Investigadores do Laboratório de Patologia Vegetal do Instituto Superior de Agronomia procuram formas de combate ao escaravelho-da-palmeira. E uma das possibilidades de virem a conseguir derrotar esta praga – que tem dizimado estas plantas em Lisboa e no resto do país – será através do uso dos próprios inimigos naturais deste insecto. Uma possível guerra biológica em perspectiva, com o nobre fim de salvar as palmeiras.

 

 

Texto: Rita Ponce          Fotografias: Cortesia ISA

 

 

O escaravelho-da-palmeira é a praga das palmeiras mais grave em todo o mundo, atacando várias espécies e comprometendo as produções de coco, tâmaras e óleo de palma em vários locais do globo. Em Lisboa, tem sido a causa de doença e morte de muitas destas plantas, algumas centenárias. Uma equipa de investigadores do Instituto Superior de Agronomia (ISA) estuda medidas inovadoras de combate ao insecto através do recurso aos seus próprios inimigos naturais, com o objectivo de desenvolver formas de luta biológica adaptadas ao nosso país.

 

A utilização de formas de controlo biológico de pragas é especialmente indicada nas cidades, pois “existem tremendas restrições à utilização de produtos fitofarmacêuticos em espaços urbanos”, explica Maria Filomena Caetano, a coordenadora do Laboratório de Patologia Vegetal do ISA, onde é feito este estudo. O controlo biológico é uma das armas utilizadas no Sul de França e em Espanha para combater esta praga. No entanto, os métodos de controlo biológico não devem ser directamente transpostos para outro país. “Um produto biológico deve ser produzido nas condições em que deve ser usado”, sublinha.

 

O projecto em curso envolve estudar as doenças das palmeiras – que, ao contrário do que commumente se julga, não são árvores – e analisar os fungos existentes nos escaravelhos que possam servir de instrumentos de luta biológica, conta Ana Paula Ramos, professora auxiliar do ISA. No início, são capturados escaravelhos das palmeiras doentes, isolando-se depois no laboratório os fungos associados aos insectos para serem analisados. “Existem poucos estudos sobre este assunto”, explica Ana Paula Ramos.

 

Os investigadores procuram fungos entomopatogénicos, ou seja, causadores de doenças em insectos, dedicando particular atenção a casulos ou insectos que tenham morrido por acção de fungos. Por fim, os fungos potencialmente mais agressivos para o escaravelho são seleccionados para estudos mais aprofundados.

 

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Este escaravelho, Rhynchophorus ferrugineus, é originário do sudoeste asiático, onde ataca o coqueiro. Nesta região também constitui uma praga, mas está limitado pelos seus inimigos naturais. No entanto, nas regiões do globo para onde se disseminou não tem predadores. “Pensa-se que a disseminação pela Ásia, África e Europa se tenha dado através do transporte e importação de plantas adultas contaminadas”, conta Ana Paula Ramos.

 

Em 1992, o escaravelho foi detectado no Egipto, onde começou a atacar a tamareira e a limitar a produção de tâmaras. Mais tarde, é registada a sua presença na Arábia Saudita e em Israel. Em 1994, é assinalado em Granada e em 2007 no Algarve, de onde se estendeu rapidamente a outras zonas do país. “Curiosamente, ao chegar à Península Ibérica, o escaravelho começou a atacar outra espécie, a Phoenix canariensis, a palmeira das Canárias, que anteriormente não era o seu hospedeiro de eleição”, faz notar a investigadora.

 

A dispersão destes animais permite o contágio de outras palmeiras, o que torna importante a identificação dos exemplares afectados e o seu tratamento, ou abate e remoção. As palmeiras mortas devem ser removidas pois não só podem continuar a ser um foco de contágio, como podem constituir um problema de segurança, devido ao risco de queda da planta ou folhas.

 

As características deste insectos dificulta, porém, a detecção precoce das palmeiras infestadas. Cada fêmea pode pôr até 200 ovos nas árvores e as larvas desenvolvem-se no seu interior, onde se alimentam da própria planta, abrindo galerias. Os adultos podem permanecer na árvore ou dispersar, pelo ar (podem voar cerca de cinco quilómetros) ou pelo solo. Este ciclo de vida dura entre três a quatro meses, dependendo da época do ano.

 

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A dispersão dos escaravelhos traz consigo outra ameaça às palmeiras. A equipa do ISA descobriu também que os escaravelhos podem transportar no corpo fungos fitopatogénicos causadores da podridão rosa e da podridão do tronco, outras doenças que também atacam as palmeiras, explica Ana Paula Ramos. Assim, ao dispersarem-se, podem também disseminar estas doenças.

 

A investigação decorre no Laboratório de Patologia Vegetal Veríssimo de Almeida, que, além da vertente de investigação e ensino, também presta serviços à comunidade. Estes primeiros resultados da caracterização dos microrganismos associados a este escaravelho – a sua microbiota – foram publicados este mês na Revista de Ciências Agrárias, tendo como autores cientistas do ISA e da empresa municipal CascaisAmbiente.

 

O Corvo tentou saber, junto da Câmara Municipal de Lisboa, os dados mais recentes sobre o programa desenvolvido pela autarquia de combate a esta praga, mas o assessor do vereador José Sá Fernandes, responsável pela Estrutura Verde, não adiantou qualquer informação sobre o assunto.

 

  • Sally Pethybridge
    Responder

    RT @ocorvo_noticias: Fungos podem vir a ajudar no combate ao escaravelho da palmeira – http://t.co/OlDkl3EUDE

  • Tuga News
    Responder

    [O Corvo] Fungos podem vir a ajudar no combate ao escaravelho da palmeira http://t.co/91qcQHj1yI

  • Rita Ponce
    Responder

    Fungos podem vir a ajudar no combate ao escaravelho da palmeira http://t.co/Y5kpT5NnIH

  • jorge serpa
    Responder

    Há cerca de 8 anos vinha uma notícia no semanário Expresso, e alguém que viu milhares de insectos a sair de um contentor.
    Como chegou o escaravelho à Madeira?
    Se ele vem da Ásia, passou por outros países europeus. Esses países ficaram sem palmeiras? Não fizeram estudos para combatê-las?

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