Há 184 anos de portas abertas na Baixa de Lisboa, Casa Senna pode encerrar este mês

REPORTAGEM
Sofia Cristino

Texto

URBANISMO

VIDA NA CIDADE

Santa Maria Maior

10 Maio, 2018

No verão passado, a Casa Senna recebeu uma carta de não renovação de contrato. Com o encerramento da loja principal, a casa de desporto tem os seus dias contados, uma vez que as suas restantes filiais já fecharam – uma delas, para dar lugar a um hostel. “Não é só enviar uma cartinha e está tudo resolvido. A Casa Senna morre para sempre, sem qualquer respeito pela sua história”, critica um dos sócios do estabelecimento comercial aberto desde 1834. A Câmara Municipal de Lisboa (CML) terá chegado a incluir a Casa Senna num conjunto de 62 estabelecimentos a ser distinguidos como “Lojas com História”, mas acabaria por retirá-la desta lista. Entretanto, o senhorio interpôs uma providência cautelar para que o espaço comercial não receba essa distinção. “Se não tivermos história, que loja terá?”, questiona o inquilino. A CML garante que tem tido feito tudo o que está dentro das suas competências para proteger a loja, mas que não se pode substituir nos “deveres de relações laborais”.

Inaugurado em 1834, o negócio familiar atravessou cinco gerações e, desde 1996, quando faleceu a última herdeira, passou a ser gerido por Mendes Pinto e Manuel António Dias. Atrás dos balcões, estão os mesmos funcionários de há trinta anos, que não só fazem questão de privilegiar o atendimento personalizado, como de partilhar os seus conhecimentos sobre a panóplia dos artigos expostos. Se a loja fechar, vêem um emprego de uma vida acabar. “Pedimos colecções de artigos com oito meses de antecedência e nem isso o senhorio teve em consideração. Não é só enviar uma cartinha e está tudo resolvido. Vamos ter de indemnizar os funcionários, a maioria com 30 anos de casa. As pessoas não são descartáveis, têm de ser respeitadas”, lamenta, referindo-se aos seis empregados.

 

Aberta por Alexandre Senna, a loja de desporto começou por vender material para jogos de bilhar, peças de marfim para jogos de tabuleiro (xadrez), baralhos de cartas, dados e, mais tarde, até automóveis. Em 1903, o rei Dom Carlos nomeou-a fornecedora da Casa Real e, durante muitos anos, teve uma revista quinzenal desportiva, a “Tiro e Sport”. Em 1906, vendeu as primeiras botas desportivas ao Sporting Clube de Portugal, no ano da fundação deste. É já das poucas casas comerciais abertas em Lisboa que recebeu reis, primeiros-ministros, Presidentes da República e artistas de renome, tendo resistido, ainda, a vários regimes políticos, ao incêndio do Chiado, em 1988, e ao aparecimento de novas lojas e de grandes superfícies comerciais.

Para fazer face à concorrência, especializou-se em calçado para atletismo, corrida e trail e, hoje, tem artigos de todas as modalidades desportivas. É ainda distribuidora das principais marcas de desporto e representante de algumas, tendo sido a primeira a vender a marca Nike em Portugal. “No Estado Novo, tínhamos de ter uma licença, o Boletim Registo de Importação, para importar marcas internacionais, que viriam a ter muito sucesso. Lembro-me de um miúdo que calçava o número 37, mas queria levar uns ténis número 42 porque eram da marca Nike. Uma casa com 184 anos tem histórias engraçadas todos os dias”, conta, entre risos.


 

Ao longo dos anos, os clientes foram mudando e, com o aparecimento de novas casas de desporto, as vendas desceram. A história que traz consigo não permitiu, contudo, que os sócios baixassem os braços. “Conseguimos sobreviver porque temos muitos clientes, abastecemos muitas escolas, clubes desportivos, câmaras municipais e particulares com equipamentos desportivos e fazemos relvados sintéticos. Somos um dos grandes fornecedores da Gymnaestrada, o maior evento de ginástica não competitiva do mundo”, explica Mendes Pinto.

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Algumas das principais marcas desportivas foram introduzidas em Portugal pela Casa Senna

Em Novembro do ano passado, os inquilinos da Casa Senna pediram à Associação de Proprietários Lisbonenses – através do envio de cartas – que lhes desse a oportunidade de fazerem um novo contrato. Mas a resposta só chegaria depois de 28 de Fevereiro. A ALP opôs-se à renovação do contrato, tendo ainda feito uma proposta de renda “incomportável”. Nesse mês, Mendes Pinto e Manuel Dias tiveram de sair do escritório e retirar os artigos do armazém, no primeiro andar, que servia de apoio à loja.

 

Agora, trabalham em gabinetes improvisados, onde, no meio de caixotes de cartão, se consegue encontrar – em bom estado de conservação – um cofre do século XIX, ao lado de uma secretária com papelada por todo o lado. “Tinha a documentação toda no andar de cima, nem a minha secretária me deixaram trazer. Só o essencial”, conta, emocionado.

 

No início do ano passado, a CML promoveu 62 estabelecimentos a “Lojas com História”, no âmbito de um programa criado para proteger os estabelecimentos comerciais mais antigos –  entre outros requisitos, deveriam ter contratos de arrendamento anteriores a 1995. Segundo informações a que O Corvo teve acesso, numa fase inicial, a autarquia teria incluído a Casa Senna neste conjunto de lojas. Uns meses depois, a CML informou a loja de desporto que, afinal, não a iria distinguir como “Loja com História”, tendo a candidatura sido feita posteriormente pela própria loja e estado em consulta pública até ao dia 9 de Abril. Durante este período de consulta, o senhorio da Casa Senna interpôs uma providência cautelar contra a CML, com o intuito de suspender a distinção da lista de “Lojas com História” propostas pela autarquia. Decisão que deixou os comerciantes intrigados. “Se não tivermos história, que loja terá?”, questiona Mendes Pinto, desiludido.

 

 

O município diz ter apresentado uma “oposição” à providência cautelar, assim como uma resolução fundamentada, de modo a cessar o respectivo efeito suspensivo. A Casa Senna espera agora um desfecho desta situação, que poderá culminar numa acção de despejo. “Estamos em condições de prosseguir com o procedimento de atribuição da distinção ‘Loja com História’ da Casa Senna e, sendo detentora da mesma, disporá de um instrumento importante na sua defesa perante o despejo”, diz Sofia Pereira, coordenadora do programa municipal “Lojas com História”.

 

Mas, nem o facto deste caso estar a aguardar por uma resposta judicial impediu a Associação de Proprietários Lisbonenses de o contactar Mendes Pinto, no mesmo dia em que O Corvo esteve na loja. A APL queria saber qual o motivo de a centenária empresa ainda não ter abandonado o edifício. Já contactada por O Corvo, mais do que uma vez, a APL não se disponibilizou a prestar declarações sobre este assunto.

 

Com o encerramento da loja principal, a Casa Senna tem os seus dias contados, uma vez que as suas restantes filiais já fecharam. “A Casa Senna morre para sempre, sem qualquer respeito pela sua história”, lamenta Mendes Pinto. As lojas situadas na Estefânia e em Massamá já encerraram, devido a um aumento das rendas para “quase o triplo do valor”. Em 2005, na Rua do Crucifixo, já havia fechado um escritório, que sobreviveu ao incêndio do Chiado, para dar lugar a um hostel.

 

Em 1994, a loja desportiva já tinha sido distinguida como “loja de tradição” por Fernando Faria de Oliveira, ministro do Comércio e Turismo. “É uma agonia muito grande o que está a acontecer. Está-se a perder muito o cariz comercial e tradicional da Baixa, está desertificada. Com a nova lei do arrendamento, as empresas acabam, é dramático. A única coisa que não quero perder é a esperança”, concluí Mendes Pinto, que acredita na sobrevivência da loja.

 

 

Quando questionada por O Corvo sobre a possibilidade de a loja de desporto encerrar, a CML diz que tem desenvolvido “vários esforços” no sentido de preservar o comércio local, salientando, contudo, que não é da competência da autarquia reconhecer os “efeitos decorrentes das distinções efectuadas”. “Confrontada com os efeitos da providência cautelar, a CML ‘deitou mão’ de todos os instrumentos jurídicos à sua disposição, de modo a salvaguardar que a distinção das lojas se realize com a maior celeridade possível. No caso da Casa Senna encerrar – situação que, a verificar-se, o município lamenta muito – a CML não se pode substituir nos deveres de relações contratuais laborais, esteja ou não distinguida”, conclui Sofia Pereira.

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COMENTÁRIOS

  • Francisco Rosalino
    Responder

    É Lamentável esta situação e outras iguais que estão a acontecer por toda a baixa de Lisboa e não só. Os políticos estão-se nas tintas. Falam muito em defender o comércio tradicional e os postos de trabalho, mas depois é o que se vê. Nada fazem para preservar marcas que têm história e tradição no País. Depois, escudam-se na justiça…. Enfim. Força Casa Senna! Lutem até ao fim!

    • Catarina de Macedo
      Responder

      Faço minhas as suas palavras. Uma loja que já foi fornecedora oficial da Casa Real!

      Deviam aumentar a taxa turística e usar o dinheiro para financiar o pagamento das rendas das lojas com História. Ao menos que o turismo sirva para algo de útil que não seja a destruição da cidade.

  • José N.
    Responder

    Tudo isto é uma vergonha. Os políticos só pensam deixar Lisboa entregue aos turistas e às negociatas, sem o mínimo de consideração pelos residentes e pela história dos mesmos e da cidade. É essa a herança que querem deixar para mal de todos nós e das gerações futuras. O que gostam é construir arranha céus que mostrem a sua modernidade e a política de facebook…

  • Paulo Só
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    A APL, com seus Sommers e Champalimauds acastelados herdeiros das fortunas do salazarismo, age com uma brutalidade, que ilustra o lado mais negro do capitalismo. Depois, se um dia houver um dispositivo legal que retire aos proprietários a possibilidade de se comportarem sem nenhum respeito em função apenas do sacrossanto “direito de propriedade” vão se queixar, e gritar ao comunismo! Esses senhores são as maiores garantias de que a luta de classes tem longos anos pela frente. Deixem estar: um dia é da caça o outro do caçador. Sabemos bem em quem votar para a Cãmara, para tentar proteger dos abutres a vida da cidade. Podem destruir tudo para construir garagens onde guardar os vossos BMWs poluidores. Hão-de ficar com elas vazias no dia em que se proibir totalmente o transito de carros privados no Centro de Lisboa, e o mesmo acontecerá com os vossos apartamentos para turistas, quando esta onda turística passar. Porque vai passar. Nada é eterno neste mundo, nem a vossa vida, nem o vosso dinheiro.

  • Eduardo Almeida
    Responder

    Não quero acreditar em tal coisa……a minha loja, a nossa loja de desporto que nos habituou a ser seu cliente, e onde além de cliente era tratado como amigo…..espero que seja rebate falso, e que continue por muitos mais anos….Força amigo Dias e Mendes Pinto, não desistam

  • Frederico Guerra da Silva
    Responder

    Boa tarde, acabo de ler com muita tristeza o problema que se abateu sobre a Casa Senna. Meu avo paterno Joaquim Antonio da Silva, ja falecido era muito amigo do Sr. Frederico Carlos de Senna Cardoso, que por sua vez era padrinho de batismo de meu pai Frederico Sa da Siva ja falecido. Estive uma unica vez nessa loja em 1956. Desejo que os atuais donos superem as dificuldades.

  • Virgínia Oliveira
    Responder

    Isto é uma vergonha o que se está a passar no nosso País, especialmente em Lisboa. Somos um povo muito pacifico.

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