“A Encomenda Prodigiosa” é o título da exposição que hoje inaugura em Lisboa e que transporta o visitante para uma época de apogeu e de tragédia, o reinado de D. João V, quando na cidade se erguia uma réplica do Vaticano, destruído pelo terramoto de 1755.

 

Texto: Isabel Braga  

Imagens: Miguel Tibério Pedegache Brandão Ivo (1) e Luigi Vanvitteli (2)

 

É no Museu Nacional de Arte Antiga que abre hoje ao público o primeiro núcleo da exposição “A Encomenda Prodigiosa”, que dará a conhecer um sonho megalómano de D. João V, o rei que queria afirmar-se politicamente através da Igreja, quando Roma era o grande centro da diplomacia internacional.

 
O monarca português, cuja corte beneficiava de excepcional desafogo financeiro, graças ao ouro do Brasil, conseguira, em 1716, a elevação da Capela Real a Basílica Patriarcal, com prerrogativas quase pontifícias.

 
Sob a orientação de João Frederico Ludovice, o arquitecto e ourives alemão ao serviço do rei, inicia-se a transformação da capela adjacente ao Paço da Ribeira em Sé Patriarcal, uma das mais magníficas igrejas de então, réplica miniatural do Vaticano, cujo esplendor era alimentado por constantes encomendas a artistas estrangeiros, sobretudo romanos, uma vez que Roma era o mais conceituado centro de produção artística da Europa.

 
“A Sé Patriarcal era um monumento de enorme riqueza, uma apoteose do barroco”, sublinha Teresa Morna, a directora do Museu de São Roque, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, onde, no dia 27, irá abrir o segundo núcleo de “A Encomenda Prodigiosa”.

 
É que, se o terramoto de 1755 destruiu a Sé Patriarcal, deixou de pé uma extensão do monumento, a Capela de São João Baptista, uma das quatro existentes no interior da Igreja de São Roque (adjacente à qual funciona o museu do mesmo nome).

 
Há que acrescentar que a Igreja de São Roque, uma das primeiras igrejas jesuítas em todo o mundo e a primeira da Companhia de Jesus em Portugal, foi um dos raros edifícios de Lisboa a resistir ao terramoto de 1755. Na sequência do sismo, tanto a igreja como a residência auxiliar foram cedidas à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cujo património ficara destruído, e ainda hoje se mantêm na sua posse.

 
A Capela de São João Baptista foi encomendada pelo rei em 1742 a Nicola Salvi – o arquitecto que desenhou a Fontana di Trevi, em Roma -,  e a Luigi Vanvitelli  -, arquitecto oficial do Papa Clemente XII, então em funções – e é uma versão resumida da Sé Patriarcal que, por sua vez, era a versão resumida do Vaticano. Construída e montada em Roma,  foi benzida pelo Papa antes de ser transportada para Lisboa em três barcos, numa mega operação inédita na época.

 
A capela ficou assente em 1749 e é uma obra-prima da arte italiana, construída com recurso a 24 variedades de mármore, incluindo lápis lazúli e apresentando mosaicos vítreos da autoria de Moretti, sobre cartões de Masucci, representando o baptismo de Cristo (no painel central, daí o nome da capela), o Pentecostes e a Anunciação. Os lampadários são extraordinárias peças de ourivesaria e os paramentos feitos para uso exclusivo da capela.

 
“A Capela de São João Baptista permite ver o que eram as encomendas do rei D. João V, que tinha uma obsessão de demonstração de poder. Luís XIV era um dos seus modelos, o outro era o Papa, ele queria afirmar-se através da Igreja. Levou Portugal a participar na Batalha de Matapão, contra os turcos, e na sequência disso passou a ser designado por ‘majestade fidelíssima’.  Conseguiu que, pela primeira vez, o Papa nomeasse para Lisboa um cardeal patriarca, que ele queria que fosse uma espécie de papa, com prorrogativas especiais e autonomia em relação a Roma”, afirma Teresa Morna. Junto ao altar-mor da Igreja de São Roque pode, aliás, ver-se o túmulo desse primeiro Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida.

 
A Sé Patriarcal formava, com a Capela de São João Baptista, um conjunto único, a encomenda prodigiosa evocada na exposição que hoje inaugura o seu primeiro núcleo, no Museu de Arte Antiga, seguindo-se, no próximo dia 27, a abertura do segundo núcleo, no Museu de S. Roque.

 
O núcleo exposto no Museu Nacional de Arte Antiga terá por tema a destruída Patriarcal e o seu património artístico, bem como o seu significado político e simbólico. Lá poderá ver-se o grande projecto do Palácio-convento de Mafra, intimamente articulado com os projectos desenvolvidos para a Patriarcal, bem como o debate artístico entre Lisboa e Roma, cujo resultado é a Capela de São João Baptista.

 
No Museu de Arte Antiga, estarão expostas 200 obras, provenientes da colecção do museu, de três dezenas de instituições nacionais de colecções particulares e de várias instituições internacionais, como o Museu di San Martino, de Nápoles, Reggia de Caserta, Biblioteca Nacional e Universitária de Turim e Museu de Belas Artes de Budapeste. Pela primeira vez em Portugal,  podem ver-se os projectos de Luigi Vanvitelli para o Palácio Real da Ribeira ( 1717) e de Fillipo Juvarra para um Farol e para o Palácio Patriarcal de Lisboa (1719), além do projecto original de Salvi e Vanvitelli para a Capela de São João Baptista.

 

planta

Capela de São João Baptista para a Igreja de São Roque – cortes longitudinal e transversal.

 
O segundo polo de “A Encomenda Prodigiosa”, a inaugurar no dia 27 no Museu de São Roque, terá, então, por cenário a própria Igreja de São Roque, e nele será evocado o programa de restauro da Capela de São João Baptista, realizado em 2011/2012 pelo Laboratório do Instituto José de Figueiredo.

 
Poderá ver-se o extraordinário  conjunto de alfaias religiosas pertencentes à igreja. Entre as obras expostas, encontra-se a Custódia da Sé de Lisboa, do ourives Joaquim Caetano de Carvalho, uma das peças mais notáveis da ourivesaria portuguesa de influência italiana, desenhada a partir da custódia da Capela de São João Baptista. Uma curiosidade: é a primeira vez que esta custódia, elemento chave do tesouro da Sé de Lisboa, sai deste templo.

 

O pólo do Museu de S. Roque incluirá um ponto multimédia com a apresentação, pela primeira vez, de um conjunto de desenhos do Álbum Weale, pertencente à Biblioteca da Escola Superior de Belas Artes de Paris. Entre esses desenhos contam-se os modelos para a desaparecida custódia em ouro da Capela de São João Baptista e os modelos para os painéis em mosaico, além dos estudos preparatórios para as composições em mosaico de Agostino Masucci, provenientes do Museu Nacional de Belas Artes de Budapeste e da Fundação Aldega em Itália.

 
O Álbum Weale tem uma história curiosa que vale a pena contar: foi organizado por Manuel Pereira de Sampaio, encarregado de negócios português em Roma e coordenador das encomendas de D. João V com destino à Sé Patriarcal e à Capela Real de São João Baptista.

 
“Pereira de Sampaio tratava dos negócios de D. João V em Roma e tal era o descontrolo de dinheiro que ele decidiu pedir os desenhos de todas as encomendas. Foi uma tentativa de controlar os gastos”, explicou a O Corvo a directora do Museu de São Roque, Teresa Morna.

 
O álbum teve uma história acidentada, desde o Paço da Ribeira, donde saiu, juntamente com a biblioteca e os arquivos, a caminho do Brasil, acompanhando a família real. Em 1840, apareceu no mercado antiquário londrino, como pertencendo a John Weale, um conhecido editor de arte. Fascinado pela beleza dos desenhos, deu-os a conhecer pela primeira vez, publicando parcialmente o álbum entre 1843 e 1845, o que facilitou o seu reconhecimento pelos historiadores. Em finais do século XIX, a obra foi doada à Escola Superior de Belas-Artes de Paris, instituição à qual ainda pertence.

 
O duplo programa da Sé Patriarcal e da Capela de São João Baptista marcaram profundamente o ambiente artístico nacional, daí a importância de “A Encomenda Prodigiosa”, que tem como comissários científicos António Filipe Pimentel e Teresa Leonor Vale.

 
“A Encomenda Prodigiosa” poderá ser uma exposição algo erudita, já que exige algum esforço de compreensão por parte do público, mas ajudará, sem dúvida, a conhecer melhor a história de Lisboa e do país.

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