As lojas estão vazias e, em algumas delas, os lojistas ou os proprietários fumam à porta. Dificilmente se encontraria imagem mais desencorajadora. E reveladora. É certo que tal não sucede em todas, mas a generalizada ausência de clientela só a custo permite reparar nos escassos estabelecimentos comerciais que se vão safando. A meio da tarde de ontem, era muito o espaço por ocupar dentro das lojas da Avenida Guerra Junqueiro e da Praça de Londres.

 
A sofrer a severidade da crise nacional e de uma muito localizada e acentuada tendência de quebra de popularidade – evidenciada também pelo encerramento recente de diversas casas -, a outrora popular área comercial tenta dar a volta por cima com uma festa, a Open Night, a 6 de Junho, uma quinta-feira.

 
Inspirada por idêntica acção promovida no Chiado, a Open Night da Avenida Guerra Junqueiro e da Praça de Londres será marcada pelo alargar do horário de funcionamento das lojas até à meia-noite e por diversas actividades, sobretudo de animação de rua. Integrada na programação das Festas de Lisboa, contará com “passagens de modelos, cocktails, fados, música ao vivo, exposições de fotografias, um Flash Mob, uma Oyster’s Party, descontos especiais, promoções diversas, incluindo em viagens, rastreios de saúde, petiscos, tapas, provas de vinhos, lançamento de produtos e degustações”, entre outras.

 
O trânsito deverá ser cortado na Guerra Junqueiro para permitir a circulação pedonal e uma antiga loja será, naquela noite, convertida num espaço onde os pais poderão deixar as crianças durante a deambulação pela área. A ideia é trazer de volta o burburinho entretanto sumido.

 
Os organizadores da festa, um conjunto de comerciantes, fala mesmo no “relançamento do melhor centro comercial ao ar livre de Lisboa”. Na página do Facebook desta iniciativa prometem-se “muitas supresas” numa “noite inesquecível para toda a família” e o tom geral da mensagem é de celebração. Trata-se, nem mais nem menos, da antítese do sentimento prevalecente por ali. Em contraste com a vibração de tempos não muitos distantes, respira-se uma espécie de tristeza resignada.

 
“Isto sofreu uma grande transformação, não tem nada que ver com o que era”, assegura Luísa Moreira, 49 anos, funcionária da Perfumaria Casquilho há 19. Encostada ao balcão, recorda as dificuldades de outrora para encontrar um lugar de estacionamento como um bom indicador do que já foi a Guerra Junqueiro. Uma época em que a avenida, se quisesse, até podia viver apenas dos funcionários públicos que trabalham perto.

 
A torre do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social da Praça de Londres, o Instituto Superior Técnico, os serviços de atendimento da Segurança Social ou a sede da Caixa Geral de Depósitos garantiam muita clientela. Assim como os moradores de uma zona abastada da cidade. Tudo isso mudou, “a população está muito envelhecida e sobre os funcionários públicos nem precisamos de falar”, comenta Ana Pedro, 53 anos. A dona da Ourivesaria Fernandes, na Praça de Londres, está a fumar à porta e recorda momentos em que o desejava fazer, mas não podia, tal a azáfama. “Felizmente, não tinha tempo para isso”, diz.

 
A loja até não é assim tão antiga, tem onze anos. Mas é o suficiente para Ana afirmar: “Antigamente, as pessoas diziam que queriam comprar uma peça e só depois é que perguntavam o preço. Agora, perguntam preços, vão-se embora, voltam cá mais tarde, meses depois, a perguntar por coisas que já nem me lembro”.

 
Tal como outros colegas lojistas, por uma noite porá o cepticismo de lado. Embora não veja na linha do horizonte o regresso aos dias de agitação e entusiasmo mercantil, Ana acha que iniciativas como esta são importantes. O mesmo diz Manuel Silva, 79 anos, ao balcão da Le Tailleur Moderno, casa de roupa masculina de corte clássico. Nessa noite, promete fazer “preços mais cómodos” à clientela.

 
Algo que deveria servir de sinal para os restantes lojistas. Isto porque, assegura, até os que “têm dinheiro, agora, também fazem contas”. Manuel Silva diz que o maior problema da área é o envelhecimento da população, mas admite também que as roupas à venda na loja onde trabalha há três décadas estarão algo desfasadas dos gostos actuais.

 
A Le Tailleur Moderne fica do lado oposto da Perfumaria Casquilho, na parte inferior da Guerra Junqueiro. A lojista Luísa Moreira diz que uma das razões a contribuir para a quebra do movimento é a existência de arrumadores, que incomodam quem ali estaciona o carro e, no fundo, tornam o parqueamento mais caro.

 
A verdade é que, ontem à tarde, não havia sinal deles, muito possivelmente graças à presença bem visível de meia-dúzia de polícias municipais e da PSP. Desde a semana passada, estacionar na avenida é mais barato, pois a EMEL passou a zona de “vermelha” para “amarela”.

 

Texto e fotografia: Samuel Alemão

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