Há sinais de vida nova em Benfica, local familiar que ambiciona ser o “bairro comercial de Lisboa”

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Benfica

21 Maio, 2018

Numa das freguesias mais movimentadas de Lisboa, há cada vez mais lojas novas e casais jovens. Uma comerciante instalada nesta parte da cidade há um ano diz ver mais gente na rua porque “as pessoas estão cansadas de centros comerciais”. Os novos habitantes dizem encontrar aqui rendas a valores “decentes”, numa altura em que os preços dos imóveis disparam. “Benfica tem aquele cheiro a bairro tão necessário para a constituição de uma família. Aflige-me a despersonalização de zonas que estão a ficar muito turísticas”, observa um morador. Um barbeiro de 72 anos optou por se instalar no bairro após ser despejado da sua loja, nos Anjos. Os comerciantes das lojas mais antigas resistem e dizem estar para durar. “Uma capacidade de adaptação” elogiada pela junta de freguesia. Com a renovação do mercado municipal prevista para breve, a autarquia acredita que Benfica passará a ser o “verdadeiro bairro comercial de Lisboa”.

“As minhas clientes dizem sempre que estão com pressa, mas querem é ir para a esplanada”, conta, entre risos, Maria Silva, cabeleireira na Estrada de Benfica, há sete anos. E basta ir até ao largo da Igreja de Benfica, o coração deste bairro, para o confirmar. Na pastelaria Nilo, com mais de cinquenta anos, já pela manhã é difícil arranjar-se lugar. Ao contrário de outras freguesias de Lisboa que, nos últimos anos, foram perdendo habitantes, em Benfica a realidade afigura-se bem diferente. Em cada esquina, banco de rua ou à saída de cafés e quiosques, vêem-se aglomerados de gente a sussurrar as novidades. As esplanadas dos vários cafés e as paragens de autocarro estão completamente cheias. Na Avenida Gomes Pereira, uma parte da freguesia que há cinco anos estava despida de vida, há uma nova comunidade de comerciantes. Os mais novos convivem com os mais velhos, que não só não sentem o seu negócio ameaçado, como dizem estar de “boa saúde” e para durar.

“Benfica é a minha grande paixão, sou muito feliz por viver aqui. Meter-me em casa é caminhar para o cemitério”, diz Natália Figueiredo, a trabalhar na drogaria Império com o marido, Fernando Figueiredo, há 56 anos. Quem a ouve não diz que tem 82 anos, tal é a genica com que atende os clientes e limpa o pó dos artigos empilhados em prateleiras de madeira antigas. O casal reside a poucos metros da loja e ainda não tem vontade de parar. “Andei com crianças ao colo que hoje são avós, somos muito acarinhados”, conta Fernando Figueiredo, 81 anos, enquanto explica a uma cliente como utilizar um produto de limpeza de móveis vendido avulso. Ao contrário das grandes superfícies comerciais, dali ninguém sai com dúvidas nem volta com reclamações.

 

Há cinquenta anos, diz quem assistiu à transformação do bairro, só existiam tabernas e uma padaria. Mais tarde, o comércio foi dominando um dos limites do concelho de Lisboa, delimitado pelas históricas Portas de Benfica. O segredo para a movimentação das principais ruas da freguesia, explicam os moradores, é a diversidade da oferta comercial e o espírito de familiaridade que caracteriza as relações humanas de quem lá vive.

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Fernando Figueiredo, há 56 anos atrás do balcão da drogaria Império

“É a malta da conversa, só vêm cá para falar”, conta Armando Reis, apontando para os clientes acabados de entrar na loja de mobiliário e colchões, situada na Estrada de Benfica. Começou a trabalhar na Vidreira Central de Benfica há 48 anos e hoje, com 72 anos, ainda faz móveis à medida. “Benfica é um dos bairros com mais movimento que conheço. Na zona da Baixa, há uma invasão de chineses e indianos e há ruas que já não têm lojas portuguesas, nem pessoas. Aqui, não temos esse problema”, diz, ao mesmo tempo que faz uma estante para uma cozinha.

 

Ao percorrer a Estrada de Benfica, vamos tropeçando por várias mercearias, mas nenhuma tão antiga como a de Júlio Vilela, 86 anos. Acorda, todos os dias, às 4h30 da manhã, para comprar legumes frescos e fruta. E é esta forma de trabalhar, a mesma de há 55 anos, que ainda atrai muita gente à sua pequena loja. “Há muitas pessoas a virem porque já me conhecem. Agora, já fico cá até morrer, gosto muito do que faço”, diz Júlio Vilela. José Costa, 78 anos, barbeiro, instalou-se em frente à Igreja de Benfica há cerca de um ano. Foi despejado do prédio onde trabalhava, nos Anjos, e viu em Benfica uma oportunidade para continuar o negócio.  “Correram connosco para construírem um hostel, foi aqui que arranjamos uma renda mais acessível e ainda há clientes”, explica.

 

 

Enquanto que noutras zonas da cidade o número de lojas encerradas continua a aumentar, em Benfica ninguém parece estar com ideias de fechar portas, como é o caso da Retrosaria Amizade. “Não perdemos clientes porque, além dos habituais, ganhamos novos. Há muitos casais jovens a comprarem casa, porque nesta freguesia há tudo e as rendas ainda são razoáveis. Ainda vamos durar”, explica Helena Anjos, funcionária da retrosaria ali instalada há 60 anos.


 

João Santos, 31 anos, é um desses rostos do rejuvenescimento do bairro, para o qual se mudou recentemente. Benfica não foi a sua primeira escolha para viver, mas, juntamente com a namorada, viu na zona “uma boa oportunidade” em termos financeiros. “Hoje em dia, mais do que o sítio, é importante conseguirmos encontrar uma casa a um valor decente”, explica. À semelhança de outros moradores, elogia a convergência de infraestruturas básicas do dia-a-dia. “Além do comércio, há uma horta e um jardim a poucos metros de minha casa. É uma freguesia com uma história riquíssima e tem aquele cheiro a bairro tão necessário para a constituição de uma família. Aflige-me a despersonalização de zonas que estão a ficar muito turísticas”, observa.

 

Enquanto nas lojas junto à Igreja de Benfica há laços de amizade com dezenas de anos, quase a chegar à Avenida do Uruguai está a surgir uma comunidade de comerciantes mais jovens. A decoração vintage destas lojas, com montras não convencionais, faz-nos perceber que estamos a entrar noutra parte daquele bairro. Joana Inácio, proprietária de uma loja de roupa para mulher, é a inquilina mais recente. Vende peças únicas, cada uma com pouco mais de vinte exemplares. Decidiu apostar naquela zona da cidade por ser uma das mais populosas. Como algumas lojistas daquela rua, acredita que a convivência de montras convencionais e um pouco mais irreverentes, acabam por atrair um maior número de pessoas à freguesia.

 

 

Isabel Duarte, outra vendedora de peças de roupa singulares, sente que as pessoas estão a voltar-se mais para o comércio de rua. “No último ano, vejo ainda mais gente na rua. As clientes dizem-me que preferem vir aqui porque estão cansadas do centro comercial e temos montras mais apelativas”, explica a dona do pronto a vestir, ali instalado há dois anos. “Esta rua já foi ao chão, mas reergueu-se. Os comerciantes também se ajudam, ao falarem das lojas uns dos outros”, explica.

 

No início da Avenida do Uruguai, há quatro anos surgiu uma loja de malas, por iniciativa do lojista mais novo do bairro, Jorge Rosa. Tem 22 anos e decidiu abrir um negócio em Benfica pelo valor das rendas. “Com uma renda de mil euros, ainda se tenta abrir uma loja. Gostava mais de trabalhar na Rua Augusta, na Baixa, mas foi mais seguro arriscar aqui”, explica, mostrando-se satisfeito pela decisão. “Sentimos que há uma estabilidade nas vendas. Como há muitos idosos, acabam por vir às nossas lojas para não terem de se deslocar muito e porque as grandes superfícies são mais desgastantes”, explica.

 

É na Avenida Gomes Pereira, contudo, onde se sentem mais as mudanças da freguesia. Nesta alameda, com cerca de cem metros de extensão, há um café especializado em chocolates frescos e que vende chás importados de Inglaterra, uma loja de gelados vegan, uma barbearia com uma mota retro à entrada e a hamburgueria que colocou o bolo do caco – tradicional da ilha da Madeira – na moda. “Agora, o bolo de caco está mais na moda, mas, quando surgirmos, não havia praticamente nada. Dinamizamos muito a rua”, explica Diogo Duarte, funcionário deste espaço de restauração.

 

Em Benfica, não faltam opções de barbearias, mas nenhuma é igual à Barbearia Fonseca, instalada há um ano nesta rua. Logo à entrada, uma mota vintage e os vários discos em vinil na parede saltam logo à vista. Há, ainda, um gira-discos a tocar música o dia todo. “Vim pela localização, é muito central. A experiência está a ser muito positiva, até porque, quando fazemos o que gostamos, as coisas saem melhor”, diz Carlos Fonseca, 32 anos. O jovem barbeiro sente, contudo, que a Junta de Freguesia de Benfica dá poucos incentivos aos pequenos comerciantes.

 

“Cheguei a ter um banco em frente à barbearia, onde as pessoas mais idosas se sentavam para fazer uma pausa, antes de continuarem o caminho a pé. A Junta disse que tínhamos de pagar um valor para ter aí o banco e tirámos”, conta. Paulo Caldeira, cliente estreante do espaço, diz optar pelo comércio de rua por estar cansado de centro comerciais. “Já conheço esta zona há quase trinta anos e acho que devia haver mais apoio ao comércio. No início, esta rua não tinha nada e as pessoas ainda associam muito Benfica ao Edmundo – uma marisqueira muito conhecida – e esquecem-se do resto, há muito mais”, constata.

 

 

 

Rui Marcos, 52 anos, natural dos Açores, também abriu ali um café há três anos. O brownie é o bolo com mais sucesso do estabelecimento, mas também vende bolachas artesanais, bolo de espinafres e chocolate fresco. “O bairro é muito simpático, mas precisava de uma renovação. Esta fábrica está devoluta há anos e deveria ser-lhe dada um destino, porque acaba por dar um ar de abandono à freguesia”, sugere, apontando para a antiga Fábrica Simões.

 

Em frente, também açoriano, Paulo Toste, 57 anos, abriu um novo conceito de gelados, em 2015. Há gelados vegan, gelados de iogurte isentos de glúten e lactose e o “bubble tea”, um chá típico do Taiwan, “uma espécie de Ice Tea mais saudável”. Estes produtos originais são servidos em modo self-service e pagos ao peso. O proprietário da casa de gelados admite que este é “um universo de pessoas mais reduzido”, mas que acaba por atrair gente de outras freguesias, interessadas em experimentar uma gama de artigos que ainda vai surgindo com alguma timidez no resto da cidade.

 

 

Em depoimento escrito a O Corvo, a presidente da Junta de Freguesia de Benfica, Inês Drummond (PS), diz ter sempre tido, “mesmo durante a crise”, um comércio tradicional “activo e saudável”, com capacidade de se adaptar às novas realidades deste sector. “Um dos desafios com que nos temos vindo a deparar é o peso financeiro da nova lei das rendas para estes negócios, mas os estabelecimentos estão a conseguir responder positivamente através da modernização. Estas lojas apostam na proximidade e em respostas individualizadas, distanciando-se do serviço impessoal e totalmente sobrelotado dos grandes centros comerciais”, explica a autarca.

 

A presidente da junta diz que tem lutado para garantir a sustentabilidade do comércio tradicional, que considera estar “cada vez mais dinâmico” e ser um exemplo a seguir por outras zonas da cidade. Em 2016, com o lançamento do cartão B, que dá descontos a quem fizer compras nas lojas de Benfica, já tinha sido dado um passo no sentido de ajudar estes comerciantes. Até agora, mais de 170 pessoas aderiram a este cartão, que conta recentemente com uma nova plataforma digital.

 

 

Inês Drummond salienta ainda a renovação do Mercado de Benfica, que irá avançar nos próximos meses, no âmbito do Plano Municipal de Mercados de Lisboa, o que, segundo a autarca, tornará a freguesia no “verdadeiro bairro comercial de Lisboa”. Isto porque o mercado é o “principal pólo comercial da freguesia e que impulsiona todo o comércio tradicional desta zona”. “O grande desafio deste sector, em Benfica e em toda a cidade, é a capacidade de responder aos novos hábitos de consumo dos lisboetas”, conclui.

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