Freguesia do Beato disponível para acolher gabinete de António Costa

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Samuel Alemão

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URBANISMO

Beato

21 Abril, 2014


Quando António Costa anunciou a saída do gabinete que ocupa, há três anos, no Largo do Intendente, garantiu haver “outras Mourarias” na cidade. Deixava assim no ar a possibilidade de repetir tal operação de regeneração urbana. Hugo Xambre, presidente da Junta do Beato, gostava que fosse na sua freguesia, marcada pela pobreza, envelhecimento da população e dos edifícios.

“Teríamos todo o gosto em recebê-lo cá. Gostava muito que isso sucedesse”. Hugo Xambre (PS) mostra toda a disponibilidade possível para ser o próximo anfitrião de António Costa, acaso ele decida repetir a experiência de descentralização do seu gabinete para o Largo do Intendente, durante os últimos três anos, e que agora chega ao fim. Questionado pelo Corvo, o presidente da Junta de Freguesia do Beato veria com muito bons olhos a repetição na área da sua jurisdição da experiência associada ao projecto de reabilitação da Mouraria e do troço inferior da Avenida da Almirante Reis – quase unanimente apontada como bom exemplo do trabalho de resgate de uma zona degradada, exibido por Costa com uma certa vaidade.

Quando, há cerca de um mês, anunciou que iria abandonar o gabinete naquela que foi a sua casa no último triénio, regressando ao seu espaço nos Paços dos Concelho – e apesar de admitir que ainda muito há a realizar na Mouraria e no Intendente -, António Costa disse que “há outras Mourarias” em Lisboa. Ou seja, existem outros locais da cidade a necessitar de uma profunda e multifacetada intervenção de reabilitação urbana, envolvendo não apenas a recuperação do espaço público e do edificado, mas também a um conjunto de acções de cariz social e cultural que envolva a comunidade e a faça sentir parte integrante da solução.

No caso da Mouraria, toda ou quase toda a acção foi coordenada pelo Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária (GABIP), instalado num edifício do Martim Moniz. Um modelo que será agora replicado na zona da Colina de Santana, integrado num pacote de medidas proposto pela câmara como solução para as muitas críticas e falhas – surgidas do ciclo de cinco debates, organizado pela Assembleia Municipal de Lisboa – apontadas ao mega-projecto imobiliário proposto pela empresa pública Estamo para os terrenos ocupados pelos hospitais de São José, Miguel Bombarda, Capuchos e Santa Marta. Tanto num caso, como no outro, são zonas com muitos edifícios degradados e uma população envelhecida.

Problemas comuns a várias zonas da cidade, Beato incluído. “Temos diversas zonas que precisam de uma intervenção especial, nomeadamente Xabregas e a área à volta do Convento do Beato. Mas isso teria de ser realizado não apenas pela Câmara de Lisboa, como também com recurso ao investimento privado, pois hoje é muito difícil mobilizar fundos públicos”, diz Hugo Xambre, para quem a implementação de um tal plano na sua freguesia, acompanhado da instalação do gabinete de António Costa, “teria tudo para correr bem”. “Era também uma forma de olhar com atenção para as potencialidades do Beato”, considera o autarca, que gostaria de ver esta área mais ligada ao resto da malha urbana da capital.

“Estou disponível para lhe ceder o meu gabinete para que ele se instale”, graceja o presidente da junta, que veria na possível mudança de António Costa uma excelente oportunidade para realizar um esforço concertado de regeneração de uma freguesia onde há “um edificado antigo, em mau estado”, sobretudo em antigas vilas operárias, e áreas onde o espaço público se encontra muito degradado. Em simultâneo, esse território é habitado por uma população especialmente vulnerável à presente crise económico, existindo diversas bolsas de pobreza idêntificadas. Uma operação de reabilitação urbana que integrasse um plano de acção social neste território seria, por isso, muito bem vinda.

Também o geógrafo e estudioso das realidades urbanas João Seixas, do Instituto de Ciências Sociais (ICS), acha que esta seria uma das áreas candidatas a acolher tal género de iniciativa. “Há zonas da cidade que continuam com muitas carências, além de que estão a sofrer imenso com a austeridade. Marvila, Poço do Bispo e Beato, por exemplo, são zonas com população muito envelhecida”, considera o especialista, que desempenha também o papel de conselheiro de António Costa para as questões de gestão do território. Feita a declaração de interesses ao Corvo, Seixas diz, porém, não possuir informações sobre que possíveis áreas poderão ser eleitas para repetir a experiência da Mouraria.

“A mudança do gabinete do presidente da câmara para um dos locais mais degradados , foi uma mensagem inspiradora. Pela surpresa e pela diferença, foi algo muito interessante”, diz o geógrafo, para quem o “efeito de pedrada no charco serve de mensagem para toda a cidade”. João Seixas salienta o facto de esse consulado no Largo do Intendente ter sido coordenado com “as dinâmicas que estão no terreno, com uma metodologia própria, e não com recurso a medidas avulsas”. Um tipo de processo que poderia ser levado por diante noutras zonas da cidade que continuam algo desgarradas da malha urbana. Como os bairros ou freguesias que comunicam com a periferia. “Seria interessante ver uma presidência instalada na Ameixoeira ou nas Portas de Benfica”.

Mas João Seixas faz questão de sublinhar os novos poderes conferidos às freguesias, através da concretização da recente reforma administrativa da cidade. “A própria reforma de Lisboa foi diferente da realizada no resto do país. A cidade ganhou 24 novas freguesias, que são entidades com muito maior capacidade política do que anteriormente e do que o verificado no resto do território nacional”, afirma o especialista, salientando que “a partir de agora, a governação da cidade passa a ser diferente, pois as freguesias podem elas mesmas, como novos poderes, fazer muita coisa”.

O Corvo também quis saber junto do presidente da Junta de Freguesia de Marvila se veria com bons olhos uma acção regeneradora idêntica à desencadeada na Mouraria. Mas Belarmino Silva, também eleito pelo PS, tem um discurso algo contraditório. Se, por um lado, garante não ver necessidade de tal coisa no território por si tutelado, admite que há zonas que necessitariam de um programa de reabilitação. É o caso da zona antiga da freguesia. “Estou farto de tentar convencer o Manuel Salgado para lá ir”, diz. Mas para Belarmino o que daria uma grande “impulso” a Marvila era mesmo a construção do há muito prometido Hospital de Todos-os-Santos.

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