Há quem se queixe da prostituição no Alto do Parque mas muitos moradores e lojistas sentem-se mais seguros assim

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Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

Avenidas Novas

24 Janeiro, 2019

Junto ao Parque Eduardo VII, num dos bairros residenciais mais caros de Lisboa, onde o metro quadrado ronda os 8 mil euros, a prostituição é uma realidade, há mais de 50 anos. Os moradores mais antigos e os comerciantes garantem, porém, que o número de prostitutas a circular pela zona diminuiu muito, nos últimos anos. Muitos dizem mesmo conviver bem com a sua presença. Há quem diga até que as prostitutas garantem o policiamento e segurança da zona. Algumas terão impedido assaltos. “Os ladrões não aparecem porque elas estão cá e gritam quando alguém tenta assaltar”, conta um comerciante. Alguns dos habitantes mais recentes têm, porém, críticas a fazer. Queixam-se de não conseguirem dormir com o barulho, à noite, mas também do lixo resultante do trabalho sexual. Prometem, por isso, não desistir de combater o fenómeno. Acusam ainda a Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia das Avenidas Novas de “impunidade” perante o problema.

Às 5h da manhã, o trânsito no bairro do Alto do Parque, nas costas do Parque Eduardo VII, tem um eco diferente. Os condutores circulam devagar e, ao avistarem uma mulher, seja esta prostituta ou não, param, assediam-na e fazem propostas de cariz sexual. É assim há décadas, só mudam os rostos. “Quando chegamos, às 5h, elas já sabem quem somos e afastam-se. Já nos pediram para exigirmos que elas saiam da entrada do talho, mas não concordamos. A rua é pública, elas não estão nisto porque querem, certamente, e nunca foram mal-educadas connosco”, conta Elsa Fernandes, 49 anos, funcionária de um talho na Rua Rodrigo da Fonseca.

 

Há um episódio, ocorrido recentemente, que a talhante não esquece. Uma prostituta começou a fazer sinais a um dos fornecedores deste estabelecimento e ele não entendeu os motivos da tentativa de comunicação. “Achou que ela estava a meter-se com ele, e não ligou. Passado uma hora, a polícia telefonou-lhe a perguntar senão lhe faltava nada. Ela queria, afinal, avisá-lo de que estavam a tentar assaltá-lo”, conta Elsa Fernandes. Na época natalícia, diz ainda, uma moradora deixou o carro parado, aberto e com vários presentes, e uma prostituta tê-la-á avisado. “A senhora só ia subir a casa para ir buscar algo que se esqueceu, mas não deixa de ser perigoso. Ao ouvir a prostituta bater no vidro da entrada do prédio, ficou assustada. Achava que lhe queria pedir dinheiro e não ligou. Depois, soubemos que só queria avisar a moradora que o carro estava aberto”, recorda.

Os relatos de comerciantes que testemunharam situações semelhantes repetem-se por toda zona. Alguns, dizem mesmo que as próprias prostitutas garantem o policiamento daquela parte da cidade. “Neste bairro vivem pessoas com um elevado poder de compra, as casas custam cerca um milhão de euros. Os carros que por aqui se vêem também atestam sinais de riqueza. Volta e meia, há assaltos e elas começam logo a fazer barulho para avisarem os moradores e, por vezes, são mesmo elas próprias a chamarem a polícia”, conta José Lopes, 62 anos, que dá uma ajuda pontual ao dono de um quiosque.

 

Na mercearia Santa Cruz, na Rua Padre António Vieira, uma funcionária que não quis ser identificada, conta uma história parecida. “A minha irmã trabalha aqui numa padaria e as prostitutas já impediram que fosse assaltada, ao avisá-la de que alguém a tentava roubar. Obviamente que é um problema grave, e é desagradável os pais explicarem às crianças o que se passa, mas a solução está nas mãos do Estado”, diz. Uns metros acima do ponto de venda de jornais e revistas, João Marques trabalha numa oficina de carros há cerca de 30 anos e garante que o fenómeno diminuiu. “Antigamente, sentavam-se junto aos prédios, e mesmo aqui à entrada da nossa garagem. Está muito mais calmo. Os ladrões não aparecem porque elas estão cá e gritam quando alguém tenta assaltar”, conta.

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A frequência no Alto do Parque não será assim tão má graças às prostitutas, dizem moradores e lojistas

Numa papelaria na Rua Rodrigo da Fonseca, Paula Alves, 42 anos, corrobora a tese. “A presença delas acaba por garantir a segurança da zona, uma vez que o nível de policiamento é inexistente. Já fomos assaltados, mas não estabeleço nenhuma relação entre a prostituição e este género de criminalidade. Um dia em que deixe de existir movimentação, até pode aparecer aqui outro tipo de crimes”, especula a lojista, ali há cerca de quatro anos, mas com outros estabelecimentos comerciais na zona. Quando chega ao quiosque, ainda de madrugada, algumas vezes tem de pedir licença às prostitutas para entrar na loja. Mas não vê nenhum problema nisso. “Convivemos, diariamente, com a situação e ouvimos queixas dos moradores, mas parece-me que já foi muito mais grave”, diz.

 

O lixo deixado por quem ali trabalha todas as noites – desde preservativos, cuecas, toalhitas, entre outros – é criticado por todos, mas há até quem veja “um mal menor” na acumulação destes detritos. “Há ruas que parecem um terreno ‘minado’, de tão sujas que estão. É um grande problema do bairro, sem dúvida. O maior problema, contudo, parece-me a falta de civismo dos moradores que não apanham o cocó dos cães. Se vi preservativos ou lixo de trabalho sexual duas vezes já foi muito, e venho para cá todos os dias”, relata Paula Alves. Na Rua Sampaio e Pina, o quiosque onde José Matos trabalha abre mais cedo. Há mais de dez anos naquela parte da cidade, também se depara, todos os dias, com a imundice do espaço público. “Fica o estrago da noite, claro, e não é agradável ver as ruas sujas. Mas custa-me mais encontrá-las [as prostitutas], de manhã. O que leva uma miúda de 18 anos, como encontro muitas vezes, a enveredar por este caminho?”, questiona.


 

O vendedor de jornais diz que o assunto tem de ser abordado com mais profundidade, começando-se por tentar perceber porque é que este bairro é escolhido para a prática da prostituição há tantos anos. “Passava por aqui em jovem, com amigos, e há uma que está aqui há quarenta anos, no mesmo sítio. É preciso começar por algum lado, mas as soluções não são fáceis. Onde as vamos pôr? Em guetos? É muito difícil! É um problema que tem de ser resolvido de raiz, começando por acompanhar a situação de toxicodependência em que muitas estão”, propõe. Elsa Fernandes, funcionária do talho, tem outra sugestão. “A cidade tem muitos prédios devolutos, acho que as podiam pôr em alguns, pelo menos praticavam a profissão em melhores condições de higiene”, diz.

 

 

Maria Flor Sacadura, uma das moradoras mais antigas, ali desde 1952, diz que apesar de compreender as queixas, estas são “exageradas”. “Já houve muito mais. Antes eram dezenas, agora vê-se meia dúzia delas. No início, estavam toda a noite a discutir, até ia para a janela ouvir e acalmá-las”, diz. Outra habitante, a viver no Alto do Parque há 30 anos, e que não quis ser identificada, tem histórias mais atribuladas para partilhar. “Há dez anos era impossível sair à rua, à noite, e agora não. Lembro-me de assistir a cenas de pancadaria, muitas vezes, e no meu prédio, que esteve um ano com o trinco estragado, elas dormiam lá em cartões, havia seringas e fezes. Felizmente, já acabou”, relata. Todos partilham a opinião de que a prostituição de hoje é bem diferente daquela que existia há 40 anos. E até há quem arrisque justificações. “Acho que elas também se emanciparam da tutela dos chulos e, agora, acabam por fazer mais propostas pela internet”, diz outra moradora, que também preferiu manter o anonimato.

 

Os habitantes mais antigos dizem ainda que a nova geração de moradores não estava à espera do que ia encontrar numa parte nobre da cidade. Uma realidade que já tinha sido constatada, no passado mês de Dezembro, por O Corvo, quando ouviu os três membros fundadores do movimento cívico Ouvi na Freguesia. Catarina Pinheiro, um desses elementos, dizia na altura que, quando trabalhou ali, entre 2006 e 2012, “não percebia porque estava sempre uma senhora na esquina”. “Quem vem para aqui só trabalhar não percebe logo o que se passa”, dizia. O movimento cívico foi criado para dar voz aos moradores e discutir mais “assuntos tabu”, como a prostituição. Luiza Cadaval, também membro fundador do Ouvi na Freguesia e presidente da Associação de Moradores do Alto do Parque, tem-se batido pelo combate à prostituição, alertando para o tema em várias reuniões camarárias e sessões da Assembleia Municipal de Lisboa (AML).

 

Luiza Cadaval esteve na última reunião descentralizada da Câmara de Lisboa, no passado dia 9 de Janeiro, a denunciar a proliferação da prostituição, dentro e fora do bairro, “com todos os problemas que daí advêm”. “Durante o dia, a Alameda Edgar Cardoso serve de palco a este negócio sórdido, que transita para as ruas do bairro, ao final do dia. Todas as esquinas são tomadas de assalto pelas prostitutas, que não serão mais do que vinte, num negócio organizado por redes internacionais organizadas de tráfego de mulheres, visto serem praticamente todas estrangeiras e irem rodando com frequência”, dizia a presidente da Associação de Moradores do Alto do Parque.

 

 

Segundo Luiza Cadaval, há cada vez mais mulheres e homens a prostituírem-se, durante todo o dia, no coração de Lisboa e, acusa, a Câmara Municipal tem-se demitido das suas responsabilidades. “Já percebemos todos que a câmara e a junta de freguesia não parecem estar muito interessadas em resolver este problema e nem sequer em reabrir a esquadra que tínhamos nas Avenidas Novas. Sem autoridade, as regras e a fiscalização não existem, e cada um faz o que quer e bem lhe apetece. Já que insistem em manter a prostituição nas nossas ruas e em toda a zona envolvente, acelerando a degradação deste bairro, terão forçosamente que ceder em certos pontos, nomeadamente no que diz respeito ao lixo em geral e, em particular, o lixo gerado pela prostituição”, pediu ainda.

 

Em resposta à intervenção da munícipe, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina (PS), disse não se identificar com tais acusações. “Não me revejo no quadro que descreveu e fico satisfeito por, apesar da tragédia que descreve, o preço do metro quadrado da sua zona estar tão valorizado”, ironizou. Medina garantiu estar a trabalhar para encontrar soluções relativamente aos problemas do lixo, “dentro das competências” da autarquia, mas garantiu não ser possível erradicar a prostituição. “Confesso que não conseguirei, como presidente da câmara, prometer-lhe acabar com a prostituição na cidade, e aconselho-a a desconfiar de alguém que prometa”, afirmou num tom jocoso, que mereceu críticas por parte da vereadora do CDS-PP, Assunção Cristas, e do vereador do PCP, João Ferreira.

 

Luiza Cadaval, ouvida agora por O Corvo, diz-se “chocada” com a resposta de Medina e com a falta de soluções para resolver um problema antigo. “O autarca que governa a cidade não consegue ouvir uma crítica e ainda se serve do poder para deitar abaixo uma munícipe, é muito grave. E mostra bem a gente que nos está a governar”, critica. Quando confrontada pelos depoimentos dos comerciantes e moradores ouvidos no local por O Corvo, muitos dos quais consideram que a prostituição diminuiu e não a relacionam com a criminalidade, Luiza Cadaval reage com estupefacção. “Há muitas pessoas que já se habituaram e se acomodaram, mas isso não é normal. Moro aqui há doze anos e conheço bem a realidade. Temos uma associação que luta há dezenas de anos contra este flagelo, que está identificado como um problema de saúde pública em Lisboa”, garante.

 

 

A moradora diz que o crime tem aumentado na zona e que o vandalismo acontece com frequência, levando muitos a abandonarem aquela parte da cidade. “Os carros têm os vidros partidos e aparecem riscados, e são as próprias prostitutas que o fazem, quando estão alcoolizadas e drogadas. Todos os dias, tanto eu como os meus vizinhos, encontramos excrementos humanos, cuecas, preservativos, toalhitas, papel higiénico nos arbustos, enfim, todo o tipo de lixo ligado ao trabalho sexual. Eu já apanhei cuecas, porque não as tiram”, conta, acrescentando ainda que o cheiro a fezes, durante o dia, e o barulho, à noite, é insuportável.

 

A residente e dirigente associativa diz já terá sido abordada por um cliente do serviço sexual e não se sentir segura no bairro onde escolheu viver. “Não há semana que não me aconteça uma situação destas, ou que tenha de pedir licença para elas se desviarem e entrar em casa, é muito chato. A Câmara de Lisboa está-se a borrifar para isto e a Junta de Freguesia das Avenidas Novas continue a sacudir água do capote. O próprio Estado está a fomentar a prostituição, ao aceitar que elas entrem no país. Não se revolve o problema alimentando-o”, acusa.

 

O Corvo contactou a presidente da Junta de Freguesia das Avenidas Novas, Ana Gaspar (PS), que, até ao momento da publicação deste artigo, não teve disponibilidade para prestar declarações sobre o tema.

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