Começou com um miar e acabou numa quase ovação. Mas também na revelação de uma heroína improvável. E a prova de que, por vezes, as ruas da cidade são uma comunidade à espera de expressar os mais fortes sentimentos. O bafo de calor desta manhã (quinta-feira) mal deixava respirar as velhotas, que à porta das lojas trocavam comentários sobre a crueldade deste início de estio e as maleitas de que elas, os familiares e os vizinhos padecerão, mas também sobre o aparente desgoverno do país.

 
Aos poucos, uma esquina no bairro dos Anjos foi atraindo as atenções dos transeuntes e a sua indiganção. Na varanda do primeiro andar do prédio situado entre a Rua do Zaire e a Rua do Forno do Tijolo, um magro gatinho cor de laranja fazia-se ouvir. A princípio, as pessoas achavam piada aos chamamentos. Pouco depois, aparceberam-se da angústia do bicho, exposto ao sol e com a porta da varanda fechada.

 
O gato miava cada vez com mais insistência. E começava a atingir parte dos seus objectivos: atrair as atenções. “Coitadinho”, “o que é que se passa com ele?”, “pobrezito, está ali ao sol e sem água”, “mas que crueldade, que donos fazem uma coisa destas?”, comentava-se. Mulheres de meia-idade poisavam os sacos de compras e esboçavam a sua indiganção. “O bicho vai morrer!”, dizia um homem, mais drástico. Tocava-se a campainha correspondente à casa do animal e ninguém atendia.

 
O que fazer? Chamar os bombeiros ou a polícia ou ambos? A audiência ia-se acumulando. Muita gente parava para ver. Os lojistas vinham cá fora. Vizinhos em tronco nu punham-se à janela. “Ele precisa de água, vai ficar desidratado”, começou a ouvir-se com insistência. E também necessitava de sombra, tal a inclemência do astro-rei àquela hora da manhã. Um operário de construção civil de um prédio em remodelação do outro lado da rua prontificou-se a trazer um escadote.

 
Iniciava-se a operação de salvamento. E, misto de atrapalhação, timidez e resistência em deixar cair a máscara de entrega sem rodeios imposta pelas regras de convivência na grande metrópole, ninguém sabia ao certo a quem entregar a missão e como levá-la a cabo. Um homem subiu e tentou colocar um recipiente de plástico com água. Era muito grande, não passava pelas grades. Meteu-se um mais pequeno. Uma senhora e a neta apanharam caixas de cartão e sugeriram improvisar um abrigo. O consolo do gato foi reduzido, pelo que continuou a miar. Chegou mais um escadote. E dos anónimos salta lá para cima uma rapariga.

 
A princípio, tentou perceber se a porta estava mesmo fechada. E estava. Mas ela insistia em tentar. Empurrava com força. Com muita força. “Será que ela vai arrombar a porta?”, questionavam-se alguns, atónitos. E as consequências legais de tal acto?, perguntavam-se outros. “Ela não pode arrombar a porta. Ainda vai ter problemas. Mais vale atirar o gato cá para baixo”, dizia-se. E a cada vez que se ouvia uma sirene, pensava-se que eram os bombeiros ou a polícia a caminho – que ninguém sabia se haviam sido chamados por alguém.

 
Tirar o bicho dali foi mesmo a solução encontrada. Atiraram um pano à voluntariosa rapariga e ela envolveu o queixoso felpudo nele. A gratidão nem sempre se mostra da forma mais evidente e a voluntária socorrista ainda recebeu um valente arranhão. Com o auxílio de outros transeuntes, fez descer a encomenda, levada por uma senhora que se prontificou em trata-lo e acarinhá-lo Suspensa pelo drama, a pequena multidão sorriu, congratulou-se pelo desfecho e foi desmobilizando.

 
Só faltava ajudar a socorrista. “Cuidado, veja lá não caia!”, dizia uma senhora. Desceu e recebeu os parabéns e um beijinho de uma transeunte. Ao Corvo, ela disse que se chama Sandra Duarte, tem 31 anos e nem sequer vive em Lisboa. “Sou do Norte, mas vivo em Munique há já cinco anos e estou aqui de férias. Estava a passar e não consegui resistir, tive pena do gato”, disse, a sorrir. As férias de uns, afinal, podem ser a salvação de outros.

 

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A socorrista voluntária no momento em que agarrou o gatinho esquecido na varanda.

Texto e fotografias: Samuel Alemão

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