A partir de hoje, o diálogo intercultural será mais do que uma mera declaração de boas intenções. No mais internacional e multicultural bairro de Lisboa, haverá anfitriões oriundos do Brasil, Irão, Congo, Bangladesh, Paquistão, Polónia e Ucrânia. Uma colaboração entre a Associação Renovar a Mouraria e o Instituto Marquês de Vale Flôr, que se poderá alargar a outros municípios.

 

Texto: Samuel Alemão e Sandra Isabel Oliveira

 Áudio: Sandra Isabel Oliveira                    Fotografias: Carla Rosado

 

Pode alguém vindo de fora receber os demais forasteiros tão bem como faria qualquer nativo, dando-lhes assim a conhecer a cidade onde escolheu viver? Mais que obter respostas claras, o projecto Migrantour – Rotas Urbanas Interculturais, hoje lançado na Mouraria, pretende encetar o debate em redor da integração dos imigrantes na sociedade e, em especial, ajudar a concretizá-la. A ideia é posta em prática, neste Dia Internacional das Migrações, pela Associação Renovar a Mouraria (ARM) e pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF).

 

Nascido na cidade italiana de Turim, em 2010, por iniciativa do operador de turismo sustentável Viaggi Solidali, o Migrantour é uma rede de guias migrantes “que permite a cidadãos oriundos de países terceiros e da Europa não comunitária mostrarem os bairros onde escolheram viver, tal como eles os vêem, convidando todos os que por lá passam a ver as ruas com novos olhares e a escutar as suas histórias”, dizem os organizadores deste projecto, que agora se alarga a outras nove cidades europeias, entre as quais Lisboa.

 

Estabelecida uma pareceria entre aquele operador turístico transalpino, a fundação de empreendedorismo social ACRA e a Oxfam Itália, filial da rede anti-pobreza Oxfam, a ideia está a ser posta em prática, além da capital portuguesa, também em Nápoles, Roma, Milão, Florença, Génova, Paris, Marselha e Valência. Esta nova fase é cofinanciada pela União Europeia e “tem como grandes objetivos formar 20 novos guias locais em cada uma destas cidades, criar pelo menos dois percursos em cada uma delas, sendo que serão também criados percursos e módulos específicos para o público escolar em torno de questões da educação para o desenvolvimento”.

 

No caso de Lisboa, a acção centra-se no bairro da Mouraria, onde existe uma forte presença das comunidades imigrantes e que atravessa um profundo processo de regeneração urbana e social, nos últimos cinco anos. O primeiro módulo de formação para guias locais decorreu em Maio e Junho deste ano e teve formandos de várias nacionalidades: Brasil, Irão, Congo, Bangladesh, Paquistão, Polónia e Ucrânia. “O projecto proporciona a interculturalidade”, afirma Filipa Bolotinha, da direcção da ARM.

 

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A primeira vez que estes novos guias tiveram oportunidade de praticar o que aprenderam foi aquando da oitava edição do Festival ImigrArte, que decorreu a 15 e 16 de Novembro passado, no Ateneu Comercial de Lisboa. Foram criados dois percursos para estas Rotas Urbanas Interculturais, ambos centrados no mesmo bairro: “Há Mundos na Mouraria” e “Da Mouraria para o Mundo”. Ao longo deles, os visitantes ficarão a conhecer locais de culto, lojas, restaurantes, ingredientes, usos e costumes, estórias e “tantas outras coisas dos quatro cantos do mundo”.

 

Durante o lançamento de hoje, a acontecer na Mouradia – Casa Comunitária da Mouraria, localizada no Beco do Rosendo, a partir das 14h45, será testado um percurso guiado por alguns dos novos guias da Mouraria para um grupo de convidados “constituído por figuras representantes de entidades de relevo nas temáticas abrangidas pelo projeto”. O segundo módulo de formação, para o qual estarão a ser recrutados novos formandos, decorrerá em Janeiro de 2015.

 

Dia 20 de Dezembro, sábado, terá lugar uma nova visita “Há Mundos na Mouraria”, desta vez destinada ao público em geral e de frequência gratuita. Terá início às 15h00 na Praça de São Domingos.

 

Além das duas rotas turísticas já ultimadas, está ainda em desenvolvimento uma terceira que se centrará nos serviços à comunidade migrante. Através dela, os guias formados pelo projecto serão capacitados para ajudar os imigrantes a encontrarem e saberem utilizar os serviços públicos, tais como médicos, advogados, finanças, segurança social e escolas. Esta rota estará em funcionamento até Julho 2015.

 

Paralelamente a este trio de rotas da responsabilidade da ARM, haverá ainda uma outra, tutelada pelo Instituto Marquês de Valle Flôr e destinada às escolas do bairro. Os alunos e os professores das escolas da Mouraria vão fazer um percurso que será adaptado tanto na duração como no conteúdo. Este trabalho está a ser desenvolvido pelo instituto, com base nas rotas criadas pela ARM, diz ao Corvo Ana Castanheira, coordenadora de projectos de educação para a cidadania global do IMVF.

 

Ouça aqui a reportagem áudio sobre estes tours. Depoimentos do formador José Miranda, dos guias Moin (Bangladesh) e Lumbala (Congo) e de Nuno Franco, primeiro guia da Mouraria.

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