Durante dois sábados, a companhia Ópera do Castelo instala-se de armas e bagagens em duas das mais icónicas praças dos bairros da Mouraria (29 de Agosto) e de Alfama (5 de Setembro). A ópera escolhida é uma versão portuguesa de “Os Palhaços”, de Ruggero Leoncavallo, um drama passional que quase podia inspirar a letra de um fado.

 

Texto: Rui Lagartinho

 

Os sinais de uma vigilância apertada estão por todo o lado: chega-se à Rua da Guia, partindo da escultura da Guitarra da Severa, na Rua da Mouraria, ao Martim Moniz, e passando pela sua antiga casa. No caminho, nas paredes da Rua do Capelão, há retratos de fadistas populares e do bairro, em fotos impressas nas paredes. Já na Rua da Guia, depois de se passar pelo Largo da Severa, há um busto do fadista Fernando Maurício. É aqui, neste enclave do fado, que um atrelado se veio instalar para, em torno dele, se fazer ópera.

 

Na taberna ao lado, neste fim de tarde, o jogo das cartas continua a bom ritmo. No prédio em frente, ouve-se o restolhar de tachos e panelas, sinal de que o menos secreto dos restaurantes chineses clandestinos da cidade está quase a abrir portas para o jantar.

 

Não vai ser a primeira vez que Catarina Molder e a sua Ópera do Castelo enfrentam o fado, a rua e a Mouraria: “Quando fizemos a La Bohéme, aqui a uns metros, no Largo da Achada, confesso que estava assustada. Senti uma certa animosidade no ar. «Então, agora, vêm para aqui fazer ópera?». Mas, depois, claro, correu tudo muito bem”, afirma.

 

Catarina confessa que gosta de enfrentar este tipo de público “mais virgem” e que já vai sabendo como fazê-lo: “Não chegamos aqui de supetão, falamos com as pessoas, deixamos que elas se apercebam do que vai acontecer e até as integramos, quando é possível”. Neste espectáculo, há um fadista que assomará a uma das janelas de um prédio, intervindo na ópera.

 

A ópera escolhida assenta como uma luva neste local. “Os palhaços”, escrita por Ruggero Leoncavallo nos finais do século XIX, é um expoente da ópera verista, um estilo realista que, em Itália, fez a ponte entre Verdi e Puccinni. Uma companhia de circo ambulante chega, como todos os anos, a uma pequena cidade para actuar, mas, desta vez, dentro da roulotte vive-se um drama passional que destrói a alma do palhaço Canio, dividido entre chorar, dilacerado, pela traição da sua mulher ou rir em palco, porque o espectáculo tem de continuar.

 

Canio é, nesta produção, Carlos Guilherme, um dos mais conhecidos e populares cantores de ópera portugueses: “Gosto muito de fazer este tipo de espectáculos e, sempre que posso, tenho feito experiências de trazer a ópera para fora do teatro. Desta vez, não são excertos, é uma ópera completa e a versão em português que o meu colega, o cantor Luís Rodrigues, adaptou é muito boa. Quando lemos as memórias do maior cantor português de sempre, Tomás Alcaide, ele fala muito das noites de ópera ao ar livre em Itália, uma prática regular na primeira metade do século XX, altura em que ele cantou muito por lá. Aqui, vai ser possível reviver esse espírito”.

 

Montagem_frente

 

No centro do palco, no centro da praça, está, pois, um pequeno atrelado de circo, em torno do qual a actriz Lígia Roque concebeu a encenação para esta ópera, que envolve duas dezenas de pessoas, entre cantores solistas, coro e músicos: “Vai ser um ambiente hiper-realista, como é pedido pela história. Tentei que houvesse uma separação nítida entre o que serão as cenas privadas da vida da companhia e a representação do espectáculo. A ligá-los estará o coro, aqui bastante activo, do princípio ao fim, e que não se limita a cantar.”

 

Trazer esta troupe para o coração da Mouraria (dia 29, 21h30) e de Alfama (dia 5, à mesma hora, no Largo do Chafariz de Dentro, em frente ao Museu do Fado) foi uma ideia da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que fez deste um dos seus projectos culturais mais importantes do Verão, nestes bairros típicos e populares – que se querem também diversificados em oferta cultural e cosmopolitas em termos de visitantes.

 

  • Helena Castro
    Responder

    Falta saber a hora…

    • O Corvo
      Responder

      Tem razão. Já foi acrescentada essa informação. Obrigado.

  • José Nunes
    Responder

    Ja dizia o saudoso Antonio Silva: “Oucam opera que e musica propria para operarios!!!” 🙂

Deixe um comentário.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

O Corvo nasce da constatação de que cada vez se produz menos noticiário local. A crise da imprensa tem a ver com esse afastamento dos media relativamente às questões da cidadania quotidiana.

O Corvo pratica jornalismo independente e desvinculado de interesses particulares, sejam eles políticos, religiosos, comerciais ou de qualquer outro género.

Em paralelo, se as tecnologias cada vez mais o permitem, cada vez menos os cidadãos são chamados a pronunciar-se e a intervir na resolução dos problemas que enfrentam.

Gostaríamos de contar com a participação, o apoio e a crítica dos lisboetas que não se sentem indiferentes ao destino da sua cidade.

Samuel Alemão
s.alemao@ocorvo.pt
Director editorial e redacção

Daniel Toledo Monsonís
d.toledo@ocorvo.pt
Director executivo

Sofia Cristino
Redacção

Mário Cameira
Infografías 

Paula Ferreira
Fotografía

Margarita Cardoso de Meneses
Dep. comercial e produção

Catarina Lente
Dep. gráfico & website

Lucas Muller
Redes e análises

ERC: 126586
(Entidade Reguladora Para a Comunicação Social)

O Corvinho do Sítio de Lisboa, Lda
NIF: 514555475
Rua do Loreto, 13, 1º Dto. Lisboa
infocorvo@gmail.com

Fala conosco!

Faça aqui a sua pesquisa

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com