O transporte urbano é cada vez mais problemático e novos sistemas de transporte personalizado e autónomo têm sido desenvolvidos nas últimas décadas. Eles estiveram em debate na Faculdade de Belas Artes, onde foram apresentados a alunos de Design de Equipamento. O impacto visual das soluções encontradas é grande, considerou a maioria.

 

Texto: Fernanda Ribeiro      Ilustração: Hugo Henriques
A ideia não é nova e, embora a muitos pareça uma utopia, está a ser estudada há 40 anos: a criação de um sistema de transporte rápido personalizado, que seja capaz de travar o caos do trânsito nas cidades.
Cabines que correm ao longo de treliças, elevadas a cerca de quatro metros de altura e apoiadas em suportes com uma pegada de apenas um metro quadrado, constituem a estrutura que tem sido desenvolvida em diversos países, dos Estados Unidos à Polónia, da Suécia a Inglaterra e Abu Dhabi. São os PRT ou podcars, veículos automatizados e autónomos, sem condutor, que fazem o transporte ponto a ponto dos passageiros.
Na Polónia está em desenvolvimento o sistema MISTER, enquanto em Uppsala, na Suécia, se estuda o sistema Vectus e, em Abu Dhabi , na cidade de Masdar, se desenvolve o sistema 2getthere. Em Portugal, foi desenvolvido o Cybercar, pelo Instituto Pedro Nunes, para aplicar no transporte de doentes do hospital Rovisco Pais, na Tocha, Cantanhede. Neste caso, porém, o veículo move-se à superfície e não em calhas, em estruturas elevadas no ar.
Estes projectos e esta visão de novos meios de transporte não poluentes foram apresentados dia 19 de Março aos alunos de Design de Equipamento da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, por iniciativa da professora da cadeira. O autor da conferência é um dos mais fervorosos adeptos destes novos sistemas, Luis Fraser Monteiro, professor aposentado da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UNL, convidado para a sessão e para quem “ estes são, inquestionavelmente,  os transportes do futuro”.
“O trânsito nas cidades tem de se reformar e isto não é utópico, nem futurista. Isto é o futuro”, salientou Fraser Monteiro, ao mostrar aos estudantes os diversos modelos de PRT (Personal Rapid Transit) e protótipos já desenvolvidos, alguns dos quais estão em funcionamento para percursos pontuais, como é o caso do Ultra, um veículo sem condutor já em uso no Terminal 5 do aeroporto de Heathrow, em Londres.
Mas a ideia, a ser aplicada em larga escala, como forma de remover o trânsito da superfície, não agradou a muitos dos estudantes de Design de Equipamento que participaram na sessão realizada nas Belas Artes. E gerou discussão.
O principal óbice encontrado foi o impacto visual das estruturas necessárias aos PRT. “O peso visual é muito grande. Seria impossível aplicar esse sistema na Baixa de Lisboa, por exemplo”,  afirmou um dos estudantes, abrindo o debate.
“Impossível é o trânsito na Baixa e ainda por lá andarem os autocarros de turismo e os Tuk.-tuk, isso é que é horroroso”, contrapôs Fraser Monteiro, para quem os PRT têm sobretudo vantagens face aos transportes actualmente existentes ”que implicam grandes gastos em petróleo e em infraestruturas, provocam poluição ambiental e continuam a ser dos principais responsáveis pela produção de gases de efeito estufa”.
“Mas o que aconteceria a uma cidade como Barcelona se este sistema fosse aplicado? Ele destruiria por completo a malha da cidade, que levou 100 anos a criar”, retorquiu um aluno, ao que outro acrescentava: “O impacto visual é imenso e isto vai alterar completamente o sítio e a paisagem onde o sistema está envolvido”. “Ah claro que vai, sem dúvida. Mas isto é o futuro, porque o presente é impossível”, dizia ainda Fraser Monteiro, sem desarmar.
Na sessão, apenas um estudante considerou “mínimo o impacto visual, se comparado com o que se vê nas ruas com os carros estacionados em diagonal, ou nos passeios, o que é pior”, disse.
“Então vais construir cidades novas, que sirvam para estes transportes é?”, inquiria outro, em tom de desafio. “Mas porque não aplicar este sistema à superfície, em vez de ser elevado no ar?”, perguntou um aluno.
As questões levantadas foram muitas e quase sempre suscitadas pelo impacto visual dos PRT, o que gerou até discussão entre os próprios alunos: “Se és designer e achas que isto é feio, então faz melhor”, desafiava uma aluna.
Fazer melhor é possível e desejável, considerou também Fraser Monteiro, para quem a tentativa que foi feita em Portugal, no município de Oeiras, com o SATU – Sistema Automático de Transporte Urbano – resultou num fiasco: “Aquilo foi mal feito, foi um erro, porque foram construídas estruturas pesadíssimas e caríssimas, quando se pode criar um sistema muito mais leve e com muito menos custos ”, disse Fraser Monteiro.
O debate foi aceso e quando a sessão terminou muitos alunos discutiam ainda o tema com Fraser Monteiro, o que levou a professora de Design de Equipamento a lançar-lhes um repto: “Apresentem propostas, façam críticas e sugestões”. Porque o debate sobre os transportes do futuro vai continuar.

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