Crónica

 

“Há horas de sorte”, ouvi dizer a uma voz possante, na rua, onde eu seguia a passo lesto e determinado, como quem tem um objectivo muito claro a atingir e que não me permitia parar. Olhei para trás e era um vendedor de cautelas, que exibia a Lotaria de Santo António. “Não, não vais gastar dinheiro, Fernanda, não podes andar assim a desbaratar euros”, repeti-me a mim própria, tentada pelo que seria, talvez, a voz da razão. Mas, num impulso, voltei ao ponto de partida, ao lugar onde a voz de João Louro me chamava. Pronto, vou precipitar-me e arrsicar, já se vê. Quero uma cautela, quanto custa? Habitualmente, são cinco euros, mas esta hoje é de Santo António e custa 10 euros, retorquiu o homem, com cara de quem estava a arriscar uma desistência, com essa resposta. Mas eu já estava determinada. E se é bem verdade que há horas de sorte, olhe, quero uma, disparei.

 

Faltava-me ainda escolher o número, entre as cautelas que trazia João Louro, um homem que vim a saber, pouco depois, tinha precisamente a minha idade e, mais mês, menos mês, era tal um nascido em 1953.

 

No intervalo de tempo em que me dediquei à escolha da cautela, conversámos, de tudo e de nada, de números e de sortes. Já é cauteleiro aqui há muito tempo, pergunto-lhe. “Só há cinco meses, mas olhe que me está a fazer muito bem. Eu já quase não saía de casa, tinha grandes dificuldades em andar e agora corro aqui o bairro todo. Não faço muito dinheiro, isso não, mas falo com muitas pessoas e, enquanto ando aqui, sinto-me bem, sinto-me vivo. É que, em casa, já estava a ficar meio avariado da cabeça”, conta João Louro, satisfeito por poder dar uns dedos de conversa com alguém, cuja atenção atraíra com a sua voz possante.

 

E que há horas de sorte sabe este improvisado cauteleiro muito bem, porque já teve muitas, como se veio a perceber na conversa, alternando com outras mais infelizes, ao longo dos seus 62 anos. “Já tive uma vida muito boa, minha senhora. Tinha uma empresa, estava bem mesmo, mas depois tudo se complicou, perdi tudo e tive um acidente que me deixou muito mal. Já passei maus bocados, separei-me e estava já ficar avariado da cabeça. Foram uns vizinhos que me convenceram a fazer alguma coisa e a vir para aqui vender lotarias e raspadinhas”, contou.

 

Com esta nova profissão, João Louro ganha pouco, mas livrou-se, pelo menos, da solidão e da inactividade que estava já a afectar-lhe o andar e a saúde.

 

Deixei-o na avenida, a fazer horas para ir bater à porta das lojas, onde, diz, às vezes também consegue vender algumas cautelas. Parti com a minha no bolso, um número que acabava em 953, algarismos da minha data de nascimento e da de João Louro. À hora do sorteio, fui buscá-la, para ver se tinha mesmo chegado a minha hora de sorte, mas o número não constava entre os três primeiros prémios.

 

Uns dias mais tarde, levei-a a uma loja, onde descobri que, afinal, tinha um prémio, sim: 10 euros. Arriscar, afinal, não custou nada.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

 

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