Mais um dia de fortes chuvas e repetiu-se, na tarde desta quarta-feira (26 de Novembro), o cenário de inundações em vários pontos de Lisboa, com particular incidência no Lumiar, em São Domingos de Benfica e em Chelas. Isto acontecia ao mesmo tempo em que, na reunião pública do executivo camarário, nos Paços do Concelho, os ânimos se exaltavam, com uma forte troca de palavras e de acusações entre os vereadores, e envolvendo também o presidente. O abandono momentâneo da sala por parte de António Costa levou mesmo o social-democrata António Prôa (na fotografia) a acusá-lo de uma “enorme falta de respeito”.

 

Os dois foram, aliás, os grandes protagonistas das duas primeiras horas desta reunião, alongando-se numa complexa exposição de argumentos e em recorrentes atirar de culpas, ora ao PS, ora ao PSD, pela situação de repetidas inundações em Lisboa. Em foco esteve, outra vez, a demora na concretização do já muito falado Plano Geral de Drenagem de Lisboa – a qual, alegadamente, estará na origem das cheias vividas em Lisboa nos últimos dois meses. António Prôa disse, referindo-se ao referido plano, que a Câmara Municipal de Lisboa “não esteve minimamente interessada em cumprir o que aprovou em 2008”.

 

Foi, de resto, o eleito pelo PSD a dar início ao debate sobre o tema, logo no início da reunião, no período antes da ordem de trabalhos do dia. “Verificando que não há qualquer intenção desta câmara em fazer a apresentação de uma proposta para reforçar os investimentos na rede de drenagem em 2015, o PSD trará aqui ele mesmo uma proposta nesse sentido”, prometeu Prôa, ao acusar a autarquia liderada por António Costa de “apenas prever gastar 1,7 milhões de euros” em investimento na implementação do plano geral de drenagem, no orçamento municipal para 2015.

 

O vereador lembrou ainda a promessa feita por António Costa, aquando das últimas cheias, no mês passado, de trazer à próxima reunião pública de câmara “uma solução para o problema das cheias”. “Passou mais de um mês, mas o senhor presidente não trouxe nada aqui”, acusou António Prôa, alegando que, em vez dos 1,6 milhões de euros que a edilidade tem gasto, em média, nos últimos cinco anos, na renovação da rede de drenagem, deveriam estar a ser investidos 7,6 milhões de euros. “Para os anos seguintes, há sempre mais fundos, mas, depois, as coisas não se concretizam”.

 

As acusações do vereador do PSD deram origem, numa primeira fase, a uma resposta de José Sá Fernandes, vereador com o pelouro da Estrutura Verde, e, pouco depois, do próprio presidente da câmara. “Não é verdade que a CML não tenha feito nada neste campo. Aprovámos um Plano Director Municipal (PDM) extraordinário ao nível da impermeabilização dos solos, o qual impediu a impermeabilização em locais onde estavam previstas urbanizações, como Quinta do José Pinto ou no Vale de Chelas”, disse Sá Fernandes, antes de aludir aos trabalhos já previstos pela SimTejo no Vale de Alcântara e ainda na Praça de Espanha, onde será construída uma baía de retenção.

 

Antes de António Costa tomar a palavra e responder a Prôa, também Jorge Máximo, vereador com o pelouro das obras, deu ênfase à “necessidade fundamental de, no Vale de Alcântara, a SimTejo fazer o que está planeado”. Sobre as inundações e derrocada de terreno ocorridas, na semana passada, junto à Rotunda do Relógio, o vereador queixou-se de os colectores com proveniência no sistema de drenagem do Aeroporto de Lisboa – onde decorreram obras, recentemente – terem ficado entupidos com diversos materiais inesperados, como capacetes e botas. “Uma enorme falta de civismo”, queixou-se.

 

António Costa voltou a afirmar o que já dissera, aquando das inundações de Outubro: “não solução para as cheias”. “Não existem soluções para situações de risco, elas podem é ser mitigadas e corrigidas. É irresponsável dizer o contrário”, afirmou o presidente da câmara, salientando que “a gestão responsável do risco passa por assumir a possibilidade da existência desses riscos”.

 

O presidente da autarquia lançou-se, depois, numa demorada digressão pelo que entendeu serem as razões para o actual estado de coisas, nomeadamente a dificuldade em implementar quer o plano geral de drenagem da cidade, mas também a transferência da propriedade e gestão da rede de saneamento “em baixa” da CML para a EPAL. António Costa disse que “as negociações foram, finalmente, concluídas na passada quinta-feira”, no aparente encerrar de um processo que já vem de 2002 e retomado por este executivo em 2008.

 

Costa negou ainda que a autarquia vá investir apenas 1,7 milhões de euros na renovação da rede de drenagem no próximo ano. Caso sejam aprovados os valores de financiamento comunitário a que a autarquia se terá candidatado, o valor ascenderá a três milhões, explica o presidente da CML – embora tenha confessado que tal seria “pouco provável”. De acordo com ele, e com recurso a tais verbas, a câmara vai aumentar substancialmente e de forma progressiva o investimento na rede de drenagem: 9,5 milhões em 2016; 15 milhões em 2017 e 25 milhões em 2018.

 

Pouco depois de António Prôa ter retomado a palavra para responder, António Costa apelou a que o vereador fizesse logo as críticas que tivesse a fazer-lhe, pois teria que se ausentar dentro de poucos minutos. E, precisamente, estava Prôa a criticar fortemente a CML pelas demoras na concretização das obras da rede de drenagem, bem como na entrega do orçamento municipal de 2015 – apresentado com um atraso de 21 dias -, quando Costa saiu da sala. António Prôa não gostou e acusou-o de “profunda falta de respeito” e de “uma arrogância inacreditável”.

 

Texto: Samuel Alemão

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com