Pouco mais de seis meses após a introdução da videovigilância na zona, estão longe de ser tranquilizadores os sinais sobre o quotidiano do mais turístico bairro de Lisboa. Os representantes dos moradores e dos comerciantes falam em sentimento de insegurança e em disseminação do tráfico de estupefacientes. Os turistas queixam-se nas recepções dos hotéis de serem constantemente assediados nas ruas por traficantes. Por isso, pede-se uma actuação mais eficaz da polícia.

 

Texto: Samuel Alemão

 

A vida nocturna e os desacatos a ela associados são, há muito, uma realidade bem conhecida do Bairro Alto, dos seus moradores e comerciantes, bem como de muitos daqueles que o frequentam. De tempos a tempos, há relatos sobre incidentes graves que parecem confirmar essa ideia feita sobre um bairro que, nos últimos anos, ganhou também um grande destaque nos roteiros turísticos dos que visitam a capital portuguesa.

 

Cenas de pancadaria, assaltos, esfaqueamentos, venda e consumo de droga estão longe de ser ali raridade. Tanto que acabaram por justificar a instalação de um sistema de videovigilância, há muito reclamada por alguns comerciantes e autarcas, que entrou em funcionamento em Maio deste ano – após um atraso de largos meses em relação ao que estava previsto.

 

Mas, apesar de as autoridades terem feito um balanço positivo do primeiro semestre de funcionamento do sistema de monitorização, persiste a ideia mais ou menos difusa de que o Bairro Alto se mantém um território incapaz de fazer face à perturbação causada por uma crescente movida nocturna que parece ter tomado conta de um território que se estende a Bica, Santa Catarina, Cais do Sodré e Santos.

 

“Há um aumento da sensação de insegurança, sim. A situação parece estar algo fora de controlo e a aumentar. Tanto que nós, a partir de certa hora, evitamos andar na rua, pois não estamos muito descansados, a partir da meia-noite e meia ou da uma da manhã”, confessa ao Corvo Luís Paisana, presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto (AMBA). O mesmo responsável afirma que o ambiente estará tão degradado que, ironicamente, “os moradores mais jovens preferem ir divertir-se para outras zonas”.

 

O medo a que se refere Luís Paisana fundamenta-se no crescente sentimento de que “as ruas estão tomadas pela vontade de alguns gangues, que fazem o que querem” e “por uma actuação da polícia que não se percebe bem em que critérios é fundamentada”. “Por vezes, até dá a ideia que eles preferem não se meter, para não serem agredidos”, afirma o dirigente da AMBA, fazendo notar que com este quadro se corre o risco de afugentar do bairro os que apenas o querem visitar e divertir-se.

 

A contribuir para a “má-fama” do Bairro Alto estão incidentes como o ocorrido na madrugada de 1 de Novembro passado, em que um rapaz de 17 anos foi agredido à pedrada e esfaqueado oito vezes, junto à Travessa dos Fiéis de Deus. O jovem encontra-se ainda em coma, tendo o seu agressor sido detido pela polícia alguns dias depois. Nesse mesmo fim-de-semana, soube o Corvo, houve pelo menos um outro desacato sério, que resultou em dois feridos com gravidade. Não é difícil, por isso, criar uma imagem do bairro como cada vez mais perigoso.

 

Um cenário que é, todavia, desmentido por Hilário Castro, seu congénere da Associação de Comerciantes do Bairro Alto. “Isso é especulativo. Não podemos afirmar uma coisa dessas”, diz o dirigente associativo, que desvaloriza o incidente ocorrido há quase dois meses. “Foram dois gangues rivais que se encontraram no Bairro Alto para um ajuste de contas”, garante, adiantando que “as autoridades, com a ajuda da videovigilância, deram rapidamente conta do assunto”.

 

Hilário Castro diz que naquela área da cidade, “por se tratar de uma zona de diversão nocturna, a presença policial é fundamental”. Mas, reconhece, será sempre difícil impedir que desordeiros frequentem o bairro. “O espaço é público, não podemos proibir a circulação dessas pessoas”, constata.

 

O que, na verdade, mais preocupa o representante dos comerciantes é o tráfico de droga. “Tem vindo a aumentar o número de indivíduos que, durante o dia, estão nas ruas da Baixa a vender e, de noite, se mudam para as ruas do Bairro Alto”. “Esses indivíduos estão mais que identificados e não percebo como é que a polícia, até com a ajuda da videovigilância, não actua, quando muitas vezes os agentes estão a apenas 50 metros dos indivíduos”, critica.

 

“Que eu saiba, oferecer ou vender droga é ilegal, mesmo que depois se verifique que o que eles têm na sua posse é outra coisa”, afirma Hilário Castro, que se diz preocupado com a “má imagem que isto dá à cidade”. Lamentando o que considera “ser uma sensação de impunidade”, relata: “Os hotéis têm-nos transmitido exactamente isso. Nas recepções, os clientes queixam-se de estarem a ser abordados por pessoas a proporem-lhes vender cocaína e haxixe”.

 

O Corvo questionou por escrito as relações públicas da PSP, há uma semana, sobre os problemas associados à falta de segurança no Bairro Alto, mas não obteve resposta.

 

  • João dos Bosques
    Responder

    RT @tuga_news: [O Corvo] Insegurança e tráfico de droga continuam a marcar o quotidiano do Bairro Alto http://t.co/pZXfVd064L

  • Ricardo Serrao
    Responder

    É “normal”…. A Policia na zona anda mais preocupada em fazer constante vistoria a bares e restauracao, e fiscalizacao de horarios de funcionamento e fecho, durante o tempo que la passa durante a noite… Do que realmente a controlar a criminalidade, que devia ser o seu primeiro objectivo.

    A policia “normal” ou de intervencao estarem aos molhos, dentro de carrinhas e carros, tambem nao ajuda grande coisa ao policiamento da zona.

  • Ricardo Serrao
    Responder

    Ja era tempo era de acabarem com a passagem constante de taxis dentro do bairro alto, em particular em ruas lotadas de gente.

    Para alem de estupido, é totalmente desnecessario e pouco seguro para quem esta na rua.

  • Aqui mora gente
    Responder

    A restrição e uniformização dos horários de funcionamento contribuiria para uma diminuição da densidade dos milhares de frequentadores no espaço público e uma mais efectiva fiscalização dos horários pela polícia, pois os utentes mantêm-se nas ruas enquanto existirem espaços alternativos com horários prolongados.

  • Patricia Telles
    Responder

    🙁

  • saridon
    Responder

    A função da PSP é não fazer nada, MAS, o dinheiro e extras no final de mês. Eu vi há dias um programa da TV Canadiana em que policía actuava e de que maneira – mas , isso dá trabalho – trabalho…não é com gente

  • Nuno Cândido Vieira
    Responder

    Se provas faltassem relativamente à ineficácia de sistemas de vídeo vigilância temos a continuação (ou o aumento) do narcotráfico assim como o vandalismo de alçados e fachadas que continua sem qualquer controlo. A implementação de sistemas de vídeo vigilância tem como principal função servir clientelismos e interesses financeiros na montagem e gestão dos mesmos. Após uma aposta sem paralelo a nível mundial, em Inglaterra começa-se a chegar à conclusão que o crime está aumentar em áreas tele-vigiadas e que não existe nada tão dissuasor e preventivo como a presença policial.

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