A construção de um restaurante da cadeia Burguer King junto ao cruzamento das avenidas dos Combatentes e Professor Egas Moniz poderá vir a obrigar ao corte de cerca de seis dezenas de árvores em terrenos do Estádio Universitário de Lisboa. A concretização de tal cenário, que tem sido denunciada nos últimos dias pela Plataforma em Defesa das Árvores e pelo Movimento Fórum Cidadania Lisboa, resultará de um adicional, assinado em junho passado, ao contrato firmado entre ambas as entidades, em Outubro do ano passado. Esse anexo menciona a necessidade de proceder agora ao recuo do novo estabelecimento comercial para o interior do limite do estádio, devido à constatação de que o baldio situado em frente virá agora a ser integrado na rotunda que a Câmara Municipal de Lisboa decidiu entretanto construir no local. Mas a Universidade nega essa informação, que qualifica de “falsa”.

 

De acordo com o documento assinado a 17 de junho – e disponibilizado ontem no sítio do Fórum Cidadania LX -, a área de implantação do negócio é alterada para passar a incluir a zona dentro do recinto desportivo académico e a empresa detentora da Burguer King fica autorizada a “executar todas as obras que a construção do restaurante requer e que estão definidas nos termos do contrato, bem como o abate e corte de árvores”, que “ficam para o primeiro outorgante”, ou seja, a Universidade de Lisboa. No mesmo ponto, lê-se que à multinacional compete a “demolição do muro existente e construção de novo muro e vedação de suporte na nova delimitação (…), eventual reposicionamento do painel publicitário, reconstrução do caminho pedestre junto ao muro no interior do estádio” e ainda a regularização paisagística. O adicional, assinado pelo reitor António da Cruz Serra e dois administradores da empresa, vem acompanhado de uma planta com a nova área de implantação.

 

Nos considerandos deste texto, é referido que durante a fase de aprovação do projecto para a construção do restaurante, os serviços do município informaram que o mesmo “pretende construir uma rotunda na confluência na confluência da Avenida dos Combatentes com a Avenida Professor Egas Moniz que conflitua com a área contratualmente prevista para a implantação do restaurante”. Tal obrigará a câmara municipal a expropriar uma parcela de terreno da universidade e, em consequência, fazer com que a implantação do restaurante tenha de “avançar para o interior do Estádio Universitário de Lisboa, com alteração do espaço afeto e construção de novo muro de suporte e vedação”. E será essa entrada em perímetro do estádio a motivar o corte de árvores, de acordo com o contratualizado. O que acabou por desencadear uma interpelação ao reitor por parte da Plataforma em Defesa das Árvores.

 

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Nela, o grupo cívico diz sentir “imensa perplexidade e o maior repúdio” pelo facto de a instituição de ensino “permitir a amputação de um espaço verde numa zona dedicada à natureza e à prática do desporto ao ar livre”. E considera que o projecto “não é de forma nenhum defensável em pleno século XXI, não só pelo abate de arvoredo que implica como pela facilitação junto dos jovens (…) de hábitos alimentares contra-indicados pela generalidade das boas-práticas a nível internacional”. Por isso, perguntam ao reitor se as contrapartidas oferecidas pela Burguer King “são suficientes para compensar a pegada ecológica deixada pelo abate das árvores e pela instalação do restaurante de fast-food?”. Mas as questões não se ficam por aí. A Plataforma questiona também se foram estudadas outras alternativas de localização que não implicassem o abate de arvoredo e se não seria “mais legítimo” esperar pela entrada em vigor do Plano de Urbanização da zona.

 

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Questionada pelo Corvo, a Universidade de Lisboa qualifica a informação sobre o corte de árvores como “falsa”. Em resposta escrita, o assessor de imprensa, António Sobral diz que “a verdadeira notícia – boa para quem ame a natureza e o Estádio Universitário de Lisboa, mas má para quem participe em campanhas negativas contra a Universidade – deveria ser que a Universidade de Lisboa elaborou, em 2016, e executará, nos próximos meses, um projeto de reflorestação do Estádio Universitário, que inclui a plantação de 193 árvores, 830 arbustos e mais de 2.000 herbáceas”. No âmbito desse plano foi realizado um estudo de todas as espécies vegetais do estádio, do qual terá resultado a recomendação para o abate de 61 árvores, “por constituírem um perigo para os utentes”. Destas, 22 terão mesmo de ser cortadas, por apresentarem perigo para a via pública – mas só depois de se recolher parecer positivo do Instituto de Conservação da Natureza.

 

A assessoria de imprensa do reitor garante que o corte de árvores nada tem que ver com a construção do Burguer King, sendo os processos “autónomos” entre si. “Só com muita criatividade e má fé, se consegue imaginar o abate de 60 árvores para construir o restaurante no referido local. O projeto está pendente de licenciamento pela Câmara Municipal de Lisboa”, diz o mesmo texto enviado ao Corvo, o qual não faz qualquer referência às alterações mencionadas no adicional ao contrato original. A resposta assinala apenas que “a Universidade colocou a concurso público a construção e concessão dum restaurante no parque de estacionamento selvagem, e sem qualquer árvore, existente no cruzamento da Avenida Prof. Egas Moniz com a Avenida dos Combatentes”.

 

Texto: Samuel Alemão         Imagens: Plataforma em Defesa das Árvores

 

  • Ines B.
    Responder

    Ninguém acha estranho que a Universidade na sua resposta ao jornalista tenha sido omissa quanto à existência de uma adenda ao contrato que é feita justamente por causa de alterações ao projecto e que implicam a entrada por um terreno com árvores e que a única forma de lá construir é abatendo-as? E ninguém se indigna que em pleno século XXI uma universidade promova e ganhe dividendos de um restaurante de fastfood em detrimento de árvores? E que à frente das universidades públicas estejam reitores que isto defende, que não suportam ser questionados por cidadãos e que a qualquer crítica que se lhes faça “argumentem” com cabalas contra a universidade.

  • João Coelho
    Responder

    Apesar da alínea referida no contrato, a resposta da Universidade de Lisboa pareceu razoável.
    Veremos o que fará o Burger King.. #paísdasrotundas

  • Rosa Casimiro
    Responder

    A resposta da UL pareceu razoável ? Ignorar os factos que constam num contrato assinado pelo reitor parece-lhe razoável?

  • João Pedro Cegonho
    Responder

    Não se poderia ter pensado em algo mais interessante? Um espaço com propostas para uma alimentação mais saudável, um edificio que poderia estar integrado no terreno – com dois níveis, com um acesso desde um passeio na rotunda e outro acesso ao nivel superior/interior da zona desportiva, um desenho urbano que permitisse caminhar entre o Hospital e a zona da Quinta de Barros?
    Até se podia justificar o abate das árvores, e da perca de área para a prática desportiva, mas para isto ? É isto o melhor que a Universidade nos consegue oferecer – a Lisboa, aos estudantes, aos cidadãos: ceder o espaço para uma multinacional de fast-food construir um “drive-trough”, um restaurante de beira de estrada encravado contra uma rotunda, sem ligação com o espaço desportivo ou com as ruas envolventes?

  • Artur Lourenço
    Responder

    Razoável? A sério?

  • Carlos Maciel
    Responder

    Irá novo fast food implicar o corte de cerca de 60 árvores no Estádio Universitário? https://t.co/3VJK6DPGln

  • Joao Villalobos
    Responder

    Irá novo fast food implicar o corte de cerca de 60 árvores no Estádio Universitário? https://t.co/VhoGxp7kOw

  • Alberto
    Responder

    Qual é a contra partida que é dada à Universidade de Lisboa

  • Ruiz
    Responder

    Nada a que não estejamos já habituados!

    Para $betonizar$ vale tudo! Atenção aos planos maquiavélicos que estão a “cozinhar” para Monsanto!

  • José
    Responder

    Sem o corte das ditas arvores, NÃO HÁ CONSTRUÇÃO, logico???.

  • Clara
    Responder

    Não há já um McDonald’s no campo grande…? Não chega?

  • josemarquesdossantos
    Responder

    #Grande_bronca
    Irá novo fast_food implicar o corte de cerca de 60 árvores no Estádio Universitário? https://t.co/zatW0PxZqC

  • Ana
    Responder

    Para além do corte das árvores, há que considerar a problemática de mais uma cadeia de fast food junto a um local onde devia ser feita a promoção de um estilo de vida mais saudável!

    http://nutrimento.pt/activeapp/wp-content/uploads/2016/11/mayors-consensus-healthy-cities.pdf

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