Lisboetas com saudades da terra fazem gosto ao dedo no parque hortícola da cidade. Mas a crise fá-los recear pela produção, pois as batatas e as couves começam a desaparecer.

Texto e fotografias: Mário de Carvalho

“A terra é ruim. É dura até dizer chega!”, desabafa José Nunes, enquanto a vai amanhando para semear cebolinho na sua horta urbana, na Quinta da Granja, frente ao Centro Comercial Colombo. Os cerca de 150 metros quadrados de terra são parte dum conjunto de 38 talhões inaugurados, a 29 de Outubro de 2011, pela Câmara Municipal de Lisboa para fomentar a cultura de produtos hortícolas.

João Domingos, que partilha o mesmo talhão de José Nunes, explica porque decidiram candidatar-se ao concurso para o primeiro parque hortícola da capital: “Gostamos da terra. Fomos criados numa zona agrícola e gostamos disto! Ao mesmo tempo, também dá jeito, mas agora andamos um pouco preocupados com os larápios”.

Domingos refere-se a casos, ainda que pontuais, do roubo de alguns produtos hortícolas e tem a sua versão para a situação: “Eles não destroem. Apanham couves, batatas ou cebolas. Dá para perceber que é gente que deve estar a passar mal, mas não é por isso que deixam de ser ladrões”.

Neste espaço, as hortas têm todas casas para guardar as alfaias e água para a rega. A variedade de hortícolas é grande – são os brócolos, os nabos, os alhos, as alfaces, as couves, os tomates, as cebolas ou as batatas.

Revelando conhecimento das práticas agrícolas, João e José, naturais da Sertã, distrito de Castelo Branco, mostram a sua cultura de almeirão, um produto ainda pouco divulgado. Parecido com a alface, este legume adapta-se à presente época, pois é resistente às baixas temperaturas e é presença “muito boa nas saladas, rica em proteínas”. O consumo de almeirão, de sabor amargo, poderá auxiliar na redução do colesterol.

João Domingos afirma que só trabalham na horta nos dias de folga. “Mas compensa, pois tiramos daqui produtos para as nossas famílias e, às vezes, damos a alguns amigos. Isto está bera e é preciso aproveitar as oportunidades”, diz.

Apesar da falta de qualidade da terra, não estão preocupados. “Vamos a Monsanto apanhar caruma para espalhar na horta. Não gastamos praticamente dinheiro nenhum, as sementes são baratas e pagamos anualmente à Câmara cerca de 60 euros, com água incluída”, explica José Nunes. Só é necessário “vontade e dedicação”.

A principal preocupação entre os hortelões está no crescente aumento do roubo dos produtos. “Eles saltam as vedações e levam batatas ou couves”, conta igualmente Francisco Carvalho, de 78 anos, que tem a sua horta na zona baixa da Quinta de Granja. “Aqui a gente tem de ir buscar a água, muitas vezes com baldes, à quinta”.

“Os roubos não são para destruir as culturas, mas para levar os produtos para confeccionar”, esclarece Francisco Carvalho que, resignado, distingue estes furtos dos praticados pelo ocioso que arromba as portas de algumas casas de arrumos para roubar ferramentas e produtos hortícolas.

O primeiro parque hortícola da capital, que fez agora dois anos, foi desenhado de forma a permitir visitas através dos seus caminhos pedonais. “Algumas pessoas vêm para aqui passear e, às vezes, querem comprar cebolas, alfaces ou couves, mas nós não vendemos. Achamos graça, é sinal que os nossos produtos são vistosos. Quando temos muito até oferecemos”, observa José Nunes, adiantando que tudo na sua horta é aproveitado: “Quando alguma coisa se estraga, vai para as galinhas e os coelhos que temos”.

A integração das hortas urbanas como parte da vida de cidade de Lisboa é uma aposta que tem vindo a ser consolidada com a existência de oito parques hortícolas situados nas zonas de Campolide, Telheiras, Chelas, Olivais, Graça, Quinta da Granja, Quinta de Nossa Senhora da Paz e Quinta Bensaúde.

O projeto, que passa pela aplicação de boas práticas agrícolas, prevê a criação, até 2014, de mais seis novos parques hortícolas: Vale de Ameixoeira, Quinta Conde D’Arcos, Rio Seco, Quinta da Bela, Casalinho da Ajuda e Boavista.

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