Ao começo da tarde de quarta-feira, Nelson Arraiolos, 41 anos, desempregado, teve o que queria. Ou até talvez um pouco mais. Ele, um dos pobres nascidos da crise, propunha-se levar um quilo de arroz de um supermercado do homem mais rico do país. Sem pagar. Para denunciar “a pobreza extrema a que se chegou em Portugal”, segundo diz.

E ao meio-dia, ainda ele não entrara no Pingo Doce da Rua 1º de Dezembro, já tinha à sua volta quase uma dezena de fotógrafos. Mais que os apoiantes. “Faço isto por uma maior abertura para o caso das pessoas que ficaram sem quaisquer rendimentos”, disse, momentos antes de entrar para atacar o arroz.

Nelson trabalhava num “call center”, mas ficou desempregado, há mais de dois anos. Os cerca de 400 euros de subsídio de desemprego não lhe davam para manter o apartamento e a vida em Lisboa e mudou-se para casa dos pais, reformados, no Bombarral. “Como não tenho casa própria não tenho direito a subsídio, não recebo nada. As pessoas como nós quase que estamos em prisão domiciliária. Mesmo para procurar emprego é preciso algum dinheiro….”

Foi certamente a pensar nisso que, no mês passado, usou o autocarro da Carris da carreira 794, Estação do Oriente-Terreiro do Paço, sem pagar bilhete. Nelson, aliás, tornou-se minimamente famoso quando em Setembro foi ao Palácio de Belém entregar ao Presidente da República um comunicado informando-o que não pagava mais impostos. Estendeu a informação à ministra das Finanças e à Repartição de Finanças do Bombarral, invocando o direito de resistência previsto no Artigo 21º da Constituição – Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.”

Nelson lembrou-se do arroz de Soares dos Santos para protestar contra o desperdício e a pobreza extrema, pois – afirma – “já há pessoas a ir ao lixo para comer”. “É preciso dizer às pessoas que olhem para isto. E dizer ao Governo que pare este massacre”. “Que venham mais pessoas a este tipo de acções” é outro dos votos que fez.

Com um passo titubeante mas convicto – Nelson Arraiolos sofre de uma rara doença degenerativa do sistema nervoso periférico –, percorreu o supermercado em direcção à zona dos arrozes. Mas tinha à espera representantes da empresa e o chefe da loja. Apresentando-se como representante do Pingo Doce, Paulo Fernandes disse entender o protesto do desempregado e garantiu que podia levar o pacote de arroz sem pagar. Mas propôs-lhe antes um cabaz de Natal de onde sobressaia um bolo rei. E com arroz. Nelson aceitou e disse agradecer a ideia. O cabaz, prometeu, seria entregue a alguém que precisa mais do que ele.

Estas acções simbólicas não deverão ficar por aqui. Nelson admite mesmo apelar, um dia, ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem para fazer valer os seus ideais.

 
Texto: Francisco Neves            Fotografia: David Clifford

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