De repente, todos falam daquela que era uma das zonas de pior fama da capital. E por bons motivos. O processo de reabilitação de uma área conhecida sobretudo pela marginalidade e a prostituição parece estar a correr bem. Tanto que António Costa, que para ali mudou o gabinete há pouco mais de dois anos, anunciou a missão como cumprida. Os próximos tempos serão decisivos para se perceber se a mudança veio para ficar.

 

Texto: Sérgio Alves     Fotografia: Luísa Ferreira

 

Dois anos depois de ter instalado o seu gabinete no renovado Largo do Intendente, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, anuncia o regresso à praça do Município no final do mandato com a garantia de ter “credibilizado a intervenção no bairro.”
Num verão que se anuncia recheado de novidades, com a abertura de novas lojas (incluindo A Vida Portuguesa no mês de Agosto), cafés, espaços criativos no antigo Hospital do Desterro e uma nova zona residencial (EPUL), o eixo Martim-Moniz/Intendente prossegue o caminho de uma feliz e animada renovação.
Iniciada em Abril de 2011, data da instalação do gabinete de António Costa, a iniciativa vinha acompanhada da intenção expressa de “dar confiança às pessoas para investirem” nesta zona “de má fama” e de um processo de requalificação do espaço público. No final desse ano, começaram as obras do Largo do Intendente, anunciaram-se novos estabelecimentos e renovaram-se promessas de “mudar esta zona e o seu estigma”. O outrora “mal frequentado” e “perigoso” largo daria lugar a um espaço aberto, amplo e seguro com a presença da polícia municipal.
O início de Junho de 2012 marca a inauguração do novo espaço multicultural do contíguo Martim Moniz, com restaurantes e um mercado intercultural a darem animação e nova vida àquela praça. No mês seguinte, é inaugurado o novo largo do Intendente, com a água a “brotar” da velha taça de pedra, novas árvores, fachadas renovadas, e surgindo estabelecimentos como a Largo Residências e uma esplanada nova em folha – a do Café “O das Joanas”.
Ao longo de Verão 2012, os eventos culturais sucedem-se a um ritmo impressionante: a ópera “La Bohéme” pela Companhia de Ópera do Castelo, concertos de Boss AC, Xutos e Pontapés e Camané entre outros artistas que animaram o renovado espaço da cidade, performances no Largo Residências, um mercado de troca de livros, discos e filmes, atividades em bicicleta, atuação de dançarinos, uma peça de teatro pelo grupo O Bando e exposições. Em Outubro, no aniversário da implantação da República, foi inaugurada uma instalação da artista plástica Joana Vasconcelos.
Mas nem tudo são rosas. Os antigos frequentadores do largo mudaram-se para as ruas adjacentes, mantendo moradores e visitantes em estado de alerta. As prostitutas povoam de forma discreta o largo e os taxistas continuam a desaconselhar a visita dos turistas, como nos confidenciou Daniel Abrantes, gerente dum hostel de qualidade num dos edifícios reabilitados, Largo Residências.
Apesar disso, a segurança é apontada por todos os estabelecimentos a funcionar no largo como um fator positivo. Isabel Marques, da loja da Fábrica Cerâmica Viúva Lamego, não tem dúvidas: “Dantes, não se via ninguém a passar aqui para fazer compras. Agora, vejo as pessoas a circular à vontade com os sacos de compras e os pais a passear as crianças, ou crianças mais velhas a andar de bicicleta – o que antes seria impensável, pois era muito perigoso”.
A loja de Ferragens “A.J.Ferro” é outro dos estabelecimentos que se manteve a funcionar, apesar da insegurança e dos assaltos frequentes, como destaca Arlindo Andrade, funcionário da casa: “Havia problemas de assaltos com clientes nossos. Sim, havia conflitos, roubos. Isso desapareceu por completo desde as obras e a vinda do presidente da autarquia”.
Há menos tempo no largo, os dois espaços de restauração do atual Intendente, a “Casa Independente” e “O das Joanas”, são um foco de atração e de abertura ao exterior desta zona. Chamam jovens de fora do bairro e estrangeiros, embora mantenham entre os seus clientes a população residente do bairro, outrora ausente por motivos conhecidos.
Inês Valdez, da Casa Independente, confirma: “os nossos clientes são jovens e estrangeiros, bem como moradores do bairro”. E Joana Synek, do “O das Joanas”, não desmente: “ao nosso espaço vêm os moradores do bairro, gente nova atraída pelos nossos eventos e pelos artigos publicados na imprensa, e turistas que gostam mais desta zona por ser menos turística que o Chiado”.
A retirada do gabinete do presidente da câmara não tira o sono a quem trabalha no largo. Dos mais antigos (Víuva Lamego e A.J.Ferro) aos mais novos (Largo Residências, O das Joanas e Casa Independente), todos parecem estar convictos da manutenção da segurança nesta zona. Isabel Marques, da Viúva Lamego, mostra-se confiante. “Quando sair o presidente, é capaz de já não ser a mesma coisa. Mas já não vai voltar ao que era antes. Já não vai haver oportunidade de essas pessoas voltarem aqui ao largo”.
Arlindo Andrade, da A.J.Ferro, é, porém, menos otimista: “Acho que é capaz de piorar. Não tanto como dantes, mas pode piorar um bocadinho”. Inês Valdez (Casa Independente), Joana Synek (O das Joanas) e Daniel Abrantes (Largo Residências) partilham duma evidente confiança na segurança do largo, mesmo depois da saída do autarca.
Os próximos meses prometem a continuação da animação neste “novo” espaço urbano, com iniciativas de associações e empresas nesta zona de Lisboa. Recentemente, aconteceram o “Faz-me Festas nos Anjos” (evento cultural e desportivo) e o Dia I (envolvendo os bares de má fama da zona). Já a seguir, acontecerá o Festival de música Red Bull – O Santo Vertical , a 12 de Junho, com bandas nacionais, e o evento Yorn Intendente Skate Jam, a 21, 22 e 23 de Junho, dedicado aos desportos radicais.
Ao mesmo tempo, manter-se-á a promoção dos bares das ruas adjacentes e a abertura de novos espaços comerciais no próprio largo – permitindo adivinhar a conquista de cada vez mais visitantes e novos residentes. No domínio social, destacam-se um conjunto de atividades junto da comunidade residente, no âmbito do programa “Renovar a Mouraria”, e a atividade da Largo Residências, com uma forte vertente comunitária, ao dar formação artística a jovens do bairro e encaminhá-los para escolas de arte.
Mas será que o Intendente está na moda? Para os interlocutores do Corvo, tal não oferece dúvidas. Isabel Marques (“Acho que isto está fantástico”), Arlindo Andrade (“Está na moda, sim! Porque fazem festas. Há grande convívio e coisas novas que estão a resultar.”) e Joana Synek (“Acho que está em crescendo”) convergem na apreciação da crescente “movida” no antigo e degradado bairro.
E a comparação com o Cais do Sodré, igualmente em processo de reabilitação, é inevitável – pois a recuperação em curso no Intendente pode acabar com o estigma antigo, por ser uma zona conhecida pela prostituição e marginalidade. O sentimento é comum a todos: é possível mudar o rosto e alma do Intendente, mas o caminho ainda é longo e difícil.

 

CITY STREET

  • Alexandre Nunes
    Responder

    Caso para dizer que Lisboa precisa de dezenas de “Intendentes”. Sugiro que façam uma peça sobre o estado de Alfama. São Paulo e Baixa. Só para não parecer que “O Corvo” se associou a uma das candidaturas às próximas autárquicas.

  • Jorge
    Responder

    É positivo mas a prioridade das prioridades deve ser Alfama que se tem tornado uma autêntica favela quando é a galinha dos ovos de ouro de Lisboa. O seu potencial turístico e comercial é enorme, mas mantém-se no estado que se sabe. Intimida os turistas que lá passam sem o acompanhamento de guias. E a Baixa tem vindo a melhorar um pouco mas ainda é uma vergonha nacional. Para quando a mesma atenção a Alfama que tem sido dada à Mouraria?

    Se Alfama fosse espanhola (ou grega), que tão bem conserva bairros semelhantes, seria a zona mais apetecível da cidade, para lisboetas e turistas.

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