A propaganda às grandes superfícies entrou em guerra aberta no bairro de Alvalade. E é impossível escapar-lhe, porque ela saltou das televisões, instalou-se a nível local, cravou-se na calçada e já invade a vida das pessoas. Provoca poluição sonora e visual. Vai contra a tendência anunciada de apoio ao comércio tradicional e local, de que sempre viveu o bairro. E é, acima de tudo, uma guerra absurda. Porque o mercado não cresceu e a disputa afigura-se algo inglória, além de massacrar quem vive na zona.

Tudo começou há menos de três semanas, com a colocação de várias placas e bandeirolas anunciando a grande superfície que estava a chegar, o Continente, que quis dar-se a conhecer nos locais mais inesperados. Que podem ser o passeio em frente à esplanada de uma pastelaria, junto a uma passadeira, ou bem a meio da praça do Santo António, onde se espetaram na calçada algumas dessas placas. Que surgiram também nas áreas de influência da concorrência ou até mesmo em frente à sua porta, como sucedeu na Avenida Rio de Janeiro.

Um dos concorrentes, o Pingo Doce, não quis perder a oportunidade e partiu, de imediato, para a competição. Mandou entrar em acção os seus carros propaganda, que logo pela manhã passaram a desfilar pelas ruas, anunciando descontos alto e bom som e acordando os moradores ao som do “lá-lá-lá/lá/ Pingo Doce/venha cá”. Nada que não tivesse acontecido antes, porque o mesmo trólóló animara já as ruas do bairro no ano passado, quando abriu o Pingo Doce no centro comercial de Alvalade.

Até onde irá essa guerra e o ruído de fundo que faz, ainda não se sabe. O fenómeno é recente, mas ameaça ter vindo para ficar, com campanhas que não dão descanso, num bairro onde, nos últimos anos, os supermercados cresceram como cogumelos. Numa área diminuta entre a Avenida Rio de Janeiro, a Avenida de Roma e a Avenida Estados Unidos da América há seis: quatro Pingo Doce, um Lidl  e, agora, também um Continente. Que se disputem é uma questão entre eles, que pode até reverter num bem para os clientes, reduzindo os preços praticados, mas que o façam com tanto ruído de fundo é que parece ser demais.

“Contar com o Continente vai ser típico em Alvalade”, lê-se no cartaz afixado no cais da estação de Metro. A frase publicitária suscita surpresa e interrogação. Típico de Alvalade é, e foi sempre, desde que o bairro foi construído, a diversidade de pequenas lojas e a possibilidade de encontrar no bairro toda a espécie de comércio e serviços. Típico não foi nunca a concentração comercial em grandes superfícies, que agora disputam o mercado disponível. E ele já não é muito, dada a existência de tantos supermercados numa área cuja população não está a crescer ao mesmo ritmo dos “cogumelos” que se vão plantando no bairro.

 

Texto: Fernanda Ribeiro

  • João Barreta
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    Que uma pequena loja abra e outra encerre, ambas no bairro de Alvalade, a conclusão é que há procura para a primeira e deixou de existir para a segunda. Até aqui tudo bem (ou talvez não!).
    A realidade retratada na notícia é outra, bem distinta – se o Pingo Doce abre uma loja, o Continente segue o “exemplo” e outras da mesma “elite” poderão vir a fazer o mesmo a breve trecho, a conclusão é outra. Há comércio que vai ao encontro da procura e há procura que não encontra o “seu” comércio. Estejamos atentos !!!!!!!!!!!!

  • l.c
    Responder

    Tem toda a razão dr. barreta, o sr. melhor que ninguém o sabe… bem precisávamos de si noutros lugares onde não o souberam aproveitar devidamente.

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