Idosos pressionados a abandonar andares na Baixa para dar lugar a hotéis

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Samuel Alemão

Texto

Carla Rosado

Fotografia

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

14 Outubro, 2014


“Muitos senhorios fazem chantagem com as pessoas, dizendo-lhes que têm que sair”, denuncia dirigente da Associação Mais Proximidade, Melhor Vida, que luta contra o isolamento dos mais velhos daquela zona da cidade. A abertura de novos hotéis nos edifícios pombalinos é mais rentável do que ter lá gente comum a viver.

São dois mundos em conflito. Por causa do crescimento meteórico da actividade turística, os idosos que ainda moram em andares da Baixa lisboeta estão a sentir uma pressão cada vez maior por parte dos seus senhorios para saírem, a fim de se poder converter os velhos prédios em unidades hoteleiras. Ocupantes destes imóveis há muitas décadas, e tendo assistido ao longo processo de decadência comercial e populacional desta área, vêem-se agora cercados pelo fulgor do “empreendedorismo turístico” que está a transformar a malha urbana do coração da cidade de forma muito rápida – e com o beneplácito dos poderes públicos.

“Há uma grande violência a ser exercida sobre estas pessoas, que estão muito abandonadas à sua sorte. E não se trata apenas de violência doméstica, física, mas sobretudo a outro nível, mais psicológico, sentido dentro entre portas”, diz Maria de Lourdes Pereira Miguel, responsável pela Mais Proximidade, Melhor Vida, projecto de apoio aos idosos, nascido em 2006, no seio do Centro Social Paroquial de São Nicolau, e que hoje formaliza a sua conversão numa associação. Trabalhando para combater o impacto da solidão dessa população residente nas antigas freguesias de São Nicolau, São Cristóvão e São Lourenço, acompanha cerca de 140 indivíduos, sobretudo mulheres.

A responsável pela Mais Proximidade, Melhor Vida – entidade que se afirma como um “grupo de católicos comprometidos com a sociedade civil” – fala no sentimento de aumento do cerco destes idosos, a maioria a viver sozinho, por parte do poder económico associado ao imobiliário e ao turismo. “Muitos dos novos senhorios fazem chantagem com as pessoas, dizendo-lhes que têm que sair num determinado período ou fazendo-os sentir desconfortáveis nesses prédios”, explica Maria de Lourdes Miguel, dizendo que tem conhecimento de dois casos concretos, ocorridos nos últimos tempos.

A situação tem sido gradualmente denunciada, tanto pelos elementos do projecto agora tornado associação, bem como por outros activistas urbanos. A perspectiva de um grande retorno económico faz com que os senhorios dos prédios vejam os velhos ocupantes como empecilhos à sua desocupação e consequente entrada em funcionamento como unidade hoteleira. “O pior, muitas vezes, até são os familiares dos idosos, que, quando lhes acenam com dinheiro, não se importam de os transferir para lares de idosos”, diz ao Corvo uma pessoa conhecedora das realidades sociais daquele território, mas que prefere manter o anonimato.

É neste cenário que trabalham várias entidades públicas e privadas, com o intuito de minimizar o isolamento de um estrato da população particularmente vulnerável. É o caso da Associação Mais Proximidade, Melhor Vida, que agora se autonomiza do centro paroquial onde nasceu, e que está a alargar as suas actividades de acompanhamento dos idosos em toda da nova freguesia de Santa Maria Maior. A associação, que tem cinco funcionários e 40 voluntários, é financiada por mecenas como as fundações Montepio, Portugal Telecom e Gulbenkian e pelo grupo Jerónimo Martins.

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