Há buracos no átrio e cadeiras partidas nas salas de aula na Escola Delfim Santos

REPORTAGEM
Sofia Cristino

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VIDA NA CIDADE

São Domingos de Benfica

16 Abril, 2018

Telheiros em amianto, buracos no chão, infiltrações e pavimento a ceder. Este é o cenário na Escola Delfim Santos, onde também há cadeiras partidas no meio das salas e o mobiliário é o mesmo de há 37 anos. Por causa dos buracos no átrio do estabelecimento de ensino de São Domingos de Benfica, já caíram três professoras, ficando com ferimentos graves. Os pais lamentam a falta de espaço para os filhos se abrigarem quando chove, as filas para carregarem o cartão de refeição e a cantina não ter espaço para todos. Alguns encarregados de educação alertam, ainda, para situações de bullying. “Estou mais preocupado quando ele está dentro da escola do que quando está fora”, comenta um pai. A Associação de Pais pede uma reparação profunda. “O que se passa nesta escola é gravíssimo, parece um gueto”, critica uma dirigente da associação. O presidente da direcção da escola garante, contudo, que os problemas “não são assim tão graves”. E assim que houver financiamento, diz, a escola será requalificada. O ministério assegura que está à procura de soluções.

“Já temos portas, mãe!”, diz entusiasmada a filha de Guida Reis, a frequentar o 5º ano na Escola EB 2,3 Professor Delfim Santos, na freguesia de São Domingos de Benfica. A aluna refere-se às portas das casas de banho que, no início deste ano, foram substituídas pela primeira vez em 37 anos. Inaugurada em 1981, na altura apenas como escola básica do 2º ciclo, o estabelecimento nunca foi alvo de uma reparação profunda, apresentando, hoje, vários problemas de degradação. Há amianto nos telheiros, buracos no chão e cadeiras partidas nas salas de aulas. “O que se passa nesta escola é gravíssimo, precisa de uma intervenção urgente. Aquilo parece um gueto, está podre”, critica a presidente da Associação de Pais, Paula Rodrigues.

Apesar de alguns sanitários terem sido remodelados, muitos ainda têm portas antigas que, devido ao estado de deterioração, não fecham. Os canos das casas de banho estão, muitas vezes, entupidos, os alunos não têm sabão para lavar as mãos e têm de pedir papel higiénico às funcionárias. “Ela já se recusou várias vezes a ir às casas de banho, não só por não ter privacidade, como também por estarem sujas. Estar a conter-se uma manhã inteira é muito tempo”, diz a encarregada de educação que, no passado mês de Janeiro, entregou um abaixo-assinado à Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGESTE) e à direcção da escola, com cem assinaturas dos pais, a exigir que o estabelecimento de ensino realize obras.

“As condições das instalações desta escola não são propícias a uma boa aprendizagem dos educandos e a um bom trabalho dos professores. A segurança é pouco adequada a uma instituição de educação nacional”, lê-se no documento. Na mesma carta, que ainda não teve resposta, são enumerados todos os problemas apontados pelos pais. “Não pode ser banalizado o que está a acontecer”, diz Guida Reis. A encarregada de educação conta que há mesas e cadeiras partidas nas salas de aulas e que o mobiliário utilizado é desadequado para os alunos do 3º ciclo, uma vez que ainda é do tempo em que só se leccionava o 2º ciclo. “Como as mesas e as cadeiras têm alturas diferentes, os alunos não ficam correctamente sentados. Há, também, ladrilhos de linóleo partidos espalhados pelo chão, ou em falta, o que provoca quedas”, explica.

 

Devido à falta de isolamento térmico das janelas, as salas de aulas são demasiado frias no Inverno e muito quentes no Verão. “No Inverno, mesmo de casacos vestidos, os alunos têm frio e as mãos geladas, o que prejudica a concentração e a escrita. No Verão, ficam rapidamente com sede e apáticos”, diz, ainda. Dois alunos do 8º ano, que estavam a entrar para a escola no dia em que O Corvo visitou o estabelecimento de ensino, contam que as paredes de algumas salas de aula estão rachadas e há infiltrações, chovendo dentro de balneários, corredores e algumas salas.

 

Os adolescentes dizem sentir, ainda, cheiros desagradáveis nas salas de aula, o que obriga os professores a abrirem as janelas, muitas das quais, explicam, têm os estores “partidos ou enferrujados”. Outra aluna conta que, por causa do ruído na sala de aula, a turma já teve de repetir um teste. “Os professores têm de mudar a disposição das mesas por causa do encadeamento do sol, que complica a visão para o quadro ou para os próprios cadernos. Isto acontece porque os estores não funcionam”, diz Paula Rodrigues.

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Em algumas salas os estores não funcionam

As irregularidades no piso exterior, fruto do crescimento das raízes das árvores que estão ali plantadas há 37 anos, têm provocado alguns acidentes a estudantes e professores. Numa parte do pavimento, que apresenta um desnivelamento maior, já caíram três docentes, quedas que resultou na fractura de uma perna, de uma anca e de um braço. Duas delas, conta Paula Rodrigues, estiveram de baixa médica quase um período lectivo inteiro. “Situações que se vão repetindo e que afectam a qualidade do ensino”. A semana passada, um aluno também torceu ali o pé.

 

No Pavilhão “F”, feito de madeira e tabique, construído para ser temporário, o chão tem buracos e está a ceder. “Nesse pavilhão, existem aulas do 8º e 9º anos e funcionam os laboratórios do 3º ciclo. Temos conhecimento que houve uma visita à escola de técnicos da DGESTE, em finais de 2016 e início de 2017, e que concluíram que era necessária uma intervenção urgente”, lê-se numa carta redigida pela Associação de Pais ao secretário de Estado da Educação.

 

Os telhados dos pavilhões, à excepção de dois, e os telheiros têm, ainda, fibrocimento (amianto) na cobertura, uma das maiores preocupações dos pais. Segundo Paula Rodrigues, há buracos e infiltrações nos telhados, que deixam passar a chuva. “Quando está a chover, as crianças estão debaixo do amianto. Com as intempéries, já terão existido, inevitavelmente, alterações na estrutura do fibrocimento”, diz.

 

“Para agravar, alguns alunos têm a prática de tocar na cobertura do telheiro e, até, beberem água que provém do mesmo”, explica esta mãe de uma criança do 5º ano lectivo. “Há escolas que tinham amianto nas suas coberturas, em que a prevalência de doenças oncológicas era elevada no corpo docente. Os efeitos da exposição ao amianto só se fazem sentir décadas depois. Não agir reverte-se de contornos de negligência”, lê-se na missiva enviada ao secretário de Estado.

 

A escola dispõe de pouco espaço coberto e, em dias de chuva, as crianças e adolescentes abrigam-se nos telheiros, que não são suficientes para os 1056 alunos da Escola Delfim Santos, explicam os pais. “As crianças ali não estão abrigadas de nada, com as rajadas de vento, levam com água de todos os lados”, diz a presidente da Associação de Pais. “Às vezes, chegam a estar vinte minutos à chuva, deveriam providenciar a segurança dos alunos”, diz Ricardo Silva, pai de um estudante do 7º ano, que tem mais queixas a fazer. “Na portaria, vê-se um bloco de pedra com uma grande rachadela que pode cair em cima de alguém. Deve pesar centenas de toneladas”, observa.

 

A mesma opinião tem José Almeida, reformado, ouvido por O Corvo no momento em que ia buscar a neta para almoçar. “A entrada está um bocado perigosa e deveriam ter mais resguardos para a chuva ao pé do porteiro, é muito pequeno e acabam por ir para as paragens de autocarros abrigarem-se”, explica.  “Um dia, vai cair”, comenta Igor Moreira, que aguarda pela chegada da filha. Para este pai, contudo, um dos problemas mais graves da escola é a falta de auxiliares e de acompanhamento das crianças. “Há dois meses, os miúdos andavam à procura de papel higiénico, porque simplesmente não havia. Não se entende, são os mínimos que devia haver”, comenta.

 

 

Alguns encarregados de educação queixam-se, também, das situações de roubo e de bullying, que dizem ocorrer com frequência nesta escola. “Há uma zona que não é vigiada e deveria ser, ou, pelo menos, estar vedada. É uma zona de muito atrito e conflito, onde se juntam crianças de diferentes idades, e aproveitam para extravasarem mais. O meu filho foi agredido e não estava lá ninguém a vigiar, nesse momento”, conta Ricardo Silva. “Estou mais preocupado quando ele está dentro da escola do que quando está fora. Devia ser o contrário”, comenta.

 

Segundo alguns pais, as crianças também não têm tempo para almoçar, uma vez que a cantina é demasiado pequena – o refeitório terá capacidade para cerca de 50 alunos – para receber os alunos todos. E a máquina onde carregam os cartões de refeição está avariada várias vezes, causando filas enormes. “A hora de almoço acaba por ser um momento de stress para os educandos, pois receiam não conseguir almoçar, ir ao recreio e chegarem a tempo às aulas. No início do ano lectivo, como os cartões demoram a chegar, é um caos”, diz a presidente da Associação de Pais.  Quando a máquina de carregamento dos cartões não funciona, Guida Reis diz que há mesmo crianças que não almoçam. “Antes, ainda lhes davam uma sopa, mas agora não. É inadmissível deixar uma criança uma tarde inteira sem comer, porque não conseguiu carregar o cartão”, critica.

 

Numa visita à escola com O Corvo, o presidente da Escola Delfim Santos, Amílcar Santos, garante que a necessidade de intervenção está identificada pelo Ministério da Educação. “Já foi feita uma vistoria, no início do ano lectivo, e sabe-se o que tem de ser feito e, assim que for possível financeiramente, vai avançar. Somos pedagogos, não somos carrascos. Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para melhorar a escola”, assegura.

 

Quanto à presença de amianto nos telhados, Amílcar Santos considera que esta não apresenta o mesmo risco de outras escolas. “O amianto só é perigoso se existirem partículas soltas e não temos partículas soltas na escola. O chão está sempre a ser limpo”, diz, adiantando, ainda assim, que é “sempre desejável tirar” o referido revestimento. Garante, também, não existirem buracos nos telhados e que, por isso, não chove dentro do edifício. “O que acontece é que, por vezes, acumulam-se muitas folhas no telhado, entopem as caleiras, e temos de limpar para evitar infiltrações”, diz.

 

 

Segundo Amílcar Santos, algumas salas já têm aquecimento de radiadores ou a óleo, o Bloco F tem mobiliário novo, as casas de banho foram pintadas, foram gastos 30 mil euros numa parte da iluminação exterior e fez-se uma revisão geral aos extintores. “Algumas casas de banho não têm porta, mas já estão encomendadas”, explica. Relativamente à entrada, garante que esta não vai cair e que já foi avaliada. “Um engenheiro já esteve a analisar a situação e não há risco de cair, tem apenas uma fissura que vamos corrigir. A portaria foi remodelada em 2010, a antiga é que estava a cair”, explica.

 

O presidente da escola do Agrupamento das Laranjeiras suaviza as queixas dos pais sobre situações de violência. “Hoje em dia, para os pais, tudo é bullying, é um exagero. Sempre que há uma queixa, aferimos os culpados e há uma expulsão. Em situações mais graves, chamamos a Escola Segura e são sancionados”, explica. “Não toleramos a violência, claro. Mas é natural os miúdos, de vez em quando, chatearem-se”, diz, ainda. Amílcar Santos desvaloriza algumas queixas. “Os pais querem um funcionário para cada aluno e isso não é possível. Temos 96 professores e 30 funcionários, é suficiente. Alguns saltam o gradeamento, mas todos os que tentaram saltar foram apanhados, por isso, a escola tem vigilância”, explica.

 

Em depoimento escrito a O Corvo, o Ministério da Educação garante que está a acompanhar a situação em articulação com a direcção da escola, de forma a encontrar as soluções para os problemas mais prementes.

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