Há uma ciclovia por inaugurar em Braço de Prata e ciclistas a circular ao lado de camiões carregados de contentores

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Samuel Alemão

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Marvila

3 Setembro, 2018

Quem anda de bicicleta pela zona ribeirinha entre a Baixa e o Parque das Nações tem-se deparado, nos últimos meses, com um cenário algo inusitado. Ao chegar à rotunda da Praça 25 de Abril, através da ciclovia paralela à Avenida Infante Dom Henrique que começa junto à Estação de Santa Apolónia, tem de abrandar e tomar uma decisão. Ou volta para trás ou aventura-se a partilhar, durante cerca de quilómetro e meio de um percurso tortuoso, a via com o restante trânsito automóvel, entre o qual pontifica uma quantidade enorme de camiões que chegam ou partem do Porto de Lisboa. A zona tem estado sujeita, nos últimos dois anos, a obras de construção do complexo imobiliário Jardins de Prata, desenhado pelo arquitecto Renzo Piano, e há várias semanas que é possível observar uma nova ciclovia por trás do gradeamentos do reformulado espaço público. Mas esta não pode ainda ser utilizada.

A solução passa por encetar um trajecto pela via rodoviária, através do troço final da Avenida Infante Dom Henrique, virar à direita pela Rua Fernando Palha, descer pelas ruas 2 e 3 da Matinha e continuar depois pela Rua Cintura do Porto de Lisboa, até ao Parque das Nações. Um percurso sinuoso, através de uma zona de armazéns e com o piso em mau estado, e partilhado por intenso tráfego, especialmente veículos pesados. Outros ciclistas escolhem diferentes atalhos. Há, por isso, quem tema pela segurança dos utilizadores de bicicletas, os quais, até ao início do verão, e apesar dos trabalhos em curso naquela zona da cidade, podiam utilizar uma passagem ciclo-pedonal em terra batida junto ao Tejo – permitindo-lhes alcançar assim a “zona da Expo”. Tal possibilidade deixou de existir a partir do momento em que, há cerca de dois meses, se iniciaram os trabalhos de requalificação do espaço público junto ao rio. O projecto inclui a construção de uma muito ansiada ciclovia. Ela está pronta, tal como as suas sinalizações horizontal e vertical. Não se sabe ainda é quando abrirá.

Quem chega, por isso, à reformulada Praça 25 de Abril – outrora também conhecida como “rotunda da Matinha” -, tem de se preparar para uma improvável gincana velocipédica. “Como isto está, há, de facto, uma grande dificuldade de acesso ao Parque das Nações. Não existe sequer sinalização. Temos que ir improvisando o percurso”, dizia o ciclista Nuno Lobo, 35 anos, ao final da manhã da última quinta-feira (30 de Agosto), junto à rotunda, onde O Corvo interpelou vários utilizadores de bicicleta, questionando-os sobre as dificuldades de circulação naquela área.


 

Nuno costuma fazer por lazer, duas vezes por semana, o circuito entre Belém e a extremidade oriental da capital e reconhece o desconforto causado pelo fim abrupto da via ciclável antes ali existente. Ao mesmo tempo, por razões óbvias, anseia pela abertura da nova ciclovia. Sentimento idêntico ao de Pedro Mascarenhas, 40 anos, que desde Junho passado se desloca numa bicicleta partilhada Gira (da EMEL), entre o Martim Moniz e o trabalho no Parque das Nações. “Acredito que, quando abrir, a nova ciclovia será óptima. Como está, ao nível da segurança, não é muito agradável”, diz.

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Apesar de a ciclovia estar pronta há semanas, os ciclistas são obrigados a um caminho tortuoso junto dos camiões

Há, contudo, quem pareça não ficar muito incomodado com a supressão, ainda que temporária, da ligação ciclável. É o caso de José Adão, 49 anos, que atravessa aquela zona entre três a quatro vezes por semana, a correr ou de bicicleta. “Não me incomoda nada nada esta situação. Utilizo a faixa BUS e sinto-me seguro assim”, afirma. Também António Fernandes, 73, de regresso às voltas de bicicleta após ter sofrido um acidente vascular-cerebral, se diz não muito preocupado com o actual cenário – isto apesar de, enquanto fala com O Corvo, ter camiões carregados de contentores a fazerem-lhe tangentes a cada meio-minuto. Menos condescendente, Tiago Poço, 39, também ele com dupla condição de ciclista e de corredor, queixa-se das enormes dificuldades que tem ao cruzar aquela área em bicicleta. Costuma vir de Alcântara até a casa de uma amiga, ali em Braço de Prata, e lamenta “a confusão” criada para quem tem de pedalar. Mas, sobretudo, não esquece o perigo pressentido ao partilhar a via com camiões de contentores. Um risco enorme, concede.

 

A mesma opinião tem Jorge Lopes, ciclista e gerente da Bikeiberia, empresa que organiza passeios de bicicleta, de cujos clientes tem recebido queixas. “Os holandeses e dinamarqueses ficaram indignados. Como é que a ciclovia estava cortada e com vedação metálica, deixando-os sem opção?”, interroga, referindo que houve mesmo um cliente, emigrante português em França, que se queixou formalmente. Razão pela qual decidiu alertar, a meio de Agosto, a Câmara Municipal de Lisboa (CML). “Até ao momento, felizmente, não houve nenhum acidente. Mas o perigo está lá. É grande. Porquê empurrar os peões e os ciclistas para a estrada cheia de camiões e trânsito automóvel intenso? Porquê cortar uma via pública de acesso a ciclistas e peões?”, questiona o empresário, dizendo-se especialmente sensibilizado para o potencial risco criado a “utilizadores menos experientes e vulneráveis, como as crianças”. “Trata-se de uma questão de princípio. Não podemos estar a falar em mobilidade suave e, depois, fazer uma coisa destas”, critica.

 




 

Jorge Lopes diz que tomou conhecimento da situação que agora denuncia através de alguns dos clientes, que lhe perguntavam como se podia chegar à zona da Expo. “É muito simples, é só virar na direcção do rio”, respondia-lhes o empresário. Conhecedor do trajecto, achava estranha tais interrogações por parte dos estrangeiros que alugam as suas bicicletas – até porque, em Maio ou Junho, tinha ali passado com a família e seguiu, como todos os outros, pelo descampado então existente junto ao rio. “Não tinha ciclovia, mas também não tinha camiões nem carros”, explica. Ante a recorrente inquirição dos utilizadores das suas bicicletas sobre a interrupção do percurso dedicado, o gerente da Bikeiberia decidiu ir ao local averiguar. E não gostou do que viu. O antigo acesso estava vedado. “Sou um ciclista experimentado, não tenho problemas em andar na estrada. Mas um pai ou uma mãe que vão pela ciclovia com os filhos e, ao chegarem aquele ponto, têm depois de passar para o alcatrão, não faz sentido…”, comenta.

 

Surpreendeu-o, por isso, que ninguém se mobilizasse para denunciar a situação. “Se fosse um acesso automóvel cortado, ai meu Deus!”, ironiza. Como não obteve resposta atempada da Câmara de Lisboa, Jorge voltou a insistir com os serviços da autarquia, na semana passada, mas alargou o leque de destinatários do seu protesto. Desta vez, incluiu o atelier de Renzo Piano, arquitecto responsável pelo grande projecto de renovação urbana em curso naquele zona da cidade, e promovido pela Lisfundo-Norfin. O seu relato da situação resultou num apelo do gabinete do projectista italiano para que o promotor português pressionasse a Câmara de Lisboa a resolver a situação.

 

 

O Corvo contactou a Câmara de Lisboa para tentar saber a data da abertura da ciclovia, mas não obteve resposta até ao momento da publicação deste artigo.

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