por isso, também, o que acaba por lhes ser pedido são trabalhos básicos, que nem sempre os entusiasma especialmente e que a alguns até desmotiva, como acontece com a varredura dos quatro hectares deste organismo vivo que é o Jardim Botânico.

A situação de falta de pessoal não é de agora. E o recurso a desempregados inscritos nos Centros de Emprego, para tentar colmatar as necessidades, também não. É assim que se tem mantido o jardim, há já alguns anos. Até há um mês, havia apenas mais um jardineiro no quadro, Orlando Sequeira, que estava no Jardim Botânico desde 2009, vindo do jardim do Instituto Câmara Pestana, e que se reformou em Junho passado.

E não vai ser fácil alterar este panorama de falta de pessoal, admite José Pedro Sousa Dias, director do Museu Nacional de História Natural e de Ciência, instituição de que faz parte do Jardim Botânico.

 

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“Estamos a tentar substituir o jardineiro que se reformou, mas está é uma profissão em que não há muita oferta, e também não há grande disponibilidade para a função pública. Temos dificuldade em contratar pessoas, o que não é totalmente impossível. Mas é difícil. Até porque são conhecidos os obstáculos que existem na contratação directa na função pública. E qualquer contratação que se venha a fazer terá de constar no orçamento do próximo ano”.

Longe vão os tempos em que os jardineiros eram às dezenas, para tratar daquele que já foi um importante cenário de ensino da Botânica. As aulas davam-se na Classe, designação que até hoje se mantém na plataforma superior do jardim, e na zona inferior ficava o Arboreto. Foi esse objectivo, o do ensino e da investigação, que determinou a criação do Jardim Botânico na Escola Politécnica, em 1873, por iniciativa do Conde de Ficalho e de Andrade Corvo.

Mas, de há 30 anos a esta parte, a Universidade foi reduzindo o investimento naquela unidade de ensino e a degradação tem-se apoderado do jardim, mau grado os esforços de quem ali trabalha e dos voluntários que tentam cuidar dele. A água é um bem que consome cada vez mais recursos e estão ainda por fazer as obras que poderiam permitir armazenar a água das chuvas e evitar os custos anuais de 80 mil euros – o valor que é habitualmente atingido nas contas a pagar.

Nos últimos anos, porém, dir-se-ia que motivos de peso concorriam para que se iniciasse um renascimento do Jardim Botânico. Em 2010, foi classificado como monumento nacional – o que, de algum modo, o protege dos apetites imobiliários. Em 2013, saiu vencedor com o projecto de requalificação apresentado ao Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lisboa, que prevê a realização de obras até 500 mil euros, a aplicar na reabilitação dos caminhos da água, no sistema de rega e na recuperação das cisternas existentes no edifício do Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

 

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Essas obras, a realizar pela Câmara Municipal de Lisboa, são fundamentais. Mas tardam a ser postas em prática. Os projectos ainda não estão sequer prontos, diz o director do Museu Nacional de História Natural e de Ciência e, por isso, a expectativa de que os trabalhos se iniciem em Setembro deste ano, como fora previamente anunciado, está agora posta de parte.

“Temo que haja atrasos. Ainda não vi o projecto final. Vi apenas algumas ideias em desenho pelo que suspeito que esteja tudo um pouco atrasado. O que não é nada bom, porque a confirmar-se, as obras em vez de se fazerem na época de Outono/Inverno, aquela em que o jardim tem menos visitantes, vão ser empurradas para a Primavera/Verão, que é o melhor período em termos de visitantes”, disse ao Corvo José Pedro Sousa Dias.

As obras a realizar pela autarquia deverão também incluir alguma recuperação do edificado”, em particular de construções existentes nas duas entradas do Jardim Botânico, que deverão ser alvo de obras para melhorar as condições de apoio aos visitantes.

Das duas esplanadas previstas, para já, vê-se apenas, próximo da bilheteira, um conjunto de algumas mesas e cadeiras, poucas, mas sem serviço directo, ainda que haja uma carrinha de venda ambulante à entrada, onde os visitantes podem abastecer-se de alguns produtos, entre eles a cerveja artesanal fabricada na Colina de Santana. Mas “esta é uma solução provisória”, sublinha José Pedro Sousa Dias.

Outro problema a resolver é o do lago situado na zona mais próxima do Parque Mayer, que agora está totalmente seco, desde que a Refer fez obras no túnel do Rossio.Um cartaz, afixado na sua margem, pede desculpas aos visitantes e avisa: “Devido ao fendilhamento das paredes do lago, este encontra-se temporariamente vazio. Ainda este ano, vão iniciar-se obras de beneficiação, no âmbito do Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lisboa”.

“Esperamos que a obra de impermeabilização do lago possa ser incluída nas obras a realizar”, diz o director do Museu Nacional de História Natural e de Ciência. Mas, nos próximos meses, o Jardim Botânico continuará ainda a viver com os problemas que já o afectam há muito. A falta de pessoal e a falta de investimento.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

  • Luís Paixão Martins
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  • Maria Papoila
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    acção de voluntariado no Jardim Botânico:

  • Maria de Morais
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    tesouras de poda? hmmm espero que saibam jardinar

  • Árvores de Portugal
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  • Claudia de Bauer
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  • Rui Barradas Pereira
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  • João Soares
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