À entrada na última semana da edição de 2016 da Feira do Livro de Lisboa, O Corvo esteve à conversa com Paulo da Costa Domingos, livreiro, poeta, editor e responsável pela Frenesi, um dos mais distintos projectos livreiros lisboetas e nacionais. Uma voz original entre um mar de pavilhões no Parque Eduardo VII. São mais de 4500 títulos à espera de serem descobertos.

 

Texto: Rui Lagartinho            Fotografias: Paula Ferreira

 

Não precisa de acreditar em milagres para aproveitar a oportunidade. Mas a verdade é que, todos os anos, durante a Feira do Livro de Lisboa, o fenómeno repete-se. A Frenesi deixa de ser apenas um sítio electrónico de venda de livros “antigos, raros e esgotados”, como se anuncia na página, e converte-se numa livraria ao ar livre num dos pavilhões da Feira do Livro, este ano o D13.

 

Esta ala, à direita de quem sobe a partir do Marquês, é um dos recantos da Feira onde melhor se respira, uma vez passada a barragem de roulottes, trotinetes e motorizados com caixa aberta que vendem todo o tipo de sandes. Aqui, quase nos conseguimos projectar e reviver um tempo em que, à Feira do Livro, se vinha buscar catálogos e procurar tesouros.

 

Na tarde em que passámos pelo pavilhão da Frenesi, perdemos por pouco os momentos de felicidade de uma senhora que descobriu um exemplar precioso do poeta António Botto. Mas viemos a tempo de espreitar dois tesouros do pavilhão: um guia de viagens inglês sobre Espanha e Marrocos, que tem a curiosidade de incluir uma pintura que usa o conjunto das páginas do livro como tela para uma fore-edge painting, uma técnica que o valoriza como objecto bibliófilo e faz disparar o seu preço para mil euros.

 

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A outra relíquia que destacamos é um exemplar do livro de Cesário Verde dedicado pelo seu editor ao pintor Columbano Bordallo Pinheiro. Custa cinco mil euros. A estratosfera dos preços dos bibliófilos é algo com que Paulo da Costa Domingos – o homem à frente da Frenesi – lida bem. Embora desconfie de quem gosta mais do objecto que do conteúdo.

 

Mas este é também um pavilhão democrático em termos de preços. Nos expositores laterais, há livros a menos de cinco euros. “E há livros que não me passaria pela cabeça não trazer como, por exemplo, os romances do Júlio Verne, que são sempre muito procurados”, conta-nos o livreiro.

 

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No total, esta montra da Frenesi tem entre 4500 a 5000 títulos disponíveis, protegidos da chuva, “que caiu forte, no primeiro sábado, e que quase fez desmoronar um pavilhão vizinho assente numa zona mal escorada”, relata Paulo da Costa Domingos. A discussão das maleitas anunciadas pelo boletim meteorológico é sempre um clássico “destrava-línguas” com qualquer editor ou livreiro que vem à feira.

 

A Frenesi não compra livros por arrastão, técnica usada por quem compra bibliotecas inteiras, mas sim em leilões. Cada título foi, por isso, expressamente querido para estar ali.

 

Frenesi é um nome que se aplica como uma luva ao Paulo da Costa Domingues, que também é poeta e esteve editor mais de trinta anos – entre 1979, ano da plaquete Vala Comum, obra conjunta com o fotógrafo Paulo Nozolino, e 2009. Esteve – e não foi -, pois a Frenesi pode voltar, um dia, se o Paulo quiser. O último livro que publicou, “Narrativa”, uma espécie de manifesto sobre os livros e a sua própria vida, apostamos nós, é mais uma vírgula que um ponto final na actividade.

 

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Paulo da Costa Domingos pode zangar-se com o mundo, mas não consegue zangar-se com os livros. E, neste sexagenário de alma boémia, bem-apessoado, com uns óculos de fino titânio que nos inspiram confiança, repousa a tradição do editor que não dispensamos, sobretudo num tempo em que a morte de Vítor Silva Tavares, o editor da &etc, nos deixou órfãos.

 

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