A caminhada nocturna entre o Largo Camões e o Saldanha, com a greve do metropolitano a servir de auto-justificação para a jornada, era exercício facilitado pela agradável temperatura outonal. A digestão do bife do jantar na Calçada do Combro ia-se fazendo, sem problemas de maior. À passagem pelo Marquês de Pombal, uma imagem deteve-me. Na verdade, foi mais o confirmar de uma impressão tida na véspera, ao ver uma reportagem televisiva. Na grade junto a uma das entradas do metro, uma tarja preta de material sintético proclamava, em letras brancas: “BLATTER you are offside!…Cristiano Ronaldo/O melhor do mundo.” Tal mensagem ocupava uns três quintos do lado esquerdo do suporte. Do lado direito, percebia-se que a tomada de posição tinha o “apoio” de Rodanov Black. “Licor, Frutos Silvestres e Vodka”, consegue ler-se no que parece ser a reprodução, pelo menos parcial, do rótulo de uma bebida.

Na noite anterior, e também durante grande parte do dia seguinte, os serviços informativos de uma cadeia televisiva davam conta, através de uma reportagem, de “uma acção de protesto levada a cabo por fãs de Cristiano Ronaldo indignados com Josep Blatter”. A já antológica e bem-humorada, se bem que patética, actuação do secretário-geral do órgão máximo do futebol a nível mundial, parodiando as características do jogador português e comparando-as com a alegada excelsa beatitude de Messi, parece ter afectado o sempre susceptível ego nacional. Dos comentadores habituais do meio desportivo ao próprio Governo, foram generalizados a indignação e o amuo face ao comportamento desastrado do peculiar dirigente da FIFA, ante uma incrédula plateia de estudantes da Universidade de Oxford. Todos os portugueses que se prezem sentiram-se na obrigação de manifestar o nojo e o horror ante o patusco ensaio humorístico do suíço.

Por causa disso, um grupo de cidadãos indignados decidiu manifestar ante a sociedade o profundo agravo sentido, colocando as referidas tarjas negras. E fê-lo em diversos pontos da cidade. Na quarta-feira à noite, lá foram eles. Colocaram sete daquelas telas, salvo erro. E para que toda a gente ficasse a saber do seu agastamento, convidaram a televisão. Na reportagem que vi, os organizadores da coisa apareciam com um ar muito sério, dando conta do seu descontentamento com o crime de lesa-portugalidade alegadamente cometido por Blatter.

A caução a essa revolta, materializada na noctívaga acção de protesto, era concedida pela comparência de um “escritor”, um tal Luís Aguiar, do qual confesso desconhecer a obra, mas que se expressava de uma forma deficitariamente literária. O maior sublinhado à gravidade do momento, porém, foi garantido pela presença e palavras não menos indignadas do ex-futebolista Paulo Futre. Num fugaz plano, a mesma peça televisiva mostra uma das tarjas a ser colocada. E só os mais atentos se aperceberiam da publicidade da marca de bebidas alcoólicas nela patente.

Mais do que a pequenez e o patrioteirismo de algibeira da causa, chocou, num primeiro momento, o facto de os jornalistas da televisão que fizeram “o serviço” não se terem apercebido do que estava em causa. Ou, mais grave, não se terem importado. Colaboraram alegremente numa descarada acção promocional de uma marca. Sem a porem em causa. Um grosseiro atropelo aos mais elementares princípios éticos da profissão. Isso é coisa demodé, sabemo-lo bem, mas ainda assim… Depois, ao passar a pé por um dos locais onde a mensagem estava exposta, apercebemo-nos, muito claramente, de uma outra dimensão da questão, não menos nauseante: a utilização do espaço público da cidade para as mais rasteiras campanhas publicitárias. O que uma geração de pretensos geniozinhos “criativos” gosta de ver conhecidas como acções de “marketing de guerrilha”.

Ao observar isto, e depois de tirar a fotografia que acompanha este texto com recurso ao smartphone, continuei a minha caminhada acompanhado pelas luzes da urbe. Mais tarde, sob o ruído automóvel, veio-me ao pensamento aquele grupo de mendigos que costuma estar sentado na Rua do Carmo, mais ou menos por baixo do Elevador de Santa Justa, com um conjunto de cartolinas – uma para cada recipiente – com inscrições solicitando esmola: “Para a bebedeira”, “Para a ressaca”, “Para o tabaco”. Tudo supostamente engraçado. As pessoas, na sua maioria, acham piada, riem, algumas até fotografam. Muitas vezes, ao passar por eles, ocorre-me a miséria mental de um tempo em que até a mendicidade tem de estar sujeita às vulgares leis do marketing e da boa disposição – duas das vacas sagradas do presente. Até a miséria tem de se saber vender. Porque não haveria, então, a “indignação” face ao sucedido com o CR7 de estar sujeita a uma espécie de franchise? Se calhar, deve ser isto a que chamam ser “pró-activo”.

 

Texto e Fotografia: Samuel Alemão

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